O (possível) conflito na Ucrânia aumentará a xenofobia na Europa?

A história se repete. Na primeira vez como tragédia, na segunda vez como farsa. Essa constatação de Karl Marx na introdução do seu “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte” veio à minha mente esta semana enquanto refletia sobre essa crise que está acontecendo na fronteira da Ucrânia com a Rússia e que tem potencial para conduzir-nos à III Guerra Mundial.

Sobre esse assunto da III Guerra Mundial, gostaria de lembrar aqui, antes de tratar do assunto principal, da pergunta feita certa vez ao físico Albert Einstein, na década de 50, depois do lançamento das bombas atômicas e do início da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética começavam a acumular arsenais nucleares capazes de exterminar toda a vida no planeta Terra.

Einstein, ao ser perguntado como seria travada a III Guerra Mundial, disse que não fazia ideia, mas que sabia como seria travada a IV Guerra Mundial: com paus e pedras.

Ele quis dizer com isso que a eventualidade de uma III Guerra Mundial, entre países com arsenais nucleares, provavelmente nos proporcionaria um retorno à pré-história, com humanos vivendo como animais inferiores e lutando com paus e pedras.

Talvez estejamos diante dessa possibilidade! Que magnífico trabalho, não é mesmo, esse da sociedade humana que os conservadores buscam tanto preservar?

Eu não sei o que emergirá de um possível conflito aberto entre a Rússia e os Estados Unidos. E não estou especulando muito sobre isso em minhas reflexões, porque a eventual eclosão desse conflito significaria uma mudança tão sem precedentes na história humana que não sei se tenho todos os parâmetros para avaliar os possíveis resultados.

Preocupa-me muito mais, neste momento, o que pode acontecer se o conflito não ocorrer. Como será o “novo normal” depois dessa ameaça de guerra e de refletirmos sobre os fatores que conduziram a ela.

Digo isso porque este conflito está sendo arquitetado como uma repetição histórica do que aconteceu nos dois anos que antecederam a II Guerra Mundial. Os movimentos da Rússia de Putin estão cada vez mais parecidos com os movimentos da Alemanha de Hitler entre 1938 e 1939. Recordemos o que aconteceu para traçarmos os paralelos de forma mais eficiente.

Podemos começar com a chamada Crise dos Sudetos, de 1938.

Fortalecido com o Anschluss, a anexação da Áustria, Adolf Hitler reivindica, no começo de março de 1938, o papel de “protetor dos Sudetos”. Esse era o termo usado para falar de uma minoria étnica germânica que, depois da divisão do Império Austro-Húngaro após a I Guerra Mundial, ficou residindo no território da Checoslováquia, país criado em 1919.

Em 1933, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha e deu início ao projeto do III Reich, essa minoria alemã que habitava as regiões da Boêmia, Silésia e Morávia, pertencentes à Checoslováquia, fundou um partido nacional-socialista e passou a exigir a anexação dessa região ao III Reich.

Isso, é claro, violava todos os acordos e tratados que desmembraram o Império Austro-Hungaro, particionando os territórios que eram antes alemães. Também é claro que violar esses acordos e tratados era justamente a intenção de Hitler, que planejava fazer com que o seu “Reich de Mil Anos” retomasse os territórios germânicos originais. O próprio Partido Nazista cresceu invocando a ideia de que a Alemanha havia sido mal servida pelo Pacto de Versailles e que tanto as indenizações de guerra, quanto a partição territorial eram “crimes contra o povo alemão”.

Infelizmente a política europeia do “apaziguamento” fez com que os países vencedores da I Guerra Mundial não se opusessem de forma marcante ao processo de anexação dos sudetos. Tanto a França quanto a União Soviética diziam apoiar a Checoslováquia, mas apenas de forma nominal, sem interesse em realizar ações militares para impedir que Hitler invadisse as regiões da Checoslováquia que faziam fronteira com a Alemanha. Os britânicos, que naquele momento enfrentavam diversas crises nos territórios que eles ocupavam ao redor do mundo, como a crescente pressão pela independência da Índia, não queriam um conflito na Europa, pois desconfiavam que isso selaria o fim do Império Britânico, mesmo que fossem vencedores.

Em setembro de 1938 o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, visita Hitler em Munique e cede à pressão do chanceler alemão, concordando que a Alemanha anexasse os territórios onde viviam aquelas populações germânicas. Hitler havia vencido e essa vitória o faria acreditar (erradamente, como se viu depois) que o restante da Europa não se oporia aos projetos de expansão da Alemanha.

Esse foi o evento histórico inicial, que em 1939 foi repetido como tragédia.

Dessa vez Hitler alegou que a cidade polonesa de Danzig tinha uma vasta população alemã, o que era verdade, passando a exigir o direito de anexar esta cidade ao III Reich e de construir uma ferrovia que ligasse a Alemanha a Danzig, atravessando o chamado “Corredor Polonês”, uma faixa de terra da Polônia que, no caso da anexação, ficaria separando dois territórios alemães.

Embora a Polônia tenha concordado com a construção da ferrovia, para viabilizar a movimentação das populações germânicas de Danzig que quisessem mudar para o III Reich, recusou-se firmemente a permitir a anexação de Danzig ao território alemão. Acreditando que franceses e ingleses agiriam com fraqueza, como na Crise dos Sudetos no ano anterior, Hitler invadiu a Polônia no dia primeiro de setembro de 1939, dando início à II Guerra Mundial.

Esta foi a repetição como tragédia dos eventos ocorridos na Checoslováquia no ano de 1938. Vamos agora à repetição como farsa, que é o que está ocorrendo agora na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

Putin quer anexar parte da Ucrânia à Rússia? Claro que sim! Mesmo um país gigante como a Rússia, sempre quer mais território.

Putin quer iniciar uma ação militar naquela região para promover essa anexação? Não, eu penso que não.

As tropas russas estão na fronteira com a Ucrânia para dar aos rebeldes de etnia russa a impressão de que ele apoiará a rebelião deles. É um movimento muito parecido com o que Hitler fez na fronteira da Checoslováquia, esperando mostrar força, mas não invadindo antes do “consentimento oficial” do restante da Europa.

É também um movimento parecido com o que o Duque de Buckingham fez durante o Cerco de La Rochelle, entre setembro de 1627 e outubro de 1628. Tendo prometido aos rochelenses que mandaria ajuda contra as tropas do rei Luis XIII e do Cardeal Duque de Richilieu, Buckingham manda uma esquadra britânica atracar á vista dos rochelenses, para dar a impressão de apoio, mas nunca desembarca para ajudá-los de verdade. Era apenas um movimento para mostrar seu apoio e, com isso, tentar forçar um recuo das tropas reais. Não funcionou, claro. La Rochelle caiu, mais pela fome do que pelas ações militares de Richilieu, que comandava pessoalmente as forças católicas que foram mobilizadas para destruir aquela cidade protestante.

Não, eu não acredito que Putin irá invadir a Ucrânia. Ele estacionou tropas ali para entrar no território se os rebeldes separatistas pró-Russia vencerem. E também para deixar claro para a OTAN que não vai tolerar a instalação de bases militares tão perto de sua fronteira.

É por isso que digo que a história se repete ali, desta vez como farsa. Não há clima para uma invasão desse tipo, que seria rechaçada por toda a comunidade internacional. O tempo em que os Estados Unidos invadiram Granada (1983) e a URSS o Afeganistão (1979) já vão longe.

A grande questão que me preocupa no momento é que a xenofobia, sempre estimulada pela extrema-direita, tenderá a aumentar nos próximos anos com essa movimentação da Rússia.

Sim, porque os países europeus tenderão a ficar cada vez mais preocupados em aceitar grupos étnicos diferentes dos seus próprios em seus territórios, já que essa penetração pode ser usada posteriormente para justificar uma futura ameaça de invasão.

“Ah, temos muitas pessoas do nosso país em tal região do seu território e por isso exigimos essa região para nós”.

Todos lembram muito bem como os simpáticos e cordiais europeus recusaram-se a receber em seus países as vítimas da guerra entre sérvios e croatas na antiga Iugoslávia, que culminou com a desintegração do país. Lançadas em campos de concentração, essas pessoas passaram por terríveis abusos.

Será que a Europa sempre reproduzirá seus erros históricos, como previram Hegel e Marx? Será que o Velho Continente continuará sendo o berço das guerras mundiais? Será que o verniz de civilização que cobre os povos europeus sempre será rompido por questões como esta da Ucrânia?

São perguntas que pairam sobre o mundo neste momento, quando o conflito entre os interesses imperialistas da Rússia de Putin e os interesses imperialistas dos Estados Unidos de Biden ameaçam mais uma vez nossa espécie.

Se esses imperialistas lutarem agora, é possível que em breve estejamos lutando com paus e pedras.

A História revisada pelos bolsominions

Italo Lorenzon é sócio de Allan dos Santos no canal “Terça Livre”. É um dos caras que aparecem em um dos programas bebendo aquele copo de leite que representa a “pureza racial” defendida pelos supremacistas brancos. É um bolsonarista convicto.

Sendo tudo isso, Italo Lorenzon é um misto de fascismo, racismo, mau jornalismo, fake news e distorção histórica.

Foi por saber de tudo isso que eu não fiquei nem um pouco surpreso quando li, esta madrugada, um tweet dele nos seguintes termos.

O tweet foi gerado pelas brincadeiras feitas na internet com a homenagem de Bolsonaro aos soldados russos que pereceram na II Guerra Mundial. Mesmo tendo sido apenas um item de protocolo, foi engraçado ver o anticomunista prestando homenagem aos soldados comunistas da União Soviética.

Italo Lorenzon não gostou de chamarmos os soldados comunistas de soldados comunistas. Porque como qualquer fascista, uma das coisas que Italo Lorenzon adora fazer é reescrever a história. Ele detesta a verdade dos fatos, porque a verdade dos fatos sempre mostra a insignificância de pessoas como ele.

Para Italo Lorenzon, ver Bolsonaro homenageando soldados comunistas, foi demais. Como justificar algo assim para o seu público idiotizado, que ainda está esperando a tal “Operação Storm”, quando Trump e Bolsonaro juntos irão acabar com todos os comunistas, esquerdistas, satanistas e pedófilos do mundo? Trump até já se infiltrou no meio dos pedófilos, fazendo frequentes visitas à ilha das ninfetas do falecido milionário Jeffrey Epstein! Só para reconhecimento de terreno, pessoal! Guerra é guerra! Selva!!!

(Desculpem! Isso tudo é tão ridículo que não dá para deixar de fazer uma piada em alguns momentos.)

Vendo que seria difícil explicar a homenagem de Bolsonaro aos soldados comunistas para um público que ainda nem mesmo percebeu que Trump não manda mais no exército estadunidense, Italo Lorenzon resolveu fazer o que os fascistas sempre fazem quando os fatos históricos não cooperam com seus interesses: reescrever a história!

Segundo ele os soldados da União Soviética mortos durante a II Guerra Mundial não eram soldados comunistas! Como não dá para explicar Bolsonaro homenageando soldados comunistas, Italo Lorenzon transforma os soldados comunistas em outra coisa qualquer.

Como a estupidez e a ignorância incomodam-me profundamente, resolvi ajudar Italo Lorenzon, explicando a ele alguns fatos históricos. Que ele já conhece, por sinal. Tenho certeza de que Italo Lorenzon leu muito sobre a ação da União Soviética contra seus queridos soldados nazistas na II Guerra Mundial.

Vamos aos fatos?

Depois da Revolução Russa de 1917, Leon Trotsky organizou o Exército Vermelho para lutar contra o Exército Branco, que defendia o retorno do kzar Nicolau II ao poder (ou ao menos da monarquia, depois que Nicolau II e sua família foram justiçados pelos revolucionários). Foi uma luta confusa, cheia de facções combatentes. Além dos exércitos comunista e kzarista, havia também o Exército Verde, formado pelos ruralistas, que não queriam o Comunismo e nem a volta do kzar. Sem falar nos batalhões independentes de cossacos e outros elementos. No entanto, ao final do conflito, o Exército Vermelho organizado por Leon Trotsky venceu, passando a ser o exército oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em suma, era o exército dos comunistas. Um exército composto por soldados comunistas.

Sim, Italo Lorenzon pode espernear como um garoto mimado, mas não mudará o fato de que o exército soviético era composto por soldados comunistas. E não era apenas por serem cidadãos da URSS, mas por serem organizados como comunistas!

Os soldados russos eram organizados em soviets (conselhos de trabalhadores), exatamente como qualquer agremiação profissional comunista.

Os soldados russos tinham, em cada pelotão, ao menos um oficial político, ou seja, um militar que conhecia bastante bem os princípios do Comunismo e era encarregado difundir esses princípios entre as tropas e também garantir que tais princípios fossem estritamente seguidos.

Em suma, os soldados da União Soviética eram organizados como comunistas, liderados por comunistas e comportavam-se segundo princípios comunistas. O que eles eram? Eram soldados comunistas!!!

Não importa o quanto pessoas como Italo Lorenzon façam para reescrever a história, os fatos estarão sempre lá para desmentir suas teses idiotas. E pessoas como eu, que conhecem os fatos, estarão sempre dispostas a gritar, em alto e bom som, que eles são mentirosos.

Eu acho natural que Italo Lorenzon tente descaracterizar os soldados comunistas. Afinal de contas, se ele estivesse vivo na II Guerra Mundial, a torcida dele estaria do outro lado, estaria com os alemães, com os nazistas. Na época ele não tomaria um copo de leite para mostrar sua suposta “superioridade branca”, mas um bom schnapps, cantando o hino nazista “Horst Wessel”.

Bolsonaro e seus asseclas (e não “acepipes”, como diria o Weintraub) não são contra o Comunismo por questões ideológicas. Eles são contra o Comunismo porque não conseguiram ainda engolir a derrota dos nazistas para os comunistas. Não conseguiram engolir a tomada de Berlin pelas tropas soviéticas.

Nazistas serão derrotados sempre, onde quer que apareçam. Porque suas ideias são do tipo que vale a pena combater, e combater bem.

A falsa equiparação entre Nazismo e Comunismo, que sempre é usada pelos bolsominions para tentar justificar o nazismo ou diminuir seus males, me parece sempre coisa de crianças mimadas. “Tá, eu errei, mãe! Mas o Joãozinho errou mais que eu!”

Não há, e nunca haverá, como comparar uma proposta de igualdade, de sociedade sem classes e sem opressão, que é o Comunismo, com uma teoria maluca sobre “superioridade racial” e sobre o direito de um povo escravizar e matar os povos inferiores, que é o Nazismo.

Destaquei em amarelo, no final do tweet do Italo Lorenzon, a defesa que ele faz do bullying. Ele procede assim porque quem não tem razão sempre precisa apelar para a força. Só há duas maneiras de fazer alguém aceitar que os soldados comunistas não eram soldados comunistas: A primeira é lavar a mente das pessoas com o olavismo-bolsonarismo e torná-las idiotas; a segunda é usar a força, como qualquer fascista sempre tenta fazer.

Eu, no entanto, aprendi muito cedo que os caras que apelam para o bullying são todos frouxos, covardes. Eles estão sempre em bandos, como as hordas de arruaceiros das SA de Hitler. Quando você pega um deles sozinho, ele chora e pede desculpas.

Que tal, Italo Lorenzon, tirar suas banhas e sua barbinha enfeitada da cadeira e vir aqui tentar enfiar minha cabeça na privada? Vamos! Anime-se! Sou um senhor de meia idade, com 54 anos. Você tem alguma chance!

É mentira. Ele não tem chance nenhuma. Esse ex-fuzileiro naval aqui teria um imenso prazer em chutar o traseiro do fascista Italo Lorenzon. E é por isso que continuo dizendo: Os soldados soviéticos eram soldados comunistas!

Para você, Italo Lorenzon!

Sob o domínio da burrice

Eu gosto muito de filmes. Quem lê esse blog com frequência já sabe disso, pois comento sobre eles o tempo todo. E uma das minhas paixões em relação aos filmes é assistir às diversas refilmagens de um único filme, para comparar e criticar. Muitas vezes também para entender como o passar dos tempos influenciou as mudanças no roteiro original.

Um desses casos é o do filme “Invasores de Corpos”. Assisti, ainda nos anos 80, à versão de 1978, com Donald Sutherland e Jeff Goldbloom. Gostei do filme e muito depois, quando surgiu a internet, resolvi pesquisar sobre ele. Descobri então que a versão de 1978 já era um remake e que o original era de 1956, produzido ainda em preto e branco. Depois disso tivemos mais dois remakes pelo menos. Um de 1993, dirigido por Abel Ferrara, e outro de 2007, com Nicole Kidman e Daneil Craig.

Há um outro filme do qual gosto muito, intitulado “Sob o domínio do mal”. A versão de 2004, com um time fantástico que inclui Denzel Washington, Liev Schreiber, Vera Farmiga, John Voight e a divina Meryl Streep, é remake de um filme de 1962, também com uma equipe fantástica, que inclui Frank Sinatra e Janet Leigh. São montagens de um livro intitulado “The Manchurian Candidate”, do Richard Condon.

Surgido em plena Guerra Fria, “The Manchurian Candidate” fala de um plano arquitetado pela China Comunista para eleger um presidente para os Estados Unidos controlado por eles. A estratégia é pegar um jovem militar, filho de uma senadora estadunidense, que está em missão no exterior, promover uma lavagem cerebral nele e transformá-lo em um assassino. Há toda uma montagem para que ele seja visto pelo público estadunidense como herói, ganhe uma Medalha de Honra do Congresso e seja lançado como candidato à vice-presidência dos EUA. O final do plano inclui a lavagem cerebral feita em outro militar do mesmo destacamento, para que assassine o presidente dos Estados Unidos no dia da posse, levando o vice-presidente com a mente lavada para o cargo mais poderoso do planeta.

Como sempre acontece quando traduzem os títulos dos filmes, o deste foi completamente alterado. O título original dos filmes é o mesmo do livro, mas no Brasil a versão de 2004 foi exibida como “Sob o domínio do mal”. Não foi o pior caso de tradução, já que o título pelo menos expressa algo sobre a história do filme. Já vi traduções de títulos bem piores, infelizmente.

Nós, brasileiros, não estamos apenas sob o domínio do mal. Fomos vítimas, é claro, de um plano estrangeiro para tirar do poder uma presidenta legítima e interessada no nosso país e no nosso povo, colocando em seu lugar não um presidente com o cérebro lavado, mas sim um presidente sem cérebro. Em virtude disso, estamos também sob o domínio da burrice!

Em meus 54 anos de vida, sendo 50 deles dedicados ao estudo, desde que aprendi a ler aos quatro anos, eu jamais havia visto, ou sequer imaginado, que uma onda de burrice pudesse varrer o nosso país de forma tão marcante.

O primeiro sintoma foram os erros ortográficos e gramaticais. De repente comecei a ler frases cheias de erros na internet. E não eram escritas por idiotas irrelevantes como o tal “Monark”, sobre quem escrevi recentemente um artigo depois que ele defendeu a legalização do nazismo. Eram textos escritos por pessoas com nível superior. Alguns até ostentavam títulos de mestre e doutor, mas não conseguiam fazer concordância nominal básica, coisa que meu filho de sete anos já consegue fazer muito bem.

Junto com os erros ortográficos e gramaticais, vieram as desculpas. E quem serve para dar desculpas, raramente serve para qualquer outra coisa, como é bem sabido. A culpa não era deles, mas do corretor ortográfico dos editores de texto e dos celulares. Ou então alegavam que não era importante escrever corretamente na internet. Finalmente distorceram a tese do preconceito linguístico, do Marcos Bagno, para alegar que não podiam ser criticados, uma vez que eram compreendidos mesmo com seus erros. (É bom lembrar que a tese do Marcos Bagno não tem esse significado. Ela não foi escrita para justificar os erros de pessoas (supostamente) letradas, mas para impedir que pessoas que não passaram por um letramento correto fossem discriminadas por sua escrita.)

Foi nesse ponto que perdi a esperança. Sim, porque todos podemos errar, mas só aqueles de nós que aceitam as críticas e correções podem evoluir. De minha parte, fico profundamente grato quando alguém aponta um erro que cometi, porque isso me dá a chance de corrigi-lo e de aprender com a correção. Mas essas pessoas que escreviam errado simplesmente não queriam evoluir. Preferiam achar desculpas ou mesmo bloquear quem lhes apontava os erros, mostrando que a coisa só pioraria para elas.

Estava claro para mim, a esse ponto, que as coisas iam piorar muito para todos nós. Porque quem escreve errado mostra apenas que não aprendeu a ler corretamente. E quem não lê corretamente, tem poucas chances de adquirir saber efetivo. Uma pessoa assim pode até ler muito, mas entenderá muito pouco do que lê. Terá sérios problemas de interpretação. Lerá uma coisa e entenderá outra coisa completamente diferente.

Foi exatamente isso que aconteceu. A degeneração da capacidade de compreensão foi aumentando em tão grande escala que já presenciei pessoas brigando na internet, como se estivessem discordando de algo, quando as duas, na verdade, estavam expressando a mesma opinião! Elas simplesmente não conseguiam entender nem mesmo o que estavam dizendo, para então perceber que estavam concordando mutuamente e, por conseguinte, não deveriam estar brigando.

A esse ponto era possível imaginar que estávamos já no fundo do poço. Mas, como costumo dizer, quando se está no fundo do poço e se pensa que não dá para piorar, sempre aparece alguém com uma escavadeira…

A internet forneceu fantásticos meios digitais de informação… e de desinformação! Eu posso fazer um vídeo no Youtube levando às pessoas conhecimento real em uma das minhas muitas áreas de estudo: matemática, desenvolvimento de software, filosofia, psicanálise… Mas, da mesma forma, um imbecil sem qualquer conhecimento de qualidade dispõe do mesmo espaço para espalhar idiotices.

Antivacinismo, terraplanismo… esses são apenas alguns dos itens de desinformação que foram lançados no mundo e se propagaram devido ao espaço ilimitado e não verificado que é concedido aos idiotas.

É por isso que precisamos de uma regulamentação dos meios de comunicação. Não se trata de censurar opiniões discordantes, mas sim de censurar opiniões idiotas! Ninguém tem o direito de colocar no ar um artigo ou vídeo dizendo que a Terra é plana. Ninguém pode requerer judicialmente o direito de mentir!

A coisa ficou ainda pior com a COVID-19. Boatos como o de que a vacina provoca autismo ou câncer, ou transforma pessoas em jacaré, espalharam-se como chamas no capim seco. E isso se deve a outro fator difundido em nossa sociedade: o ódio ao conhecimento!

O conhecimento real requer esforço de aquisição, enquanto a estupidez é aprendida praticamente a custo zero. É por isso que um canal de vídeo sério, que discuta temas importantes, terá poucas visualizações, enquanto o Flow Podcast tem milhões de seguidores. Sei disso porque fizemos a experiência, minha esposa e eu, mais de uma vez. Por último criamos o canal CASAL CULTURAL no Youtube, onde tratávamos de literatura, música, filosofia, história, política… enfim, um pouco de tudo sobre o que gostamos de ler e de conversar. Este é um dos nossos vídeos, repleto de informações sobre o Dia do Trabalho. Foi lançado em Primeiro de Maio de 2021 e atingiu a pífia marca de 126 visualizações.

Enquanto isso, o vídeo “10 minutos de Anitta rebolando” atingiu, no mesmo período de tempo, 132 mil visualizações.

Não tenho nada contra a Anitta. Acho-a uma moça inteligente e que achou um filão bom para ganhar dinheiro, coisa importante em uma sociedade capitalista. Até gosto de vê-la rebolando, confesso. Mas isso não muda o fato de que bilhões de bytes transitaram na web para gerar conhecimento zero, enquanto muito conhecimento real fica “parado nas prateleiras”.

Então minha esposa e eu consideramos muito o custo de produção desses vídeos. Para apresentar um trabalho apenas medianamente bom, gastávamos cerca de dez horas em gravação e edição para cada vídeo. Se juntarmos o que ela e eu cobramos pelos nossos serviços profissionais hoje em dia, chegamos a algo perto de 500 dólares por hora. Trabalhando dez horas para produzir um vídeo, temos um custo de produção de cerca de 5000 dólares. E todo esse esforço e custo atingia apenas uma centena de pessoas… Não tínhamos intenção de obter lucro com o canal, apenas de difundir cultura. Mas também não tínhamos intenção de manter um prejuízo tão grande, de forma que acabamos com o canal.

Esse não é um problema apenas nosso. Felipe Castanhari, um youtuber que conhecemos e admiramos, queixa-se da mesma coisa em um dos seus vídeos. Segundo ele os custos não eram sequer cobertos pelo que o Youtube pagava. E olha que o canal dele era muito concorrido! Mas não tinha a Anitta rebolando…

É assim que a humanidade está indo para o buraco. A estupidez está dominando tudo. Estamos, literalmente, sob o domínio da burrice. E junto com ela virão suas sequazes: a guerra, a doença, a peste, a fome…

Segundo um relatório da ONU dos anos 90, o simples conhecimento sobre ferver a água antes de beber reduziria em 70% a mortalidade infantil no mundo. Mas como espalhar esse conhecimento de forma efetiva? As pessoas que mais precisam dele não têm internet. E as que têm internet e poderiam servir de multiplicadoras, muitas vezes estão usando seus recursos para desinformar. Se a ONU lançar a proposta de cada youtuber fazer um vídeo ensinando a ferver a água, logo os adeptos da ignorância estarão combatendo a ideia. Aqui no Brasil, em particular, os bolsominions estarão dizendo algo do tipo: “A ONU é globalista e comunista. Se ela manda ferver a água, é porque isso reduzirá a taxa de natalidade das pessoas cristãs, para que o diabo tome conta do mundo junto com o comunismo.”

Eu tinha 32 anos quando chegou o ano 2000. E tinha muitas esperanças. Afinal, estávamos entrando na Era da Informação. Hoje, eu nem mesmo fico surpreso quando um deputado bolsonarista do centro-oeste apresenta um projeto de lei para que as mulheres vítimas de feminicídio recebam uma verba para comprar armas.

O sujeito não consegue nem mesmo entender que as mulheres vítimas de feminicídio não podem comprar mais nada, mesmo que recebam dinheiro para isso, porque estão mortas!

Definitivamente, estamos no fundo do poço. E logo aparece mais uma escavadeira para piorar a situação…

Ainda bem que sempre preferi a Caloi…

Sim, eu sei. Demorei a comentar sobre essa questão do Monark no Flow Podcast. Os que me conhecem um pouco melhor, sabem que só comento depois de refletir muito. Então, aqui vão minhas as considerações sobre este tema. E não são poucas.

Para começar, a questão que mais tem sido debatida: Monark é nazista?

Não, não acredito que ele seja nazista. Na verdade, não acredito que ele seja nada, exceto mais um imbecil que fez sucesso nessa era medíocre na qual vivemos. Um idiota, filhinho de papai, que vivia de fazer vídeos de jogos e achou uma maneira de ganhar mais dinheiro dando opiniões idiotas para milhões de idiotas que se recusam a acreditar que o são.

Ele não é inteligente o bastante para ter uma posição política definida. Nem mesmo sabe qualquer coisa sobre o nazismo, como demonstram os seus comentários.

Segundo o Monark, no fatídico vídeo, os nazistas só foram um problema na Alemanha porque eram maioria. Então, considerando que hoje seriam maioria, não haveria nenhum problema em deixar que se organizassem como um partido político. Será que isso é verdade?

Não, isso é apenas mais uma estupidez do tal Monark, que ganhou fama justamente por falar muitas idiotices.

O NSDAP (sigla em alemão do nome do partido nazista) não começou sendo maioria. Na verdade, começou bem pequeno. Ao contrário do que muitos pensam, Hitler não fundou o NSDAP. Quando ele ingressou no partido, em janeiro de 1920, sua carteira tinha o número 555. Na verdade, ele foi o 55º filado, mas a contagem das carteiras começava em 501, para fazer o partido parecer maior.

É bom lembrar também que, mesmo no auge do NSDAP, o número de filiados deste partido nunca ultrapassou 9% da população alemã. Foi essa minoria, determinada e barulhenta, que dominou o país, conduziu-o à guerra e causou 60 milhões de mortes na II Guerra Mundial.

Então, a “argumentação” do Monark é completamente falaciosa. Nazistas não oferecem risco quando são maioria. Eles oferecem risco porque suas ideias de “superioridade racial” são nocivas. A própria comparação entre Nazismo e Comunismo é intelectualmente desonesta para quem conhece a história dessas duas ideologias em profundidade. O Comunismo teve suas distorções e elas, inegavelmente, causaram dor e sofrimento para muitas pessoas. Mas isso não muda o fato de que o Comunismo foi concebido como uma forma de gerar uma sociedade sem classes e sem injustiças sociais. Um bom propósito que sofreu distorções. Muito parecido com o Cristianismo, que começa como uma filosofia de paz e amor e acaba produzindo a Inquisição, com fogueiras e torturas. Se considerarem banir o Comunismo por suas distorções, proporei também o banimento do Cristianismo!

O Nazismo, por outro lado, já surgiu como uma filosofia de superioridade de uma raça sobre as demais. Uma filosofia usada por seus adeptos para justificar a destruição em massa ou a escravização das raças não-arianas. Não se trata de uma distorção nociva, mas de uma ideia nociva do princípio ao fim.

Liberar a existência de um partido nazista é o mesmo que tratar como normais e viáveis as ideias de destruição do povo judeu e de escravização do povo eslavo. Como fazer isso sem jogar nossa sociedade na selvageria legalizada?

Liberar a existência de um partido nazista é normalizar o ódio contra os judeus, institucionalizá-lo, garantir a esse ódio direito de expressão no Congresso Nacional, através de deputados que contariam com a prerrogativa da imunidade parlamentar. Quanto tempo demoraria para que começassem a propor leis de segregação racial? Pior ainda, quanto tempo levaria para que leis assim fossem aprovadas?

A fala do Monark baseia-se em uma liberdade de expressão ilimitada. Mas a liberdade de expressão é limitada! A nossa Constituição garante a liberdade de expressão, mas proíbe o uso do anonimato.

Isso acontece justamente para que cada um tenha de assumir a responsabilidade pelos pensamentos que expressa. Por isso o Código Penal prevê diversos crimes contra a honra, ou seja, crimes que alguém pode praticar ao usar sua liberdade de expressão para ferir os direitos de outra pessoa.

O mais paradoxal no discurso de liberdade absoluta do Monark é que ele agora apresenta-se como vítima de um “linchamento”.

Em resumo, o mesmo sujeito que diz que os nazistas têm o direito de odiar os judeus e até mesmo que questionar o direito dos judeus existirem, agora não reconhece o direito das pessoas falarem mal dele! E olha que ninguém propôs o assassinato dele, como os nazistas propunham abertamente o assassinato de judeus.

Esse discurso é típico de filhinhos-do-papai-e-da-mamãe. Pessoas acostumadas a fazer tudo que querem, sem sofrerem nenhum tipo de consequência. A maioria desses “anarcocapitalistas” é exatamente assim. Quem não lembra do Paulo Kogos ameaçando o governador Dória e depois fazendo um vídeo de desculpas porque a mamãe tinha mandado ele se desculpar, já que a família dela e a do Dória são amigas?

Outro ponto curioso é que o Monark fez um vídeo de desculpas, alegando que estava bêbado quando fez as declarações de favorecimento ao nazismo. Acontece que embriaguez é um agravante para acidentes de trânsito, é um agravante para o cometimento de qualquer crime. Por que seria diferente com o crime de apologia ao nazismo, previsto em lei no Brasil?

Podemos concluir, sem medo de errar, que Monark é apenas um idiota que defende algo impossível, que ele mesmo não suporta. Ainda bem que sempre preferi bicicletas da Caloi!.

Vamos agora às reações!

Para começar, o Aliança para o Brasil, ex-futuro partido do Bolsonaro (aquele que ele tentou fundar mas não conseguiu porque a maioria de seus eleitores simplesmente não sabe assinar o nome) saiu em defesa do Monark, com essa declaração:

Observem o tom de normalização, de justificativa. Segundo eles, quem estudar história (provavelmente aquela ensinada pelo falecido Olavo de Carvalho) vai entender que o nazismo foi legal.

Alguma surpresa nisso? Se você acha estranho apoiadores do Bolsonaro defendendo o nazismo, assista a esses dois vídeos.

Repórter bolsonarista defendendo o extermínio de judeus como solução para a economia. Eleitor de Bolsonaro sugerindo que a educação brasileira tem de ser conduzida como a educação era conduzida na Alemanha de Hitler. Tudo perfeitamente de acordo com o que se espera.

Não foi Bolsonaro que, em cima de um carro de som na campanha de 2018, disse que as minorias tinham de curvar-se à maioria ou desaparecer? A frase certamente poderia ter sido dita por Adolf Hitler, porque foi isso que ele fez ao buscar exterminar minorias como judeus, ciganos, homossexuais e testemunhas de jeová.

Não foi Bolsonaro que, orgulhosamente, mentiu em uma entrevista para dizer que o avô havia sido nazista, quando o avô dele chegou ao Brasil ainda no século XIX, ou seja, bem antes do surgimento do nazismo? Eu já havia ouvido muita gente mentindo para negar qualquer ligação com o nazismo, mas para criar uma ligação falsa só mesmo o Bolsonaro!

Não foi Bolsonaro quem intercedeu a favor dos alunos de um colégio militar que, ainda nos anos 90, escolheram Adolf Hitler como patrono da turma? Não foi ele quem disse na ocasião que a juventude precisava de valores como os do nazismo?

Bolsonaro e seus seguidores são nazistas! Alguns tentam esconder isso o melhor que conseguem. Outros simplesmente abrem o jogo, como o Alvim.

Por todos esses fatores, não é nada estranho que o partido iniciado por Bolsonaro tenha assumido a postura de defender o Monark. Se o nazismo fosse legalizado, provavelmente o “Aliança para o Brasil” teria o nome de “Aliança para o Nazismo”.

Estranho, porém, é o fato do Rui Costa Pimenta, líder do PCO, sair em defesa do tal Monark e do Kim Kataguiri, que estava no mesmo programa em que o Monark defendeu a legalização do nazismo e até concordou com ele.

O PCO tornou-se um caso patológico nas esquerdas brasileiras. Para um partido que se apresenta como revolucionário de extrema-esquerda, nos últimos anos as suas pautas têm-se aproximado demais das pautas da extrema-direita.

No começo da pandemia os bolsonaristas iam até a página do PCO para elogiar o fato deles combaterem as máscaras e o isolamento social. O PCO também dedica muitas postagens em sua página a defender o jogador Neymar, que eles consideram um “injustiçado”. E agora o PCO aparece, na pessoa do seu líder, defendendo as declarações pró-nazismo de Monark e Kataguiri.

Dei a esse fenômeno o nome de “Efeito Ouroboros”. Para quem não lembra, Ouroboros é a serpente engolindo a própria cauda que os alquimistas usavam como um de seus símbolos.

Ouroboros é, para mim, um símbolo da eterna atração dos extremos. O PCO foi tão para a esquerda que acabou encontrando o pessoal da extrema-direita.

De resto, só nos resta dizer que só há uma postura eticamente correta quando se trata de lidar com nazistas.

Dissecando o moralismo

Puritana, putana! Este sintético provérbio italiano é certamente um exagero. Nem toda puritana é, secretamente, uma puta. Seria mais justo dizer que só cerca de 99% são assim. Provavelmente existem puritanas que são pessoas de comportamento realmente ilibado, muito embora eu nunca tenha conhecido uma assim em meus 54 anos.

A verdade, porém, é que o puritanismo voltou à moda com força total nos últimos tempos, na esteira da onda de conservadorismo que trouxe de volta, de uns anos para cá, a extrema-direita de Trump e Bolsonaro.

É por saber disso que fiquei surpreso, mas não muito, ao ler esta notícia ontem.

https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/mulher-alvo-de-ataques-nas-redes-por-usar-macaquinho-fitness-para-levar-filho-escola-25384034.html

Eu, particularmente, acharia legal se ela transferisse o filho para a mesma escola do meu filho!

Sim, é isso mesmo. Uma mulher foi levar seu filho à escola usando um “macaquinho”, ou seja, um traje curto, com pernas e costas à mostra. Até aí nada demais. No entanto, uma mãe filmou-a retirando o filho do automóvel e espalhou a filmagem nas redes sociais. Outras mães, indignadas, ou fingindo indignação, resolveram fazer ataques à mãe em questão pela internet. Quando as ameaças e xingamentos não se mostraram suficientes, algumas passaram a exigir que a escola expulsasse a criança dela, para que ela não circulasse mais por lá com seus trajes sumários.

Se o lamentável incidente não tivesse acontecido em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, eu certamente gostaria que o filho dessa jovem fosse transferido para a escola do meu filho. Não seria nada desagradável avistá-la, com esses trajes, ao menos duas vezes por dia. E eu, mesmo sendo casado, posso dizer isso abertamente. Minha esposa lerá este artigo antes mesmo de ser publicado, já que ela sempre revisa meus artigos para mim, assim como eu reviso os dela. Mas nós não somos puritanos!

Quando andamos pela praia (e nós moramos em uma das praias mais cobiçadas do Brasil, Bombinhas, em Santa Catarina…) costumamos mostrar um ao outro as pessoas bonitas que vemos por lá. Ela me mostra as mulheres bonitas que ela vê, enquanto eu mostro a ela os homens bonitos que eu vejo. E isso não abala o nosso casamento, de modo algum. Estamos casados há dez anos e eu devo dizer que nunca fui fiel a mulher nenhuma por tanto tempo, somente a ela. E creio que ela pode dizer o mesmo em relação a mim também.

Não, nós não aderimos à onda de moralismo em nossa casa. E não aderimos justamente porque sabemos distinguir moralismo de moralidade. Vejamos a definição de cada uma dessas coisas.

Moralidade é um conjunto de princípios individuais ou coletivos. Tem a ver com o bem, com o bom convívio social.

Moralismo, por sua vez, é a ação de manifestar, através das palavras e/ou ações, uma preocupação demasiada com questões de teor moral, geralmente mostrando juízo de valor ou preconceito para com os demais.

Moralidade é julgar, pelos seus princípios, se uma coisa é certa ou não PARA VOCÊ! Moralidade não tem nada a ver com os outros. Não é uma maneira de julgar a vida alheia, mas a sua própria vida.

Moralismo é outra coisa, completamente diferente. Moralismo é invadir a vida alheia com os seus valores, proferindo julgamentos de valor que não são pertinentes,

Moralidade tem a ver com aquilo que te incomoda pessoalmente. Eu não roubo nada de ninguém porque, se o fizesse, legitimaria com a minha atitude a ação de tirar a propriedade de outra pessoa, conquistada com muito esforço. E, uma vez legitimada essa atitude, alguém poderia tomar a minha propriedade, coisa que eu não quero que aconteça!

Moralismo, por sua vez, é preocupar-se com coisas na vida dos outros que não te afetam em nada. Uma pessoa que não é gay não tem razão para julgar se o casamento gay é algo bom ou mau, já que ela própria não terá de viver um casamento gay e o casamento gay dos outros não a afetará de forma alguma.

Em resumo, podemos dizer que:

Moralidade é julgar a sua própria vida e as coisas que a afetam diretamente. Moralismo é julgar a vida dos outros em coisas que não te dizem respeito.

Sabendo disso, podemos nos perguntar: Por que cargas d’água alguém optaria pelo moralismo?

A resposta mais simples é que o moralismo serve para que elas chamem tanta atenção para a vida dos outros, chegando ao ponto de esquecerem das irregularidades de suas próprias vidas ou, melhor ainda, de desviarem a atenção das pessoas próximas para essas irregularidades.

Um marido que esteja tendo um caso pode contar para a esposa sobre os casos dos colegas dele, fingindo sentir repulsa por eles. Com isso ele convence a esposa de sua fidelidade. Sua atitude, no entanto, segundo Lacan, tem um efeito colateral interessante.

Ao condenar, diante da esposa, os casos extraconjugais de seus amigos, ele atribui aos casos dos outros um valor moral negativo. E fazendo esse julgamento moral, ele passa a sentir-se como uma pessoa correta, mesmo sabendo que ele próprio está tendo um caso! É a grande força do imaginário que, segundo Lacan, é muito mais concreto do que o real.

Partindo dessa análise, é natural que quanto mais imoral for uma pessoa, mais ela seja adepta do moralismo. Quanto menos vergonha na cara uma pessoa tiver, mais essa pessoa apresentar-se-á como pura e perfeita. E fará isso justamente condenando a vida dos outros, enquanto sua própria vida permanece mergulhada na podridão.

É por isso, por exemplo, que Bolsonaro e seus filhos acusam Lula de ser ladrão. Porque enquanto as pessoas estiverem pensando sobre Lula, não verão as rachadinhas, as ligações com as milícias ou os 39 kgs de cocaína transportados no avião presidencial por um sargento que, com seu parco salário, jamais teria condições de adquirir tanta cocaína para revender.

É por isso, por exemplo, que a ministra da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves, está sempre tão preocupada em julgar as cores das roupas que meninos e meninas devem usar. Enquanto as pessoas estiverem debatendo sobre meninos que vestem rosa ou meninas que vestem azul, não terão tempo de perceber que Damares está tendo um caso com um homem casado. E quem diz isso é o Oswaldo Eustáquio, um blogueiro bolsonarista.

Também não perceberão que Damares mentiu descaradamente ao afirmar que era mestra em Direito da Família e em Direito Constitucional, somente para afirmar (quando pressionada pela mídia) que esses eram “mestrados bíblicos”… Embora nunca se tenha sabido que a Bíblia tem autorização do MEC para oferecer cursos de pós-graduação!

E os crentes dizem que o “pai da mentira” é o diabo…

Há inúmeros outros casos. Já falei em um artigo anterior sobre uma namorada crente que fazia sexo comigo em segredo, ao mesmo tempo em que criticava uma colega que havia sido vista “tirando um sarro”. Também comentei, em outro artigo, sobre um coronel bolsonarista, grande adepto do moralismo, que foi pego em flagrante estuprando uma menina de dois anos em seu carro.

No mesmo artigo comento sobre outro adepto do moralismo, que acusou Haddad de espalhar o kit gay para corromper a juventude, e que foi classificado pelo FBI como um dos maiores distribuidores de pornografia infantil do mundo.

São muitos casos mesmo! Eu poderia passar o resto do dia aqui enumerando-os e não acabaria, embora a sua paciência para ler sobre tanta sujeira certamente fosse acabar.

Eu poderia até arriscar aqui um palpite. É bem provável que essa senhora que filmou a moça do “macaquinho” tenha ficado preocupada não com a moral da escola, mas com o fato de que seu amante pudesse ver a moça e ficar interessado… Talvez até tivesse ciúme do marido e do amante ao mesmo tempo!

A verdade é que o moralismo é um disfarce. Uma forma de apresentar ao mundo uma face que é diametralmente oposta à face real do moralista.

Puritana, putana!

Quando se trata de fazer massas e ditados bem sintéticos, os italianos são realmente imbatíveis.

Somos mais destrutivos que os zumbis – Parte 2/2

(Este artigo é uma continuação deste outro aqui.)

Depois de ter explicado no artigo anterior por que os monstros mais populares da atualidade são os zumbis, gostaria hoje de falar sobre um outro ponto que atraiu a minha atenção em séries como “The Walking Dead” e seu spin-off “Fear the Walking Dead”: o imenso potencial destrutivo dos humanos vivos!

Quando comecei, por sugestão do meu cunhado, a acompanhar a série “The Walking Dead”, em 2012, a minha primeira impressão era a de que o policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) e sua turma seriam os heróis da série. Jogados de um lado para o outro na tentativa de achar um local seguro, parecia-me que eles representariam o que havia de melhor na humanidade, segundo aquela ideia de que nos momentos de crise conseguimos nos superar.

Quanta ilusão!

O desenrolar da série mostrou-me um Rick extremamente arrogante. Só ele podia ser o líder de qualquer lugar em que chegassem. Se não fosse o líder, conspirava para depor a liderança e chegava até mesmo a comprometer o lugar para assumir o controle.

Rick Grimes certamente tinha um problema com autoridade. Ou melhor, com a autoridade dos outros, já que ele tentava ser a autoridade máxima onde quer que estivessem. E esse nem é o único problema.

Em um mundo onde a população humana foi sistematicamente reduzida, era de se esperar que descobrir outros seres humanos fosse, para cada grupo, um motivo de alegria. Essa, entretanto, não é a realidade. Quando dois grupos se encontram, a primeira reação é destruírem-se mutuamente.

Não, eu não sou nenhum inocente. Sei muito bem que, em condições de recursos limitados, é bem natural que haja competição. Mas é de se esperar que, mesmo em condições extremas, alguém pense em não destruir potenciais talentos no grupo oposto. Ou em unir forças contra o inimigo comum, os zumbis.

Se você parar para pensar, os zumbis comportam-se bem melhor que os humanos em “The Walking Dead”. Para começar, zumbis não atacam zumbis. Até mesmo os humanos vivos conseguem transitar entre os zumbis quando se sujam com sangue e entranhas, passando a parecer com eles. Entre os humanos vivos, não há nenhum recurso assim que os impeça de matarem uns aos outros sistematicamente.

Rick e sua turma são especialistas nisso. Acham uma cidade murada e segura, controlada por uma mulher. Rick logo quer controlar o lugar e o resultado é a invasão do lugar por zumbis, inviabilizando seu uso por humanos.

Depois aparece o “Governador”, que estava construindo uma cidade segura. Seus métodos podiam não ser os mais simpáticos, mas em situações extremas é natural que as pessoas adotem soluções extremas. Novamente a turma do Rick Grimes aparece e os dois grupos entram em conflito, resultando a coisa na inviabilidade da prisão que a turma do Rick ocupava e também da cidade do “Governador”. Sem falar em mais e mais humanos mortos! Se os zumbis não conseguiram exterminar a humanidade, certamente os humanos remanescentes fazem um excelente trabalho nesse sentido durante toda a série.

Particularmente fascinante é o personagem Negan (Jeffrey Dean Morgan), sempre acompanhado de sua amiga Lucille, um bastão de baseball enrolado com arame farpado que ele usa sem pena quando precisa reforçar sua autoridade.

Novamente temos alguém que usa métodos violentos e pouco ortodoxos para atingir seus objetivos. Negan é um valentão que estabelece uma espécie de sistema de proteção e extorsão. Um verdadeiro miliciano pós-apocalíptico. Não sei se o Bolsonaro assistiu “The Walking Dead”, mas se assistiu, tenho certeza de que Negan era o personagem predileto dele.

Curiosamente, eu também gosto do Negan!

Ao contrário de Rick Grimes e do “Governador”, que procuram manter fachadas respeitáveis, procuram fingir que são boas pessoas, Negan assume abertamente seu mau caráter e até o aperfeiçoa com uma fachada sarcástica constante.

Negan é, possivelmente, o personagem mais bem resolvido psicanaliticamente de “The Walking Dead”, se pensarmos no que dizem por aí da Psicanálise: Que o principal objetivo dela não é consertar os maus comportamentos humanos, mas sim fazer com que as pessoas não sofram combatendo ou reprimindo esses maus comportamentos.

Dias atrás resolvi, por puro tédio, assistir ao spin-off “Fear the Walking Dead”. Mais uma vez, o maior problema do mundo pós-apocalíptico não são os zumbis, mas os humanos vivos, exatamente como na série principal.

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão que se um apocalipse zumbi um dia acontecer, estarei do lado dos zumbis.

Somos mais destrutivos que os zumbis – Parte 1/2

Aqui em casa gostamos muito de filmes. Sobretudo filmes de terror. Mas minha esposa não gosta de filmes de zumbis e isto tem-se tornado, nos últimos tempos, um grande problema.

Sim, porque “terror”, na última década ou pouco mais, tornou-se sinônimo de “zumbis”. Muitos atribuem isso ao sucesso da série “The Walking Dead”, de 2010, mas eu discordo de forma veemente. O sucesso da série não é causa, mas consequência.

Como atento observador do mundo, e acreditando que a arte imita a vida, e vice versa, elaborei uma teoria para explicar porque os monstros contemporâneos são zumbis, ou seja, humanos que morrem e voltam à vida com fome de carne humana.

Os monstros dos filmes de terror acompanham os medos que nós humanos temos em cada geração. Ainda nos tempos do cinema mudo, no começo do século XX, quatro monstros dominavam o imaginário popular, cada um com sua própria interpretação psicanalítica.

A MÚMIA

Com a descoberta da tumba do faraó Tutancâmon, feita pelo arqueólogo britânico Howard Carter em novembro de 1922, as múmias ganharam notoriedade que nunca haviam tido antes. Lord George Herbert, 5º conde de Carnavon, que havia sido o financiador das pesquisas de Carter, morreu de uma febre misteriosa, apenas cinco meses após a descoberta do túmulo. Depois dele, vários dos exploradores que participaram da descoberta também morreram de formas não completamente explicáveis. Esses fatos deram origem às lendas sobre uma suposta maldição do faraó, trazendo as múmias para o espectro dos monstros.

Naquele início do século XX, quando carros velozes (para a época) começavam a circular nas ruas e aviões começavam a encher os céus, algumas pessoas sentiam imenso orgulho dos avanços tecnológicos que estava sendo conquistados. Nesse contexto, as múmias passaram a representar também o medo do antigo, o medo do velho. Observo também, misturado com isso, um certo medo do “sagrado”, que contrastava com o então tão valorizado “científico”.

O MONSTRO DE FRANKENSTEIN

Nem todos, entretanto, são favoráveis ao progresso. Há sempre os tais conservadores, que veem em qualquer avanço científico ou moral uma ameaça para a sociedade. E para estes o cinema do início do século XX trouxe o monstro de Frankenstein, baseado na obra de Mary Shelley.

Frankenstein não é o nome do monstro, mas de seu criador, um médico obcecado com a ideia de usar a tecnologia da época para gerar vida em laboratório. E por essa descrição já podemos entender o motivo pelo qual o monstro que ele criou passou para o imaginário popular como uma ameaça.

O monstro de Frankenstein representava, para começar, a heresia de um homem que quer roubar para si a prerrogativa divina de criar a vida. Além disso, representava a tecnologia gerando uma criatura perigosa e ameaçadora para a humanidade.

O VAMPIRO

O vampiro, que mordia o pescoço das virgens para alimentar-se de seu sangue, representa outra ameaça contra uma sociedade conservadora: a luxúria!

O vampiro visitava as jovens em seu leito. Era capaz de seduzi-la e encantá-las com o olhar, para então alimentar-se do sangue delas. E, uma vez mortas, renasciam como vampiras e passavam a ser suas “noivas”. No “Drácula”, de Bram Stoker, o conde da Transilvânia tem três mulheres morando em seu castelo, vivendo maritalmente com ele sem os “sagrados laços do matrimônio”, sem as bênçãos da igreja. Praticamente uma heresia. Ainda hoje a ideia de “poliamor” escandaliza, então podemos imaginar o efeito disso no final do século XIX e começo do século XX, quando os vampiros confrontavam mais que as cruzes. Confrontavam a moralidade vitoriana.

Os vampiros continuaram afrontando a moralidade com a escritora Anne Rice, que publicou em 1976 o primeiro livro das suas crônicas vampirescas, “Entrevista com o vampiro”, levado ao cinema em 1994 com um elenco de belezas masculinas que encenavam uma história permeada de homossexualidade.

Quem assistiu ao filme certamente lembra da cena em que o vampiro Armand (Antonio Banderas) tenta convencer o vampiro Louis (Brad Pitt) a largar tudo e vir com ele como companheiro.

Estendendo um pouco mais a análise dos vampiros, é bom lembrar que originalmente o alimento deles é o sangue das mulheres, em uma clara alusão ao sangue menstrual, que é um tabu social relacionado com a sexualidade e com a reprodução.

LOBISOMEM

O quarto monstro dos tempos do cinema mudo era o lobisomem, um ser humano que se transforma em monstro quando a lua está cheia, passando a matar como uma fera selvagem. Aqui temos um claro conflito entre a racionalidade e a natureza selvagem, que residem conjuntamente em cada um de nós. O lobisomem reflete uma perspectiva realmente freudiana: o conflito entre o ID selvagem e o EGO humano. Foucault também discute, em seu “História da Loucura na Era Clássica”, como o ser humano animaliza-se em condições extremas.

A influência da lua na transformação do lobisomem também é significativa, do ponto de vista psicanalítico. Trata-se de um retorno à natureza de uma sociedade industrial, uma sociedade tecnológica. Novamente vemos aqui o mesmo conflito entre o novo e o antigo que já havíamos visto na análise da múmia.

Depois que Orson Welles, em 1938, apavorou os Estados Unidos com sua transmissão radiofônica de “A Guerra dos Mundos”, na qual narrava uma invasão do planeta por alienígenas, os monstros passaram a ser, durante algum tempo, de outro planeta.

Nos anos 50 tivemos uma epidemia de monstros deformados pela radiação. Insetos gigantes, como a formiga da foto, refletiam o medo da mais nova ameaça à humanidade, revelada nos covardes e desnecessários ataques dos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki.

Por que, então, os monstros de nossa era são zumbis, ou seja, humanos mortos que devoram humanos vivos?

Para entender isso precisamos compreender antes como os monstros de antigamente foram “absorvidos” pela nossa sociedade, racionalizados, sanitizados.

Os vampiros e lobisomens de “Crepúsculo” (2008) continuam bonitos, mas perderam seus elementos de sedução sexual e agora até se guardam para o casamento, em uma visão bastante cristã para seres supostamente amaldiçoados. Eles não representam mais a força vital que usava o sexo para roubar a vida. Não são mais objetos de temor, mas apenas de desejo. Não são temidos, mas cobiçados. Ao ponto do meu amigo Maurício Ricardo ter feito, com sua banda “Os Seminovos”, uma música satirizando a franquia “Crepúsculo”, na qual um pai tenta convencer sua filha de que ela não poderia achar um vampiro lindo para se casar.

Em seu livro “Tudo que é sólido desmancha no ar”, o filósofo Marshall Berman relata a decepção da pós-modernidade com a Ciência. Depois que os progressos científicos foram mais usados para a guerra do que para produzir e distribuir riqueza, a Ciência perdeu parte da sua credibilidade. Frankenstein não seria hoje nenhuma surpresa, considerando que as pessoas já acham natural que todo avanço científico traga problemas, traga novos riscos.

As múmias foram dissecadas e passaram por tomografias por ressonância magnética. A decifração da Pedra de Rosetta e a descoberta de mais exemplo de escrita egípcia, revelaram os rituais de mumificação e seus objetivos. Os mistérios das múmias foram acabando com o passar do tempo.

“Eu fui um lobisomem adolescente”

As transformações dos lobisomens passaram a ser vistas, no cinema, como metáforas para as transformações bastante naturais da adolescência.

Extraterrestres agora têm até fã clubes! Misturados com as múmias pelos teóricos dos antigos astronautas, como Erich von Däniken e Giorgio A. Tsoukalos, eles agora são populares. Não há mais como ter medo de ETs depois que o filme de 1982 nos apresentou um extraterrestre simpático, bonzinho, ecológico e amigo das crianças. Ou depois que a Record nos apresentou algo tão ridículo quanto o ET Bilu…

Todos os monstros foram destruídos, descaracterizados, sanitizados e absorvidos pela sociedade consumista.

Em 1968, ano em que nasceu este que vos escreve, que hoje completa seu 54º aniversário, apareceu a primeira versão de “A noite dos mortos vivos”, o único filme de zumbis que minha esposa gostou realmente.

De lá para cá os zumbis cresceram cada vez mais em participação no mercado dos monstros, até dominá-lo completamente de 2008 para cá, com “The Walking Dead” e seus spin-offs.

A explicação para isso é simples. Em 1968 a guerra do Vietnã estava em seu auge. A história do massacre da aldeia de My Lai havia chegado aos Estados Unidos. Os manifestantes pediam punição para o tenente William Calley que, junto com sua tropa, massacrou uma aldeia inteira de velhos, mulheres e crianças vietnamitas. Calley, condenado à prisão perpétua, foi perdoado por Richard Nixon depois de cumprir apenas três anos e meio de prisão domiciliar.

Policiais e membros Guarda Nacional atiravam nos estudantes nas universidades South Carolina State (3 mortos, 27 feridos), Kent State (4 mortos, 9 feridos), Jackson State (2 mortos, 12 feridos) e Southern University (2 mortos, 2 feridos). Atiravam porque esses estudantes estavam protestando contra a Guerra do Vietnã, que todos os dias fazia com que jovens chegassem ao país em sacos plásticos, não para defender a democracia, mas para defender o Índice Dow Jones da bolsa de valores.

Na pátria do cinema, as pessoas que dormiam e acordavam esperando um ataque nuclear soviético, começavam a entender que os inimigos não vinham do espaço como os ETs, não vinham de outras eras como vampiros e múmias, não eram animais selvagens como os lobisomens e muito menos seres gerados pela tecnologia como o monstro de Frankenstein.

Os inimigos da humanidade eram os próprios seres humanos!

Avancemos um pouco no tempo e passemos dos remotos anos 60 do século XX para os dias atuais.

Será que a situação melhorou?

Não, de modo algum.

As mudanças sociais que conduzem às mudanças drásticas nas relações de produção, e ao fim previsto dos empregos, estimularam a competitividade. Aceitamos como natural a psicopatia da maioria dos CEOs, desde que tragam lucros. Aceitamos como natural que a cultura corporativa esteja permeada por violência, abusos e traições. Na escassez, trabalhadores tiram o pão de outros trabalhadores para poderem manter seus empregos. Literalmente, roem a carne uns dos outros.

Não é por acaso, portanto, que nossos monstros somos nós mesmos. Nós os representamos como mortos que querem comer nossa carne porque a verdade é que estamos todos um pouco mortos hoje em dia.

(Este artigo continua amanhã…)