Cuba é a maior prova de que a economia socialista dá certo

Portugal elegeu um governo socialista. Mais que isso, um governo com maioria no parlamento, ou seja, que não precisa de negociações ou coalisões para implementar as medidas que achar necessárias.

Como sempre acontece quando um governo socialista é eleito, já começaram na internet as conversas sobre como Portugal vai falir, como o Socialismo vai quebrar o país e todo o pacote de estupidez e fanatismo político da extrema-direita. Tudo isso, é claro, produzido pelo “Carluxo” e financiado com aquele dinheirinho do cartão corporativo.

As pessoas, não entendem o que é Socialismo ou Comunismo. Tudo que elas sabem é o que dizem os meios de comunicação, que sempre refletem as opiniões das elites que o Socialismo e o Comunismo combatem. Se perguntassem ao seu inimigo sobre você, como você acha que seriam as informações dadas por ele?

Depois da II Guerra Mundial, por décadas, os Estados Unidos da América fizeram uma intensa propaganda anticomunista. Eles, os estadunidenses, eram os “guardiões do mundo livre”, enquanto a União Soviética vivia atrás da “cortina de ferro”.

Durante as décadas da Guerra Fria, ninguém parece ter parado para pensar sobre a real liberdade que se tem no “mundo livre” ou no porquê daquela “cortina de ferro” estar lá.

Como era a vida de um cidadão do “mundo livre”?

De um lado acossado pela propaganda e pelo consumismo, sabendo que comprar, comprar, comprar era a única maneira de manter seu status perante a sociedade. Sua casa, através da hipoteca, era (por trinta anos ou mais) propriedade de um banco, que não hesitaria em colocá-lo, junto com sua família, no meio da rua se ele não pagasse em dia. Seu emprego dependia de um patrão que sabia que tinha de pagar a ele o mínimo possível para poder lucrar mais com a riqueza que ele gerava. Nas ruas ele enfrentava o caos e a violência de um mundo competitivo. Seus filhos estavam expostos aos traficantes de drogas, capitalistas extremos que destroem vidas diretamente em nome do lucro, enquanto os demais capitalistas fazem isso apenas indiretamente. A imensa economia dos Estados Unidos sempre sujeita às crises do Capitalismo, cada vez mais constantes: 1929, 1973, 1984, 2000, 2008, 2020… Com a desculpa da meritocracia os cidadãos do “mundo livre” descartavam seus semelhantes que não obtinham sucesso, focando a atenção apenas nos que ganhavam muito dinheiro. A essência da humanidade sendo perdida dia após dia em nome do faturamento bruto. Bruto e algumas vezes brutal.

Enquanto isso Stalin mentia para si mesmo e para o mundo ao dizer que a revolução havia acabado e que a União Soviética vivia o pleno Comunismo. Uma mentira que não se sustentava diante da realidade, como ficou evidente em dezembro de 1991, quando tudo desintegrou-se.

No meio de todo esse cenário, uma pequena ilha do Caribe fez sua revolução entre 1953 e 1959. Comandados por um homem chamado Fidel Alejandro Castro Ruz, os cubanos expulsaram um tirano chamado Fulgêncio Batista, que por décadas havia contribuído para tornar seu país o puteiro dos Estados Unidos, um quintal para a lavagem de dinheiro da Máfia estadunidense.

Fidel era um homem ímpar. Um verdadeiro apaixonado pelo povo cubano. Sempre foi um sujeito grandalhão, bonito e inteligente. Poderia ter seguido sua carreira como advogado, obtido sucesso, dinheiro e mulheres (e ele era maluco por mulheres…), mas preferiu trocar tudo isso por um tempo no cárcere, depois uma vida desconfortável nos acampamentos da Sierra Maestra. Até tomar o poder, no começo de 1959.

Estou falando de Fidel Castro porque é impossível falar em Cuba sem falar nele. Por décadas, até sua morte, Fidel conduziu os destinos daquela pequena ilha situada a poucas milhas da costa do principal inimigo, um gigante econômico e militar. Mesmo com um covarde embargo e enfrentando ações terroristas patrocinadas pela CIA, Fidel manteve Cuba no caminho do Socialismo.

Durante décadas os detratores de Cuba disseram que a ilha só sobrevivia por causa da ajuda da União Soviética. Eu ainda me lembro do alvoroço em 1991, quando a União Soviética deixou de existir. Os falsos profetas do liberalismo econômico, os “gênios” do Capitalismo, disseram todos em alto e bom som que Cuba não duraria mais um ano.

Trinta e um anos se passaram de lá para cá.

Um navio que atraque em um porto cubano não pode atracar por anos em um porto dos Estados Unidos. Uma empresa que negocie com Cuba não pode negociar com empresas dos Estados Unidos. Até não muito tempo atrás, se meu passaporte tivesse um visto de turista para Havana, eu possivelmente seria considerado persona non grata nos Estados Unidos. E os Estados Unidos têm a maior economia do mundo, pelo menos por enquanto.

Que capitão de navio não prefere comerciar com os Estados Unidos, onde há muito mais gente e dinheiro? Que empresa não prefere operar nos Estados Unidos do que na pequena ilha caribenha?

Ainda assim Cuba está de pé!

Faltam produtos, sim. Os carros são antigos, sim. Os prédios são velhos, sim. Mas todas as crianças cubanas estão na escola, de graça. Todos os cubanos têm igual acesso aos hospitais, de graça. As jovens cubanas agora têm escolhas profissionais, quando eram condenadas à prostituição antes da Revolução Cubana.

Por que o Capitalismo teme tanto Cuba? Por que a maior economia do mundo se preocupa em prejudicar uma das menores?

É que eles sabem o que eu também sei!

Se deixarem uma economia socialista em paz, logo o povo daquele país terá fartura, o país terá progresso, as pessoas terão educação e saúde.

É por isso que os Estados Unidos trabalham tão arduamente para destruir qualquer país socialista. Veja o que fizeram com a Venezuela! Um país rico de petróleo, que se alinha com uma política socialista, é logo atacado, inicialmente por meio da mídia, depois militarmente, pelos Estados Unidos! Se não o fazem diretamente, fazem isso através de seus títeres, como o Brasil. Não foi isso que Trump tentou convencer Bolsonaro a fazer em 2019? Se não fosse a covardia dos nossos militares, que só sabem atacar nosso próprio povo para obter privilégios, como picanha, cerveja, bonequinhos do Falcon e pensão vitalícia para as filhas, estaríamos em guerra com a Venezuela. Nossos jovens estariam morrendo para que os estadunidenses destruíssem um país que ousou afastar-se do Capitalismo.

Ao contrário do que dizem os celerados que acreditam nas fake news do WhatsApp, a economia socialista funciona. Funciona tão bem que Cuba está lá, sozinha, sem aliados, sendo atacada e embargada… mas está lá, ainda socialista, depois de seis décadas!

É por isso que eu parabenizo nossos irmãos proletários de Portugal pela vitória do Partido Socialista. E deixo aqui, como homenagem a eles, uma musiquinha que me foi enviada tempos atrás por um camarada do Partido Comunista de Portugal.

Proletários de todo mundo, uni-vos!

De Eichmann a Guedes: Como a economia determina massacres?

Na noite de 11 de maio de 1960, uma equipe da Mossad, agência israelense de inteligência, dirigiu-se à Rua Garibaldi, no bairro industrial de San Fernando, 20 km ao norte do centro de Buenos Aires. Lá eles conseguiram atrair para fora de casa e capturar um senhor magro e alto, de 54 anos, que lá vivia sob o nome de Ricardo Klement.

Ricardo Klement era, na verdade, Adolf Eichmann, um Oberstrumbannführer (Tenente Coronel) das SS, que durante a II Guerra Mundial havia sido nomeado pelo Obergruppenführer (Tenente General) Reinhard Heydrich (o Açougueiro de Praga) para a função de Chefe do Amt II do Gabinete Central de Segurança do Reich (RSHA), responsável pelas questões econômicas.

Adolf Eichmann foi identificado graças aos esforços de um judeu chamado Simon Wiesenthal, um sobrevivente de campo de concentração que resolveu dedicar sua vida a localizar criminosos de guerra nazistas. Ao saber da identificação positiva de Eichmann, o primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion deu instruções ao comandante da Mossad, general Isser Harel, para que capturasse Eichmann e o trouxesse para Israel para ser julgado por seus crimes. A decisão de Ben-Gurion deveu-se ao fato da Argentina recusar sempre a extradição de criminosos nazistas.

Isser Harel, um comandante dos velhos tempos, daqueles que lutavam lado a lado com seus subordinados, veio pessoalmente à Argentina para supervisionar a operação de captura de Adolf Eichmann.

Uma pergunta deve estar na sua mente: Por que um chefe-de Estado arriscaria um incidente diplomático e mandaria um dos seus principais chefes de espionagem pessoalmente para capturar um homem de meia idade que dirigia na guerra um escritório de administração econômica e nunca esteve em combate ou sequer passou perto de um campo de concentração em toda a sua vida?

Para entender isso é preciso compreender que o Holocausto não foi apenas uma operação de “limpeza racial”, como os nazistas queriam que o povo alemão acreditasse. Na verdade, o Holocausto foi uma das maiores operações de ROUBO da história.

O roubo começou antes dos campos de concentração. Os judeus foram privados de suas profissões ao serem proibidos de exercê-las. Depois suas casas e propriedades foram confiscadas. Depois, quando começaram os transportes para os campos, foram roubados em tudo que tinham guardado em dinheiro, joias e outros bens. Ao chegarem nos campos, suas malas e roupas eram roubadas e eles tinham de vestir os uniformes regulamentares, não tendo mais nada de seu. Aquelas pessoas morreram sem direito a uma foto dos entes queridos, uma memória de suas famílias.

A coisa, entretanto, não parava por aí. Os cabelos dos judeus, que eram raspados quando eles chegavam nos campos, passava a servir de estofamento para as botas dos soldados alemães que lutavam na gelada Frente Russa. Enquanto vivos, seus corpos eram usados em experiências médicas diversas. E quando seus cadáveres eram retirados das câmaras de gás, seus dentes de ouro eram arrancados antes que os corpos fossem atirados em valas com cal para se decomporem sem mau cheiro. Durante algum tempo os nazistas chegaram a tentar usar a gordura dos corpos mortos para fabricar óleo e sabão, mas a tentativa foi um fracasso, já que não dá para extrair muita gordura de pessoas que foram deixadas morrer de fome lentamente nos campos de concentração.

Toda a contabilidade desse imenso latrocínio, roubo seguido de morte, era feita pelo Amt II do RSHA, chefiado por Adolf Eichmann. Era esse órgão que contabilizava cada centavo roubado das vidas de seis milhões e meio de judeus, para não mencionar também os eslavos, os poloneses, os russos, os ciganos e outros grupos cuja existência incomodava Hitler e sua gang de criminosos.

Se tivesse sido apenas uma “limpeza étnica”, já teria sido suficientemente ruim. Mas do jeito que foi, o Holocausto foi motivado também pela ganância. O Reich, a partir de um certo momento, fundamentou sua economia no roubo praticado contra suas vítimas.

Falar em economia no Brasil de hoje nos leva, inevitavelmente, a pensar no “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, o economista Paulo Guedes.

Paulo Guedes explica: “Por ter um bilau pequeno, deste tamanho, é que eu quero me vingar e foder todo o povo brasileiro.”

Guedes fez sua fama como economista no Chile de Augusto Pinochet. E se, após sua passagem por lá, só havia gente falando bem de seus talentos como economista, isso se devia menos aos seus talentos do que ao hábito de Pinochet de mandar jogar nas geladas águas do Pacífico Sul, a partir de helicópteros, todos os que criticavam seu governo. Morta a oposição, só sobravam aqueles que elogiavam, fosse por medo ou concordância, os “Chicago Boys” que Pinochet contratou para reformar a economia chilena.

Foi com o que pilhou do Chile que Paulo Guedes tornou-se banqueiro no Brasil. E foi justamente ele, acostumado a ser economista de ditador, que Bolsonaro chamou para comandar a economia brasileira.

Ou melhor… Talvez tenha sido exatamente o contrário!

Foram as elites escravagistas do Brasil que convocaram Paulo Guedes para a tarefa de promover as reformas que eles julgavam necessárias para aumentar seus lucros. Assim como Hitler precisava de um economista sem sentimentos, como Eichmann, para contabilizar os lucros obtidos com a morte de milhões, as elites econômicas brasileiras precisavam de alguém que lhes possibilitasse ampliar seus lucros, mesmo às custas de vidas humanas. E quem melhor para isso do que alguém como Paulo Guedes, acostumado a ajustar economias matando pessoas em um regime ditatorial?

Claro que Paulo Guedes não teria condições de surgir do nada e ser eleito presidente. Ele não tem nem mesmo um vocabulário popular que permita uma comunicação direta com as massas!

Então as elites acharam Jair Bolsonaro. Campeão de votos que já acumulava sete mandatos como deputado federal. Sempre reeleito, mesmo sem jamais ter feito qualquer coisa de útil pelo Brasil ou pelo estado que o elegeu, o Rio de Janeiro, Bolsonaro tinha o que faltava a Guedes, ou seja, uma forma de comunicar-se com o povo de forma direta, de explorar os piores lados do povo brasileiro, como o medo e a violência, para conseguir votos.

De certa forma, foi Guedes quem colocou Bolsonaro na presidência.

Assisti, junto com minha esposa, à série de entrevistas que a Globo News fez, antes da eleição de 2018, com os economistas de cada um dos candidatos. Nós estranhamos imensamente a dinâmica diferenciada das entrevistas. Guilherme Mello, economista de Fernando Haddad (PT), mal conseguiu falar, crivado de perguntas pelos repórteres da bancada da Globo News. Enquanto isso, Paulo Guedes dominou a entrevista quando chegou sua vez. Miriam Leitão e Merval Pereira, que praticamente não deixaram Guilherme Mello responder, simplesmente calaram para que Paulo Guedes mentisse descaradamente sobre como reergueria o país com a venda do patrimônio público. Ele citava números e mais números que nunca se mostraram comprovados, mas eles calavam e deixavam que ele falasse.

Em março de 2020, quando começou a penetração da COVID-19 no Brasil, Bolsonaro dizia que só morreriam idosos e pessoas com comorbidades, ou seja, portadores de doenças crônicas. E ele dizia isso com tranquilidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se fosse até algo desejável. Quando via essas declarações de Bolsonaro, eu só conseguia pensar em Paulo Guedes fazendo as contas de quanto a Previdência Social economizaria com as mortes dessas pessoas. Afinal de contas, os filhos e filhas de civis mortos não herdam as pensões de seus pais de forma vitalícia, como acontece com as filhas “solteiras” dos nossos “valorosos e patrióticos” militares.

Quando Bolsonaro dizia que os hospitais de campanha eram caros demais, eu pensava nos relatórios do Amt II do RSHA, nos relatórios de Eichmann, que diziam ser mais barato exterminar os doentes mentais e paciente terminais do que construir novos hospitais para tratar dos soldados feridos em combate. Foi isso que Hitler fez através de um decreto no início da guerra.

Quando o Ministério da Saúde do desgoverno Bolsonaro enviou um médico com COVID-19 para examinar uma tribo indígena, eu pensei no Paulo Guedes contabilizando quanto o PIB brasileiro cresceria com o garimpo e a pecuária invadindo as reservas de indígenas exterminados pela pandemia.

Quando o desgoverno Bolsonaro se negava inicialmente a pagar o Auxílio Emergencial, e depois propunha apenas 200 reais, alegando que não tinha dinheiro para mais do que seis meses de auxílio, eu via ali a mão de Guedes querendo economizar. A mesma mão de Guedes que autorizou o Banco Central a liberar UM TRILHÃO E DUZENTOS BILHÕES para os bancos em março de 2020. Dinheiro o suficiente para pagar 24 meses de Auxílio Emergencial dado aos banqueiros, não aos pobres, com a anuência de Guedes, um banqueiro.

Sobretudo, quando Bolsonaro falava que as pessoas não podiam ficar em casa, mas tinham de sair e trabalhar para que a economia não parasse, eu não via essas palavras como um discurso de Bolsonaro, mas sim de um economista, mas sim de Paulo Guedes. Afinal de contas, Bolsonaro nunca havia sido muito amigo do trabalho mesmo.

Esse parece um homem preocupado com o trabalho???

Bolsonaro não tem intelecto para pensar nessas coisas sozinho. Foi seu patrão, Paulo Guedes (falando em nome de todos os banqueiros, grandes industriais, agropecuaristas, especuladores financeiros e todos os grandes exploradores do proletariado) quem colocou tudo isso na mente vazia do miliciano.

Eu quero muito ver Bolsonaro ser julgado em Haia por seus crimes contra a humanidade. Mas isso não me basta. Eu quero ver Paulo Guedes sentado ao lado dele no banco dos réus. Não podemos permitir que ele saia ileso depois ser corresponsável por setecentas mil mortes.

Quero finalizar falando um pouco sobre dois livros.

O primeiro é “Eichmann em Jerusalém”, de Hahhah Arendt, onde a autora discorre sobre o que ela chamou de “banalidade do mal”. Eichmann não matava, assinava papéis. Segundo ele próprio, nunca sacou uma arma, nunca matou ninguém. Mas os papéis que ele assinava determinavam políticas que mataram milhões. A maldade fica banalizada quando é reduzida a meros números e interesses econômicos. Mas isso não reduz em nada a natureza vil da maldade.

O segundo livro é “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini. O escritor fala nesse livro, baseado em sua própria vida, sobre a filosofia de vida de seu pai, que dizia que todo crime é um crime de roubo. Quando você assalta um homem, rouba sua propriedade. Quando o mata, rouba sua vida. Quando o humilha, rouba sua dignidade.

O que assistimos no Brasil, de 2019 para cá, é um imenso crime de roubo. Estamos sendo saqueados pelas elites econômicas e pela verdadeira pátria de homens como Guedes e Bolsonaro, os Estados Unidos da América do Norte.

Desculpe, pobre de direita, mas você não é capitalista…

Uma das propostas de reforma tributária que mais precisamos discutir, e implementar, é a da taxação das grandes fortunas. A verdade é que os muito ricos praticamente não pagam impostos. Pelo menos, não na proporção das suas riquezas acumuladas.

Ao redor do mundo, muitos milionários reconhecem isso e até elaboraram um manifesto pedindo aos governos que os taxem para custear o combate à pandemia.

Curiosamente, não são os muito ricos os maiores opositores dessa ideia. Pelo menos não publicamente. A verdade é que os maiores opositores da taxação dos ricos são exatamente aqueles que mais se beneficiariam dela, ou seja… os muito pobres!

Embora tenha se tornado muito mais visível na última década, o pobre de direita não é um fenômeno novo. É bem sabido que as classes menos favorecidas da população são justamente as mais conservadoras, sempre tendendo a apoiar a manutenção do status quo, mesmo quando este status quo não é favorável a essas classes.

A chave para entender o comportamento dos chamados “pobres de direita” está no significado atribuído por Karl Marx à palavra IDEOLOGIA.

Essa palavra tem sido usada erradamente em muitas ocasiões. Tornou-se, nos últimos anos, praticamente um sinônimo de “ideário”, ou seja, conjunto de ideias.

Para Karl Marx, no entanto, ideologia não é isso. Para ele, ideologia é uma construção social e cultural das classes dominantes para iludir as classes dominadas.

Para saber mais sobre ideologia, sugiro que assista esse vídeo do meu curso “O Bê-A-Bá do Marxismo” no Youtube. É de graça e não paga nada!

Um exemplo de ideologia como ilusão é a tal “meritocracia”.

As pessoas foram convencidas de que seu sucesso depende do mérito. Então, se você não tem sucesso, é porque não tem mérito, ou seja, não tem merecimento, não tem qualidades ou atitudes que justifiquem o seu sucesso. Como se houvesse uma entidade mágica em algum lugar, observando a humanidade e dizendo “Este aqui trabalha muito e se esforça, então receberá riquezas e glória. Este outro é preguiçoso e ficará na miséria”.

O problema é que as coisas não são assim. Ha pessoas, e muitas, que são muito trabalhadoras, muito esforçadas, mas que não conseguem nada na vida. Enquanto isso, o padrão entre os riquinhos que circulam por aí, pelas baladas da vida, é que sejam ricos por herança, ou seja, sem nenhum mérito pessoal. São ricos porque receberam a riqueza dos pais.

Apesar de tudo isso ser facilmente observável, tanto pelo senso comum quanto por estudos sociais, as pessoas continuam acreditando na armadilha ideológica da “meritocracia”, simplesmente porque isso é bombardeado nas cabeças deles o tempo todo. Pode ser através de novelas da Rede Globo, como “Rainha da Sucata”, que mostram sempre uma pessoa que nasceu pobre, mas subiu na vida através de muito esforço. Ou pode ser por pregação direta, como nas postagens do LinkedIn ou palestras dos “coaches”.

De uma forma ou de outra, a sociedade fica coaxando sobre meritocracia repetidamente, até que a maioria da população acredite. (Desculpe, não resisti ao trocadilho entre a voz dos sapos e rãs e os discursos irritantes dos “coaches”.)

No entanto, será que um empresário rico que está sentado na Hípica em um almoço de negócios, com ar condicionado e vinhos raros, realmente se esforça tanto quanto um estivador do cais do porto? Nunca!

Será que aquele trabalhador braçal que mora lá longe no subúrbio, gasta duas horas dentro de transportes coletivos para chegar no trabalho pela manhã, trabalha pesado o dia todo, depois gasta mais duas horas para voltar para casa, é pobre porque não se esforça? Claro que não!

Mas é isso que é empurrado na cabeça dele, fazendo-o acreditar que seu patrão, que na maioria das vezes nunca bateu um prego na vida, tem tudo que tem porque é mais esforçado que ele. E assim ele segue querendo esforçar-se cada vez mais, trabalhar cada vez mais, empreender…

Não é por acaso que a Síndrome de Burnout (exaustão) afeta tantos trabalhadores hoje, é? Culpa da ideologia da meritocracia!

Outro exemplo notável de proposição ideológica é o conservadorismo sexual. As camadas mais pobres da população são ensinadas, inclusive com o apoio das igrejas, dos padres e pastores, a seguir um moralismo sexual muito estrito. São muitos itens como “casamento é feito por deus e indissolúvel”, “tem de haver fidelidade conjugal”… Tudo muito bonitinho, não é?

As classes sociais dominantes, os ricos, plantam na mente dos proletários essas falsas noções morais, por motivos bem definidos. Um operário que está passando por um divórcio reduz sua produtividade. Um operário que está tendo um caso pode ter problemas no casamento e chegar ao divórcio, comprometendo sua produtividade. Mas as mesmas classes dominantes não vivem por essa moral sexual estrita que é empurrada na mente dos trabalhadores. Quantos casamentos e divórcios teve Roberto Justus? Ou os atores e atrizes da Rede Globo, os mesmos que encenam novelas com finais “felizes para sempre”? E a extensa rede de casos e trocas de parceiros que existe entre essas classes privilegiadas?

Uma moralidade para os ricos, outra para os pobres!

Um dos objetivos da ideologia, no sentido marxista da palavra, é impedir que as pessoas desenvolvam o que Marx chama de “consciência de classe”, ou seja, que elas compreendam realmente quais são as relações sociais de produção que as mantém na pobreza extrema, enquanto outros acumulam capital.

A falta de consciência de classe é a mãe dos pobres de direita. Sem consciência de classe o proletário acaba achando que pertence à mesma classe do patrão; acredita sinceramente que tem os mesmos interesses do patrão; que o que é bom para o patrão, também é bom para ele. Nada disso, no entanto, é verdade. São apenas ilusões plantadas pela ideologia.

Os muito ricos, no entanto, têm uma forte consciência de classe. Para começar, por mais que falem em “igualdade”, eles só se relacionam com outros muito ricos. Se você duvida, consulte a sua agenda e tente descobrir quando foi a última vez que o Bill Gate, o Elon Musk ou o Jeff Bezos te convidaram para um cafezinho.

Para tirar as pessoas das ilusões geradas pela ideologia imposta pelas classes dominantes, algumas vezes é preciso um tratamento de choque. Esfregar na cara do trabalhador alguns fatos duros, mas necessários. Foi por isso que fiquei muito feliz quando vi circular no LinkedIn um excelente vídeo do Felipe Castanhari, um dos meus youtubers prediletos. O vídeo é este:

O que o Felipe Castanhari explica nesse vídeo é, basicamente, que mesmo você que ganha 30, 40, 50 mil reais, ainda é pobre. Você vive melhor que quem ganha salário mínimo, obviamente, mas não é rico. Não é um capitalista.

Porque capitalistas são as pessoas que acumulam capital em grandes quantidades. Como o Eduardo Saverin, mencionado no vídeo do Felipe Castanhari, que possui uma fortuna de quase cem bilhões.

Portanto, quando você ouvir falar em “taxação das grandes fortunas”, fique sabendo que não estamos falando do seu celular Motorola com a tela trincada, ou do seu Ford Taurus 2000 financiado, que você ainda tem vinte prestações para pagar. Muito menos do seu apartamento alugado.

Taxar as grandes fortunas não afeta você. Ou melhor, afeta… positivamente!

Com a taxação das grandes fortunas o Estado terá recursos para melhorar saúde, educação e segurança, que são as obrigações mais fundamentais do Estado.

É preciso que o trabalhador brasileiro entenda a noção marxista de proletariado. Para Karl Marx, qualquer pessoa que precisa vender sua força de trabalho para viver, é um proletário.

Segundo esse conceito, se você ganha 1.000 ou 100.000 por mês vendendo a sua força de trabalho, não importa: você é proletário do mesmo jeito.

Porque a pessoa que ganha 100.000 de salário mensal não pode simplesmente parar de trabalhar. Se ela fizer isso, por querer ou porque ficou desempregada, logo a sua situação financeira irá deteriorar-se, já que essa pessoa possui compromissos que são proporcionais à sua renda.

Se ela ganha cem mil por mês, não mora em um quarto sala e cozinha no subúrbio, mas em um bonito apartamento de condomínio. Mesmo que o apartamento seja dela, tem o IPTU anual e o alto condomínio mensal. Tem a escola dos filhos, que não é a escola pública do bairro, mas uma escola particular. Enquanto o proletário que ganha um salário mínimo tem sua diversão tomando duas cervejas no boteco da esquina com os amigos, o proletário de cem mil reais por mês provavelmente toma whisky, bebe vinhos caros ou compra aqueles kits para fabricar sua própria cerveja e sentir-se um yuppie estadunidense. E ainda tem aqueles que gastam mais do que ganham e, mesmo com salário alto, estão até o pescoço no cartão de crédito e no cheque especial, que cobram juros altíssimos dos inadimplentes.

Retire dessa pessoa o salário de cem mil por apenas seis meses, e ela estará quebrada. Isso é verdade em qualquer parte do mundo e muito mais verdade no Brasil, onde a captação da poupança é muito baixa. Quase ninguém tem reservas. Muitos vivem mesmo é de salários futuros, usando cartões de crédito e crediários para o consumismo cotidiano.

Portanto, fique atento ao seguinte critério: SE VOCÊ NÃO TEM CAPITAL ACUMULADO PARA PARAR DE TRABALHAR PELO RESTO DE SUA VIDA E AINDA VIVER CONFORTAVELMENTE E GARANTIR O CONFORTO DAS SUAS GERAÇÕES FUTURAS, VOCÊ NÃO É CAPITALISTA PORRA NENHUMA!

Se for esse o seu caso, e mesmo assim você defende sempre o lado dos muito ricos, você não é capitalista por isso. É apenas uma pessoa muito burra!

Olavo de Carvalho está morto… finalmente!

Quatro da madrugada, como sempre, acordei. Levei meu notebook para a varanda do meu quarto, de onde gosto de ver o sol nascer todos os dias. Como sempre, vou direto à página de notícias para saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo. E lá descubro sobre a morte de Olavo de Carvalho.

Poucas pessoas no mundo me causaram tanta repulsa quanto Olavo de Carvalho. Nem mesmo Jair Bolsonaro, a quem dedico enorme asco. Até porque, Jair Bolsonaro nunca seria possível sem Olavo de Carvalho. Se existiu um responsável direto pela estupidez que levou as pessoas a votarem em Bolsonaro, este foi Olavo de Carvalho.

Olavo de Carvalho ensinou a toda uma geração que ignorância é melhor que conhecimento. Apesar de ter escrito um livro intitulado “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, as “aulas” de Olavo de Carvalho eram verdadeiras usinas de moer cérebros. Uma escola de formar idiotas.

Olavo acreditava que, mesmo sem nunca ter ultrapassado a sexta série primária, sabia mais sobre tudo do que qualquer pessoa. Ele era um caso de estudo clássico para a Efeito Dunning-Kruger, ou seja, um idiota que acredita que sabe mais do que as pessoas que estudaram, justamente por ser um idiota.

As teses de Olavo sobre Filosofia fariam corar os filósofos de quem ele falava. Inverteu toda a lógica Kantiana enquanto dizia ser o maior especialista em Kant no mundo inteiro. Sobre Isaac Newton, dizia que as descobertas dele sobre a gravitação universal tinham como único objetivo destruir a Igreja Católica. Quem diria! A gravidade, segundo Olavo, era coisa do diabo! E muitos davam atenção a um estúpido deste nível.

Em outra de suas “aulas” ele dizia que Einstein estava errado em sua Relatividade Geral, porque ele (Olavo) simplesmente não podia conceber a curvatura do espaço-tempo. Em suma, para Olavo de Carvalho a ciência deveria orientar-se não por teses verificadas por experimentos rigorosos, mas pelas limitações mentais dele. É o que eu chamo de “subjetividade dominante”, uma das mais marcantes características da estupidez que reina em nossos tempos. É com base nela que tantos idiotas alegam que a Terra é plana, afirmando que eles não conseguem perceber a curvatura da Terra.

Sobre a Terra, por sinal, Olavo afirmava que não existiam provas de que era plana ou esferoide. Uma declaração que prova a extensão de sua ignorância, já que as provas em favor da Terra esferoide datam de milhares de anos. Já se vão mais de 2300 anos desde que Eratóstenes calculou, com notável precisão, o raio da Terra, mas Olavo via o mundo pelos olhos de sua própria ignorância.

Astrólogo e muçulmano no passado, Olavo de Carvalho passou os últimos anos de sua vida alegando ser um católico conservador, um desses ultra-católicos que negam a autoridade do Papa Francisco, a quem Olavo chamava abertamente de comunista.

Apesar de dizer-se mais sábio que todos e apresentar-se como “o melhor filósofo de todos os tempos”, Olavo de Carvalho optou por nunca levar seus supostos conhecimentos para a validação na Academia. Como qualquer pessoa, Olavo poderia apresentar suas teses para tentar obter uma Livre Docência, ou seja, o reconhecimento da Academia de que era pessoa de notório saber.

A opção dele não foi por acaso. Ele escolheu desprezar a Academia porque sabia que suas falácias e idiotices jamais passariam pelo crivo acadêmico. Suas mentiras seriam desmentidas e desmontadas pelo primeiro intelectual de verdade com quem debatesse.

Por isso mesmo Olavo não debatia com ninguém que, mesmo remotamente, discordasse dele. Diante dos desafios que recebia para confrontar ideias, Olavo simplesmente xingava e colocava apelidos para ridicularizar as pessoas. Essa era a grande especialidade dele. Sempre que um intelectual de verdade questionava suas afirmações, Olavo colocava um apelido nele e o ridicularizava diante de seus estudantes, que saíam acreditando que Olavo era um gênio, sem perceber a verdade: Ele fugia dos debates!

Eu mesmo convidei Olavo para debater publicamente diversas vezes. Enviei para ele minhas considerações sobre as teses dele, em tom polido e acadêmico. Incapaz de responder-me, Olavo bloqueou-me no Twitter depois de xingar-me.

Eu não guardo ressentimentos. Não pelos xingamentos. Reconheço que essa é a única linguagem que ele tinha condições de compreender com seus parcos conhecimentos e sua cultura artificial, que só convencia as pessoas sem estudo, as pessoas frustradas por não terem conseguido uma vida acadêmica por incapacidade ou preguiça. Olavo e seus seguidores são, em relação à Academia, representações vivas da raposa da fábula de La Fontaine. São não podiam ter as uvas que cobiçavam, classificam-nas como verdes.

Guardo ressentimento, sim, porque Olavo fez muito mal ao Brasil. Convenceu toda uma geração de que o ad hominem é um argumento válido. Empurrou nas mentes idiotizadas pelo BBB e pelo sertanejo universitário noções falsas sobre o Comunismo. Combateu a verdadeira Filosofia e a verdadeira Ciência com suas teses ignorantes e sem fundamentação. Ajudou a formar o “mito” Bolsonaro, convencendo milhões de pessoas de que ser grosseiro e vulgar era sintoma de honestidade e sinceridade.

Não, não há perdão para Olavo de Carvalho. Diante da morte dele, quase desejei que toda essa patuscada sobre inferno fosse verdadeira, para que ele pudesse queimar lá por toda a eternidade. Mas sou inteligente demais para acreditar nessas besteiras e não quero descer ao nível do Olavo.

Para mim basta que ele não exista mais. E que seja gradualmente esquecido, não tendo mais a oportunidade de falar suas besteiras para as gerações futuras. O dano que ele fez, está feito. Já temos muitos olavetes estupidificados circulando por aí, mas esses também partirão no devido tempo.

Diante da morte de Olavo de Carvalho, só fica em mim um medo bobo. O medo de que haja um apocalipse zumbi e ele volte para comer cérebros. Mas depois eu lembro que Olavo de Carvalho não precisaria morrer para isso, porque ele já devorava cérebros mesmo quando estava vivo.

Vá em paz, Olavo… e não volte!

Quando foi que o mundo ficou tão burro?

Algumas vezes me sinto como o personagem de Washington Irving, Rip van Winkle, que deita recostado em uma árvore durante uma caçada e acaba dormindo por cem anos, tendo de conviver com as mudanças do mundo ao seu redor quando acorda.

O problema é que eu não dormi por cem anos, mas a sociedade mudou completamente ao meu redor, ao ponto de não a reconhecer em absoluto em alguns momentos.

Há os aspectos tecnológicos, claro. Hoje eu ando com um celular no bolso, com dois chips de operadoras diferentes. Posso ligar para o Brasil e para o mundo com o toque de um dedo. Na minha infância, nos distantes anos 70 do século XX, eu tinha de pegar um saco daquelas fichas telefônicas de metal e sair procurando um orelhão que não tivesse sido depredado no Rio de Janeiro.

Eu, no entanto, não me surpreendo tanto com os avanços tecnológicos. Até porque a minha geração esperava muito mais do que o que temos hoje! A séries “Os Jetsons”, criada entre 1962 e 1963 (mais velha que eu, portanto, já que sou de 1968) previa que os humanos do século XXI teriam carros voadores, robôs inteligentes fazendo o trabalho doméstico e uma série de avanços tecnológicos que ainda não temos. Nós esperávamos mais do século XXI!

Agora mais de um quinto do século XXI já se passou e, ao contrário do esperado, os carros não voam, os robôs de serviços domésticos não são nada inteligentes.

Robô aspirador Xiaomi

As maravilhas tecnológicas dos Jetsons não chegaram. Por outro lado, um fenômeno muito desagradável aconteceu: a humanidade emburreceu!

Duvida da minha afirmação? Pois pesquise “terraplanismo” no Google! Eu fiz isso e esbarrei com 115.000 resultados. São apenas os que o Google achou em uma consulta rápida (0,37 segundos). E olha que eu pesquisei o termo em português. Se eu tivesse pesquisado em inglês, certamente acharia um número muito maior de referências.

Note o destaque em amarelo na imagem acima. Trata-se de um link para uma proposta legislativa sobre esse tema. Não resisti e fui lá ver do que se tratava. O que achei foi isso aqui:

Um tal de Elizeu Lamosa Prado, de São Paulo, realmente teve a coragem de ir no site do Congresso Nacional para dizer que as experiências estúpidas conduzidas por iletrados do Youtube devem servir de base para o reconhecimento do terraplanismo como um movimento cultural e que o terraplanismo deve ser ensinado nas escolas!

Não, eu não estou brincando. Aqui está o link para quem quiser consultar. Alguém realmente propôs isso. E, pior ainda, teve o apoio de 1.249 outras pessoas!

A quantidade aceitável de terraplanistas no mundo de hoje, é claro, é ZERO. Nós fazemos viagens espaciais. Nós fotografamos a Terra de fora da Terra. Nós estamos pensando em colonizar Marte. E, enquanto isso, tantas pessoas aqui na Terra acreditam que o Sistema Solar é assim…

Se o terraplanismo fosse o único sintoma de burrice, tudo bem… Seria absurdo, claro, mas é sempre esperável que uma parcela da população tenha problemas mentais e que parte desses problemas sejam na área cognitiva.

A questão é que não se trata só disso.

Os jornais! Ah, os jornais! Eu sempre amei ler os jornais. Desde criança esse era um momento especial no meu dia. Como minha família era muito pobre e não podia comprar jornais diariamente, eu caminhava todas as tardes até a biblioteca do bairro e lá lia pelo menos um jornal. Nos finais de semana eu lia muito mais, pois ia até a Biblioteca Nacional, no Centro do Rio, onde passava o dia lendo.

Hoje eu não tenho mais coragem de ler jornais. Aliás, não leio mais revistas também. São tantos os erros de gramática e ortografia que eu fico realmente irritado. Como essa matéria da Veja de ontem.

Quando foi que as pessoas que lidam com as palavras esqueceram como usar uma crase? Uma simples crase?! A Veja, uma das maiores revistas do país. Golpista, eu sei, mas ainda assim uma das maiores revistas do país. Será que eles não têm dinheiro para contratar revisores? Ou, se tem, quando foi que os revisores pararam de estudar a Língua Portuguesa?

Não são apenas erros de gramática ou ortografia. Dá uma olhada nisso.

Isso mesmo. O Correio Braziliense escreveu sobre a ida à Lua citando Louis Armstrong, quando quem foi à Lua foi Neil Armstrong.

Louis Armstrong, músico, e Neil Armstrong, astronauta

Quando foi que ficamos tão burros?

Ou será que o problema não é a burrice, mas a arrogância?

Sim, arrogância. Nada pode ser mais arrogante do que um terraplanista, por exemplo. Pessoas sem qualquer formação específica que resolvem postar vídeos absurdos como este em que uma pessoa tenta “provar” que a Terra é plana usando uma régua!!!

É a arrogância da ignorância. O sujeito não estudou o suficiente para entender o fenômeno da curvatura, mas ele julga que a experiência patética dele com a régua é mais importante do que séculos de estudo. Sim, séculos, porque qualquer dúvida sobre a esfericidade da Terra foi dissipada há cerca de 2.300 anos, quando Eratóstenes de Cirene mediu o raio da Terra com uma notável precisão, através de uma experiência fundamentada justamente no conceito de esfericidade.

Se eu tentar explicar isso a um terraplanista (e, acredite, eu já tentei…) ele dirá que eu estou errado e apresentará outro vídeo idiota do Youtube como “prova”. Se eu tentar argumentar que sou Mestre em Geometria Diferencial e, por conseguinte, compreendo melhor que ele o conceito de curvatura, serei acusado de “usar títulos para calar a ciência dele”.

Sim, porque a estupidez hoje em dia se protege do aprendizado alegando que tudo é democracia e que a opinião de um vale tanto quanto a opinião do outro. Mesmo quando um não passou da sexta série primária, como Olavo de Carvalho, e o outro é um Doutor em Matemática, como eu.

Há em nossa sociedade uma confusão notável entre os termos gregos episteme e doxa. Episteme é conhecimento produzido através de estudos e validado por pessoas daquela área, que se portam ceticamente com relação a tudo e avaliam cada nova tese com desconfiança e prudência. Doxa é crença, pura e simplesmente, ou seja, aquilo em que se acredita sem qualquer fundamento de pesquisa ou analise.

Há um vídeo do “filósofo” Olavo de Carvalho no Youtube em que ele questiona a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, alegando que ele, Olavo, “não consegue conceber a curvatura do espaço-tempo”. Observa-se nesse comentário, claramente, a arrogância que mencionei acima. A limitação mental de Olavo, que não conseguiu sair do que na época chamávamos de “ensino primário”, passa a ser o parâmetro usado por ele para tentar negar uma das mais testadas e comprovadas teorias científica do século XX.

Se o mundo tivesse evoluído como eu pensava lá nos anos 70 que evoluiria, pessoas como Olavo de Carvalho e os terraplanistas seriam meras curiosidades acadêmicas. Estariam em instituições para doentes mentais, sendo estudadas por profissionais competentes, na tentativa de entender como suas mentes foram distorcidas ao ponto de acreditarem nas coisas que acreditam. No caso particular do Olavo de Carvalho, que apresenta a si mesmo como “o maior filósofo de todos os tempos”, haveria também uma junta de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas estudando o que afirmo ser um dos maiores casos de megalomania de todos os tempos.

Por trás disso tudo, porém, estão a estupidez e a ignorância. Essas pessoas encontram audiência justamente por causa desses fatores. Os terraplanistas cinquentões de hoje são aqueles meus contemporâneos de escola que só gostavam de jogar bola e que riam de mim por preferir estudar.

É por causa da estupidez e da ignorância que temos tantos negacionistas da ciência; que temos tantas pessoas morrendo para não tomar vacinas; que temos pessoas acreditando na honestidade e no patriotismo de um deputado corrupto e inútil que acabou eleito presidente em 2018.

Quando foi que nossa sociedade humana ficou tão burra? Vivo a perguntar-me isso ultimamente. E o fato de fazer a mim mesmo essa pergunta é talvez um sintoma de que não escapei ileso do processo de emburrecimento. Porque tudo estava lá, o tempo todo, diante dos meus olhos. Eu deveria ter percebido o que estava acontecendo.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando a música brasileira de qualidade foi substituída pelo “pseudo-sertanejo” de Chitaozinho e Chororó e, posteriormente, pelo “sertanejo universitário”.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando notei a proliferação das igrejinhas de garagem e o enriquecimento monstruoso de impérios da fé como o de Edir Macedo e Waldemiro Santiago.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando notei que minha própria mãe, que na juventude lia muito e se comunicava bem em três idiomas, passou a escrever errado nas mensagens que me mandava pelo Whatsapp.

Não há desculpa. Eu também fiquei burro, pelo jeito. Ou simplesmente recusei-me a enxergar um fenômeno tão óbvio por razões psicológicas. Mas o simples fato de estar aqui, junto com você, fazendo esse questionamento, já me dá alguma esperança. Talvez nós, que estamos aqui refletindo juntos, ainda não estejamos tão burros. Talvez possamos reconstruir juntos uma sociedade humana pensante e inteligente.

Quando se atravessa o Atlântico voando, existe o que se chama de “ponto de não-retorno”. É quando o combustível restante no avião não basta mais para voltar ao aeroporto de origem e tudo que resta é seguir voando em frente.

Não, ainda não é o fim do mundo. Mas se não fizermos algo urgentemente, logo ultrapassaremos o ponto de não-retorno da civilização e tudo que nos restará será seguir em frente, em direção à barbárie.

Proteção desprotege e carinho demais faz arrepender

Um amigo veio pedir-me um conselho. Sempre que isso acontece, e acontece com mais frequência do que seria de se esperar, eu fico surpreso por alguém achar que eu tenho como aconselhar. Justo eu que penso tanto sobre minha própria vida e tenho tanto trabalho para administrá-la…

O problema do meu amigo é que a filha, de dezoito anos, arranjou um namoradinho meio “vagabundo”. Desses rapazes de hoje em dia, que acham legal vestir as calças de modo que as cuecas fiquem aparecendo. Meu amigo é muito rigoroso na educação dos filhos. É religioso, protestante, apegado aos “tradicionais valores cristãos”. A filha de dezoito anos nunca havia tido um namorado. Pelo menos na cabeça dele, claro.

Aí a moça chegou em casa com esse rapaz e meu amigo teve uma antipatia natural por ele. Confesso que eu também tenho um forte preconceito contra esses jovens que andam com as cuecas à mostra. Coisa de época, penso eu. Sou do tempo em que as cuecas eram roupas íntimas, que não eram exibidas por aí. Mas compreendo que os tempos mudam. As roupas que eu mesmo uso hoje em dia, seriam consideradas escandalosas no começo do século XX.

Bom, o rapaz foi lá pedir para sair com a moça. Meu amigo o interrogou e descobriu que o rapaz não tinha habilitação, embora estivesse dirigindo. Imediatamente impediu a saída e, depois de conversar com a filha, restringiu fortemente os horários dos dois se encontrarem. Até a virada do ano, claro…

Aí a moça pediu para “dar uma passada” na casa da família do namorado. Ele permitiu, mas estabeleceu o horário de retorno. Então, cansado do trabalho diário, foi dormir cedo. Acordou por volta das quatro da madrugada com a voz da esposa ao telefone. A filha não havia chegado. A mãe ligou para saber dela, preocupada, e foi informada de que a filha havia bebido muito e estava “apagada”. Meu amigo tomou o telefone das mãos da mulher e disse que estava indo, furioso, buscar a filha. Cruzou com o carro do rapaz no caminho. Arrancou a filha de lá ainda adormecida e disse ao rapaz que nunca mais pisasse na porta dele.

Agora a filha está tristonha pelos cantos, amuada, porque quer continuar o namoro e ele não permite. Ele me perguntou o que deveria fazer. A minha resposta, creio eu, não o deixou muito feliz. E é pouco provável que ele siga meu conselho. Mas foi o conselho mais útil no qual consegui pensar.

“Passa em uma farmácia, compra um pacote grande de camisinhas, senta com a sua filha e entrega para ela. Diz a ela que ela é adulta, tem 18 anos, e é livre para viver a vida dela. Mas pede que ela tente evitar uma gravidez indesejada, ou uma doença, e que termine os estudos dela antes de assumir qualquer compromisso. Explica para ela os riscos de estar em um carro com uma pessoa não habilitada, ou de beber muito em um local cheio de estranhos, mas deixa claro que ela é adulta e tem de aprender a fazer as próprias escolhas. Depois disso, não esquenta mais com a vida dela.”

Essa “tradicional moral cristã” já arruinou vidas demais. Tudo que eu quis fazer foi impedir que estragasse mais algumas.

Porque as pessoas fazem sexo. Isso é absolutamente normal. Ninguém vai impedir jovens de fazerem sexo. Mas quando a “tradicional moral cristã” se mete nesses assuntos, logo as pessoas começam a fazer tudo às escondidas, o que torna o sexo ainda mais gostoso. Mais gostoso, mais rebelde e, consequentemente, mais irresponsável. Aí sim aparecem os problemas. Doenças venéreas. Gravidez indesejada.

Isso sem falar nos casamentos prematuros. Gente que se casa aos dezesseis, dezessete, dezoito anos, porque o casamento acaba sendo a única forma legalizada de saciar os desejos sexuais absolutamente naturais sem sentir culpa e com o apoio da família. Não conheço exatamente as estatísticas, mas acho quase impossível um casamento assim dar certo.

Casamentos de pessoas muito jovens são comuns demais no meio protestante. Acontecem justamente porque há uma passagem na Bíblia que diz que “é melhor casar do que abrasar”, ou seja, melhor casar do que arder nas chamas do desejo.

Que grande porcaria!

Claro que é melhor arder nas chamas do desejo! E viver a juventude plenamente, ardendo de desejo por uma pessoa nesse mês, por outra no mês seguinte. Vivendo, praticando, experimentando. Para então, diante da maturidade futura, tomar uma decisão firme sobre laços mais permanentes, como o casamento ou filhos. Mas a “tradicional moral cristã” não permite isso.

Permite fazer o sinal de arminha. Permite pedir a pena de morte para quem rouba celulares. Permite apoiar torturadores. Permite ir para ruas apoiar um presidente incompetente e cruel, que quer destruir vidas de adultos e crianças. Mas sexo não. Sexo é proibido!

Esse foco no moralismo sexual é, no meu entender, uma maneira de desviar a atenção para as falhas éticas da moralidade cristã. Jesus fez ZERO pregações sobre moralidade sexual, mas fez muitas contra a hipocrisia. Consta, inclusive, que protegeu uma mulher que havia violado as leis morais do Judaísmo e cometido adultério, impedindo que a multidão a apedrejasse. E ele fez isso dizendo que quem não tivesse pecado era quem devia atirar a primeira pedra.

Curiosamente, ninguém atirou pedra alguma. Todos ali eram igualmente “pecadores”. Todos ali haviam violado a lei de alguma forma. Mas todos estavam, instantes antes, decididos a tirar a vida de uma mulher por moralismo sexual.

Considerando que tudo isso tenha mesmo acontecido, é preciso entender que ele salvou a mulher justamente expondo a hipocrisia daquelas pessoas. Alguém precisa aparecer hoje para fazer o mesmo nas igrejas cristãs, sejam elas protestantes ou católicas.

Porque esse meu amigo anda comigo pela cidade frequentemente. E sempre o observo a olhar as moças bonitas, especialmente aquelas turistas de biquini que passeiam por nossas ruas no verão. Muitas delas da idade da filha dele. Mas ele é um moralista, um cristão que exige que a filha se comporte dentro dos “tradicionais valores cristãos”. Em suma, um hipócrita, exatamente como eram hipócritas, há dois mil anos, os que queriam apedrejar a mulher adúltera.

Pais devem educar seus filhos para a segurança sexual, ou seja, ensinar a eles que devem tomar precauções para evitar doenças e evitar uma gravidez indesejável. E pronto! Daí por diante é problema deles.

Porque é problema deles, quer você queira ou não! Não existe, nem nunca existiu, uma maneira de impedir a atividade sexual de jovens cheios de hormônios e de curiosidade.

Você pode iludir-se achando que sua filha é uma santinha e que seu filho precisa de orientação sexual. Mas a verdade é que, se eles já passaram dos quinze anos, talvez você tenha menos conhecimento sobre o assunto que eles.

O título deste artigo foi extraído daquela que é, na minha opinião, a melhor música de Erasmo Carlos: “Filho único”.

Não é justo tentar parir os destinos dos filhos. Mas não é injusto apenas para com eles. É injusto para com os pais também!

Primeiro porque é uma tarefa com fracasso garantido. Você não vai conseguir determinar o futuro dos seus filhos. Eu não conseguirei determinar o futuro do meu filho Dionysio, que agora tem sete anos. Tudo que posso fazer é educá-lo bem, mostrar a ele os problemas da vida, orientá-lo sobre como fazer as melhores escolhas possíveis. E deixá-lo viver… até para que eu possa aproveitar meus últimos anos de vida com minha esposa em relativa tranquilidade.

Se nós tentarmos viver a vida do Dionysio para ele, nossa velhice será um inferno. Os valores que nos orientaram para as escolhas que fizemos estão ultrapassados. Serviram para nós, no mundo em que vivíamos na nossa juventude. Não servem nem para nós mesmos hoje em dia, esta é a verdade.

Dionysio, assim como a filha do meu amigo, terá de aprender por conta própria a viver. Tera de cometer seus próprios erros, saborear seus próprios acertos, viver sua própria vida.

Meu amigo quer viver a vida da filha. Por isso ele está sofrendo. Por isso ela está sofrendo. Talvez até o rapaz das cuecas à mostra esteja sofrendo, se ele realmente estiver interessado na moça e não apenas em mais uma trepadinha. E tudo isso porque meu amigo quer viver, nos dias de hoje, segundo um moralismo sexual ultrapassado, definido por uma religião com dois mil anos de existência e completamente fracassada.

Sim, fracassada. O Cristianismo é uma religião fracassada. Propunha-se a melhorar as pessoas, preparando-as para o “reino de deus”, mas só conseguiu gerar guerras religiosas. Pretendia consolar os pobres e os que sofrem, mas só conseguiu gerar Vaticanos riquíssimos e pastores bilionários.

Essa religião fracassada só pode produzir pessoas fracassadas. Exceto os pastores, é claro. E o Papa, os cardeais e bispos. O Cristianismo certamente faz muito bem para estes, mas não para a filha do meu amigo. Não para a família dele, certamente.

Nossa luta é contra o bolsonarismo, não apenas contra Bolsonaro

Agradeço a todos que mostraram preocupação depois do meu artigo anterior. Estou bem melhor agora. Tanto que já retornei totalmente às minhas atividades profissionais. E foi justamente no exercício destas que encontrei o assunto para este artigo.

Conversava ontem com colegas de um projeto, quando um deles soltou a seguinte frase: “Ah, eu não defendo Bolsonaro não, mas tomar vacinas sem saber o que tem nelas é ruim, não é?”

Tenho lido e ouvido frases assim por todos os lados. No Quora, no LinkedIn, no Facebook, no Twitter… em todas as redes sociais que frequento, tenho observado gente que diz que não apoia o Bolsonaro, mas logo em seguida começa a defender as ideias idiotas dele com afinco.

No início eu pensei que se tratava apenas de mais uma estratégia covarde. Afinal de contas, Bolsonaro fica cada dia mais indefensável para quem tem o mínimo de decência. Então, pensei eu, os bolsonaristas estão fazendo isso como uma forma de defesa indireta, ou seja, dizem que não defendem o próprio Bolsonaro, mas defendem as ideias que ele propaga, o que acaba dando no mesmo.

Depois eu percebi que o fenômeno é outro. Não se trata, pelo menos para a maioria, de uma estratégia indireta para defender o Bolsonaro, mas sim de algo muito maior: O BOLSONARISMO TRANSCENDEU BOLSONARO!

Sim, é isso mesmo. O bolsonarismo tornou-se maior que aquele que o criou. Bolsonaro ficou para trás e suas irritações constantes no “cercadinho” mostram que nem ele suporta mais os níveis de estupidez que o bolsonarismo atingiu.

A situação dele assemelha-se agora com o caso do Dr. Victor Frankenstein, vítima do monstro que ele mesmo criou. Muitos bolsonaristas agora atacam Bolsonaro, simplesmente pelo fato de que ele não conseguir fazer todas as coisas estúpidas que esperam dele.

O bolsonarismo, ao contrário do que pensam muitos, não é um movimento político. Trata-se, sim, da primeira revolta formal dos ignorantes e estúpidos no Brasil. Estes compreenderam finalmente que são a maioria e querem o poder. E como são ignorantes, querem o poder total, não aceitam oposição e rejeitam qualquer coisa que questione sua idiotice, mesmo que tangencialmente.

O bolsonarista padrão é aquele sujeito que, há vinte, trinta anos, orgulhava-se de não estudar. Dizia que o importante era ganhar dinheiro e ridicularizava intelectuais. O bolsonarista é aquele que desprezava os professores porque estes ganhavam pouco, sem entender que os professores eram a única chance para que ele fosse um pouco menos estúpido.

É por isso que hoje um bolsonarista questiona o conteúdo das vacinas, como esse colega de projeto. Ele reflete todo um ciclo de estupidez, já que se concentrou em assuntos técnicos (ao ponto de tornar-se um desenvolvedor de software) mas fugiu de qualquer formação ampla. Era um daqueles que dizia “Para que tenho de estudar química ou biologia se não vou ser químico nem biólogo?”

Agora, completamente ignorante em termos de química e biologia, ele usa sua própria estupidez nessas duas áreas como argumento para rejeitar as vacinas, alegando que não quer usá-las porque não sabe o que há dentro delas.

Eu sei que posso parecer arrogante com minha atitude usual nesses casos: Eu humilho sem dó nem piedade os bolsonaristas em sua estupidez!

Foi exatamente o que fiz com esse colega de projeto que disse que seria ruim tomar vacinas sem saber o que elas contêm. Perguntei a ele se poderia me dizer qual era a fórmula do ácido acetilsalicílico ou desenhar a molécula desse ácido. Ele, é claro, respondeu que não sabia nem o que era aquilo. Respondeu com aquela risadinha de lado que caracteriza plenamente os ignorantes arrogantes, aqueles que se orgulham de sua própria estupidez. Então perguntei se ele já havia tomado aspirina na vida e ele disse que sim, que obviamente já havia tomado aspirina. Então expliquei que ácido acetilsalicílico era aspirina e que ele havia tomado a vida inteira esse medicamento sem saber o que havia nele. O mesmo se dava com vacinas. E que ele, por sinal, não teria nem mesmo condições intelectuais para compreender o processo de criação de uma vacina, ou mesmo de ler a bula se uma fosse esfregada na cara dele.

Sim, eu sei que sou grosseiro. Mas trata-se de uma questão de linguagem. Essas pessoas simplesmente não conseguem entender outra linguagem que não seja a da grosseria. Se estou no centro de Berlin e quero ter certeza que uma pessoa com quem vou falar me compreenda, tenho de usar o idioma alemão. Da mesma forma, se pretendo que um bolsonarista me entenda, tenho de usar a linguagem da grosseria e da estupidez, que é a única que eles entendem.

Um outro caso de grosseria assim, de minha parte, aconteceu com um conhecido aqui do bairro, que tem um mercadinho na rua paralela à minha. Cheguei lá para comprar alguns produtos, justamente no dia em que o (des)Governo Bolsonaro cortou 92% das verbas da pesquisa científica no Brasil. O dono do mercadinho estava conversando com amigos bolsonaristas e vibrando. Segundo ele a pesquisa científica era algo inútil, “coisa de comunistas”, e as universidades eram apenas lugares para fumar maconha e fazer orgias.

Lá pelo começo do milênio, quando eu estava na casa dos trinta, eu teria dado um murro nele sem hesitar. Sofro de uma aversão total e irrestrita à ignorância.

Hoje em dia, mais calmo (ou apenas mais consciente de que brigar é um esforço acima das minhas capacidades), preferi recorrer à velha e boa humilhação. Perguntei a ele que universidade ele havia frequentado. Então ele, na frente dos amigos, teve de dizer que nunca havia entrado em uma universidade. Então expliquei que eu já sabia disso, porque conversava com ele constantemente e observava o quanto ele falava errado, de modo que sabia que ele não tinha condições intelectuais para ter cursado uma faculdade, fosse ela qual fosse. Então expliquei, nos termos mais rudes que consegui lembrar, que além de nunca ter pisado em uma universidade, ele não tinha condições intelectuais para entender o que era pesquisa científica e muito menos para entender os resultados da pesquisa científica. Também não tinha vivência universitária para saber sobre maconha e orgias e que a bronca dele com as universidades era justamente pela incapacidade de entrar em uma delas.

Retirei-me, deixando-o calado, sem ter o que dizer. Sei que logo em seguida ele e os colegas retornaram para a estupidez habitual, mas isso não me importa. É importante humilhar a ignorância dessas pessoas, para que elas voltem a ter vergonha de expressar essa ignorância, como aconteceu por séculos.

Por séculos, milênios, ser estúpido era motivo de vergonha. As pessoas que nada sabiam tinham vergonha disso e, por conseguinte, ficavam caladas quando estavam perto de alguém com maior conhecimento.

Com o advento das redes sociais, os estúpidos passaram a conversar entre eles. Perceberam então que eram a maioria. E como maioria eles sentiram que tinham poder. Dentro dos regimes democráticos, a maioria pode praticamente tudo. Aqui no Brasil a maioria de estúpidos percebeu que podia eleger um deles para a presidência da república. E foi assim que surgiu Bolsonaro.

Então, não se iluda. Não é o bolsonarismo que é filho de Bolsonaro. Na verdade, é exatamente o oposto. Bolsonaro foi apenas a forma que as massas ignorantes e estúpidas encontraram para ter um representante delas governando o país. Bolsonaro é filho desse movimento revolucionário dos ignorantes e estúpidos. O movimento ganhou o nome de “bolsonarismo” apenas por um acaso histórico. Se não fosse Bolsonaro, eles teriam achado outro ignorante e estúpido para colocar na presidência.

É por isso que não basta lutar contra Bolsonaro. Temos de combater o bolsonarismo, ou seja, esse movimento de estupidez e ignorância que o colocou no poder.

É preciso colocar os ignorantes e estúpidos de volta nos seus lugares. É preciso calá-los. Não adianta nem falar que a educação pode curá-los, porque será impossível educá-los sem calá-los primeiro. Eles não conseguirão aprender nada fazendo o barulho que hoje fazem.

Para que tenham vontade de aprender, é mister que compreendam primeiro que a ignorância é ruim. E só compreenderão isso no momento em que a usarem e sentirem o peso da humilhação que lhes é imposta por serem como são.