A história se repete. Na primeira vez como tragédia, na segunda vez como farsa. Essa constatação de Karl Marx na introdução do seu “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte” veio à minha mente esta semana enquanto refletia sobre essa crise que está acontecendo na fronteira da Ucrânia com a Rússia e que tem potencial para conduzir-nos à III Guerra Mundial.

Sobre esse assunto da III Guerra Mundial, gostaria de lembrar aqui, antes de tratar do assunto principal, da pergunta feita certa vez ao físico Albert Einstein, na década de 50, depois do lançamento das bombas atômicas e do início da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética começavam a acumular arsenais nucleares capazes de exterminar toda a vida no planeta Terra.

Einstein, ao ser perguntado como seria travada a III Guerra Mundial, disse que não fazia ideia, mas que sabia como seria travada a IV Guerra Mundial: com paus e pedras.

Ele quis dizer com isso que a eventualidade de uma III Guerra Mundial, entre países com arsenais nucleares, provavelmente nos proporcionaria um retorno à pré-história, com humanos vivendo como animais inferiores e lutando com paus e pedras.

Talvez estejamos diante dessa possibilidade! Que magnífico trabalho, não é mesmo, esse da sociedade humana que os conservadores buscam tanto preservar?

Eu não sei o que emergirá de um possível conflito aberto entre a Rússia e os Estados Unidos. E não estou especulando muito sobre isso em minhas reflexões, porque a eventual eclosão desse conflito significaria uma mudança tão sem precedentes na história humana que não sei se tenho todos os parâmetros para avaliar os possíveis resultados.

Preocupa-me muito mais, neste momento, o que pode acontecer se o conflito não ocorrer. Como será o “novo normal” depois dessa ameaça de guerra e de refletirmos sobre os fatores que conduziram a ela.

Digo isso porque este conflito está sendo arquitetado como uma repetição histórica do que aconteceu nos dois anos que antecederam a II Guerra Mundial. Os movimentos da Rússia de Putin estão cada vez mais parecidos com os movimentos da Alemanha de Hitler entre 1938 e 1939. Recordemos o que aconteceu para traçarmos os paralelos de forma mais eficiente.

Podemos começar com a chamada Crise dos Sudetos, de 1938.

Fortalecido com o Anschluss, a anexação da Áustria, Adolf Hitler reivindica, no começo de março de 1938, o papel de “protetor dos Sudetos”. Esse era o termo usado para falar de uma minoria étnica germânica que, depois da divisão do Império Austro-Húngaro após a I Guerra Mundial, ficou residindo no território da Checoslováquia, país criado em 1919.

Em 1933, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha e deu início ao projeto do III Reich, essa minoria alemã que habitava as regiões da Boêmia, Silésia e Morávia, pertencentes à Checoslováquia, fundou um partido nacional-socialista e passou a exigir a anexação dessa região ao III Reich.

Isso, é claro, violava todos os acordos e tratados que desmembraram o Império Austro-Hungaro, particionando os territórios que eram antes alemães. Também é claro que violar esses acordos e tratados era justamente a intenção de Hitler, que planejava fazer com que o seu “Reich de Mil Anos” retomasse os territórios germânicos originais. O próprio Partido Nazista cresceu invocando a ideia de que a Alemanha havia sido mal servida pelo Pacto de Versailles e que tanto as indenizações de guerra, quanto a partição territorial eram “crimes contra o povo alemão”.

Infelizmente a política europeia do “apaziguamento” fez com que os países vencedores da I Guerra Mundial não se opusessem de forma marcante ao processo de anexação dos sudetos. Tanto a França quanto a União Soviética diziam apoiar a Checoslováquia, mas apenas de forma nominal, sem interesse em realizar ações militares para impedir que Hitler invadisse as regiões da Checoslováquia que faziam fronteira com a Alemanha. Os britânicos, que naquele momento enfrentavam diversas crises nos territórios que eles ocupavam ao redor do mundo, como a crescente pressão pela independência da Índia, não queriam um conflito na Europa, pois desconfiavam que isso selaria o fim do Império Britânico, mesmo que fossem vencedores.

Em setembro de 1938 o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, visita Hitler em Munique e cede à pressão do chanceler alemão, concordando que a Alemanha anexasse os territórios onde viviam aquelas populações germânicas. Hitler havia vencido e essa vitória o faria acreditar (erradamente, como se viu depois) que o restante da Europa não se oporia aos projetos de expansão da Alemanha.

Esse foi o evento histórico inicial, que em 1939 foi repetido como tragédia.

Dessa vez Hitler alegou que a cidade polonesa de Danzig tinha uma vasta população alemã, o que era verdade, passando a exigir o direito de anexar esta cidade ao III Reich e de construir uma ferrovia que ligasse a Alemanha a Danzig, atravessando o chamado “Corredor Polonês”, uma faixa de terra da Polônia que, no caso da anexação, ficaria separando dois territórios alemães.

Embora a Polônia tenha concordado com a construção da ferrovia, para viabilizar a movimentação das populações germânicas de Danzig que quisessem mudar para o III Reich, recusou-se firmemente a permitir a anexação de Danzig ao território alemão. Acreditando que franceses e ingleses agiriam com fraqueza, como na Crise dos Sudetos no ano anterior, Hitler invadiu a Polônia no dia primeiro de setembro de 1939, dando início à II Guerra Mundial.

Esta foi a repetição como tragédia dos eventos ocorridos na Checoslováquia no ano de 1938. Vamos agora à repetição como farsa, que é o que está ocorrendo agora na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

Putin quer anexar parte da Ucrânia à Rússia? Claro que sim! Mesmo um país gigante como a Rússia, sempre quer mais território.

Putin quer iniciar uma ação militar naquela região para promover essa anexação? Não, eu penso que não.

As tropas russas estão na fronteira com a Ucrânia para dar aos rebeldes de etnia russa a impressão de que ele apoiará a rebelião deles. É um movimento muito parecido com o que Hitler fez na fronteira da Checoslováquia, esperando mostrar força, mas não invadindo antes do “consentimento oficial” do restante da Europa.

É também um movimento parecido com o que o Duque de Buckingham fez durante o Cerco de La Rochelle, entre setembro de 1627 e outubro de 1628. Tendo prometido aos rochelenses que mandaria ajuda contra as tropas do rei Luis XIII e do Cardeal Duque de Richilieu, Buckingham manda uma esquadra britânica atracar á vista dos rochelenses, para dar a impressão de apoio, mas nunca desembarca para ajudá-los de verdade. Era apenas um movimento para mostrar seu apoio e, com isso, tentar forçar um recuo das tropas reais. Não funcionou, claro. La Rochelle caiu, mais pela fome do que pelas ações militares de Richilieu, que comandava pessoalmente as forças católicas que foram mobilizadas para destruir aquela cidade protestante.

Não, eu não acredito que Putin irá invadir a Ucrânia. Ele estacionou tropas ali para entrar no território se os rebeldes separatistas pró-Russia vencerem. E também para deixar claro para a OTAN que não vai tolerar a instalação de bases militares tão perto de sua fronteira.

É por isso que digo que a história se repete ali, desta vez como farsa. Não há clima para uma invasão desse tipo, que seria rechaçada por toda a comunidade internacional. O tempo em que os Estados Unidos invadiram Granada (1983) e a URSS o Afeganistão (1979) já vão longe.

A grande questão que me preocupa no momento é que a xenofobia, sempre estimulada pela extrema-direita, tenderá a aumentar nos próximos anos com essa movimentação da Rússia.

Sim, porque os países europeus tenderão a ficar cada vez mais preocupados em aceitar grupos étnicos diferentes dos seus próprios em seus territórios, já que essa penetração pode ser usada posteriormente para justificar uma futura ameaça de invasão.

“Ah, temos muitas pessoas do nosso país em tal região do seu território e por isso exigimos essa região para nós”.

Todos lembram muito bem como os simpáticos e cordiais europeus recusaram-se a receber em seus países as vítimas da guerra entre sérvios e croatas na antiga Iugoslávia, que culminou com a desintegração do país. Lançadas em campos de concentração, essas pessoas passaram por terríveis abusos.

Será que a Europa sempre reproduzirá seus erros históricos, como previram Hegel e Marx? Será que o Velho Continente continuará sendo o berço das guerras mundiais? Será que o verniz de civilização que cobre os povos europeus sempre será rompido por questões como esta da Ucrânia?

São perguntas que pairam sobre o mundo neste momento, quando o conflito entre os interesses imperialistas da Rússia de Putin e os interesses imperialistas dos Estados Unidos de Biden ameaçam mais uma vez nossa espécie.

Se esses imperialistas lutarem agora, é possível que em breve estejamos lutando com paus e pedras.

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