Eu gosto muito de filmes. Quem lê esse blog com frequência já sabe disso, pois comento sobre eles o tempo todo. E uma das minhas paixões em relação aos filmes é assistir às diversas refilmagens de um único filme, para comparar e criticar. Muitas vezes também para entender como o passar dos tempos influenciou as mudanças no roteiro original.

Um desses casos é o do filme “Invasores de Corpos”. Assisti, ainda nos anos 80, à versão de 1978, com Donald Sutherland e Jeff Goldbloom. Gostei do filme e muito depois, quando surgiu a internet, resolvi pesquisar sobre ele. Descobri então que a versão de 1978 já era um remake e que o original era de 1956, produzido ainda em preto e branco. Depois disso tivemos mais dois remakes pelo menos. Um de 1993, dirigido por Abel Ferrara, e outro de 2007, com Nicole Kidman e Daneil Craig.

Há um outro filme do qual gosto muito, intitulado “Sob o domínio do mal”. A versão de 2004, com um time fantástico que inclui Denzel Washington, Liev Schreiber, Vera Farmiga, John Voight e a divina Meryl Streep, é remake de um filme de 1962, também com uma equipe fantástica, que inclui Frank Sinatra e Janet Leigh. São montagens de um livro intitulado “The Manchurian Candidate”, do Richard Condon.

Surgido em plena Guerra Fria, “The Manchurian Candidate” fala de um plano arquitetado pela China Comunista para eleger um presidente para os Estados Unidos controlado por eles. A estratégia é pegar um jovem militar, filho de uma senadora estadunidense, que está em missão no exterior, promover uma lavagem cerebral nele e transformá-lo em um assassino. Há toda uma montagem para que ele seja visto pelo público estadunidense como herói, ganhe uma Medalha de Honra do Congresso e seja lançado como candidato à vice-presidência dos EUA. O final do plano inclui a lavagem cerebral feita em outro militar do mesmo destacamento, para que assassine o presidente dos Estados Unidos no dia da posse, levando o vice-presidente com a mente lavada para o cargo mais poderoso do planeta.

Como sempre acontece quando traduzem os títulos dos filmes, o deste foi completamente alterado. O título original dos filmes é o mesmo do livro, mas no Brasil a versão de 2004 foi exibida como “Sob o domínio do mal”. Não foi o pior caso de tradução, já que o título pelo menos expressa algo sobre a história do filme. Já vi traduções de títulos bem piores, infelizmente.

Nós, brasileiros, não estamos apenas sob o domínio do mal. Fomos vítimas, é claro, de um plano estrangeiro para tirar do poder uma presidenta legítima e interessada no nosso país e no nosso povo, colocando em seu lugar não um presidente com o cérebro lavado, mas sim um presidente sem cérebro. Em virtude disso, estamos também sob o domínio da burrice!

Em meus 54 anos de vida, sendo 50 deles dedicados ao estudo, desde que aprendi a ler aos quatro anos, eu jamais havia visto, ou sequer imaginado, que uma onda de burrice pudesse varrer o nosso país de forma tão marcante.

O primeiro sintoma foram os erros ortográficos e gramaticais. De repente comecei a ler frases cheias de erros na internet. E não eram escritas por idiotas irrelevantes como o tal “Monark”, sobre quem escrevi recentemente um artigo depois que ele defendeu a legalização do nazismo. Eram textos escritos por pessoas com nível superior. Alguns até ostentavam títulos de mestre e doutor, mas não conseguiam fazer concordância nominal básica, coisa que meu filho de sete anos já consegue fazer muito bem.

Junto com os erros ortográficos e gramaticais, vieram as desculpas. E quem serve para dar desculpas, raramente serve para qualquer outra coisa, como é bem sabido. A culpa não era deles, mas do corretor ortográfico dos editores de texto e dos celulares. Ou então alegavam que não era importante escrever corretamente na internet. Finalmente distorceram a tese do preconceito linguístico, do Marcos Bagno, para alegar que não podiam ser criticados, uma vez que eram compreendidos mesmo com seus erros. (É bom lembrar que a tese do Marcos Bagno não tem esse significado. Ela não foi escrita para justificar os erros de pessoas (supostamente) letradas, mas para impedir que pessoas que não passaram por um letramento correto fossem discriminadas por sua escrita.)

Foi nesse ponto que perdi a esperança. Sim, porque todos podemos errar, mas só aqueles de nós que aceitam as críticas e correções podem evoluir. De minha parte, fico profundamente grato quando alguém aponta um erro que cometi, porque isso me dá a chance de corrigi-lo e de aprender com a correção. Mas essas pessoas que escreviam errado simplesmente não queriam evoluir. Preferiam achar desculpas ou mesmo bloquear quem lhes apontava os erros, mostrando que a coisa só pioraria para elas.

Estava claro para mim, a esse ponto, que as coisas iam piorar muito para todos nós. Porque quem escreve errado mostra apenas que não aprendeu a ler corretamente. E quem não lê corretamente, tem poucas chances de adquirir saber efetivo. Uma pessoa assim pode até ler muito, mas entenderá muito pouco do que lê. Terá sérios problemas de interpretação. Lerá uma coisa e entenderá outra coisa completamente diferente.

Foi exatamente isso que aconteceu. A degeneração da capacidade de compreensão foi aumentando em tão grande escala que já presenciei pessoas brigando na internet, como se estivessem discordando de algo, quando as duas, na verdade, estavam expressando a mesma opinião! Elas simplesmente não conseguiam entender nem mesmo o que estavam dizendo, para então perceber que estavam concordando mutuamente e, por conseguinte, não deveriam estar brigando.

A esse ponto era possível imaginar que estávamos já no fundo do poço. Mas, como costumo dizer, quando se está no fundo do poço e se pensa que não dá para piorar, sempre aparece alguém com uma escavadeira…

A internet forneceu fantásticos meios digitais de informação… e de desinformação! Eu posso fazer um vídeo no Youtube levando às pessoas conhecimento real em uma das minhas muitas áreas de estudo: matemática, desenvolvimento de software, filosofia, psicanálise… Mas, da mesma forma, um imbecil sem qualquer conhecimento de qualidade dispõe do mesmo espaço para espalhar idiotices.

Antivacinismo, terraplanismo… esses são apenas alguns dos itens de desinformação que foram lançados no mundo e se propagaram devido ao espaço ilimitado e não verificado que é concedido aos idiotas.

É por isso que precisamos de uma regulamentação dos meios de comunicação. Não se trata de censurar opiniões discordantes, mas sim de censurar opiniões idiotas! Ninguém tem o direito de colocar no ar um artigo ou vídeo dizendo que a Terra é plana. Ninguém pode requerer judicialmente o direito de mentir!

A coisa ficou ainda pior com a COVID-19. Boatos como o de que a vacina provoca autismo ou câncer, ou transforma pessoas em jacaré, espalharam-se como chamas no capim seco. E isso se deve a outro fator difundido em nossa sociedade: o ódio ao conhecimento!

O conhecimento real requer esforço de aquisição, enquanto a estupidez é aprendida praticamente a custo zero. É por isso que um canal de vídeo sério, que discuta temas importantes, terá poucas visualizações, enquanto o Flow Podcast tem milhões de seguidores. Sei disso porque fizemos a experiência, minha esposa e eu, mais de uma vez. Por último criamos o canal CASAL CULTURAL no Youtube, onde tratávamos de literatura, música, filosofia, história, política… enfim, um pouco de tudo sobre o que gostamos de ler e de conversar. Este é um dos nossos vídeos, repleto de informações sobre o Dia do Trabalho. Foi lançado em Primeiro de Maio de 2021 e atingiu a pífia marca de 126 visualizações.

Enquanto isso, o vídeo “10 minutos de Anitta rebolando” atingiu, no mesmo período de tempo, 132 mil visualizações.

Não tenho nada contra a Anitta. Acho-a uma moça inteligente e que achou um filão bom para ganhar dinheiro, coisa importante em uma sociedade capitalista. Até gosto de vê-la rebolando, confesso. Mas isso não muda o fato de que bilhões de bytes transitaram na web para gerar conhecimento zero, enquanto muito conhecimento real fica “parado nas prateleiras”.

Então minha esposa e eu consideramos muito o custo de produção desses vídeos. Para apresentar um trabalho apenas medianamente bom, gastávamos cerca de dez horas em gravação e edição para cada vídeo. Se juntarmos o que ela e eu cobramos pelos nossos serviços profissionais hoje em dia, chegamos a algo perto de 500 dólares por hora. Trabalhando dez horas para produzir um vídeo, temos um custo de produção de cerca de 5000 dólares. E todo esse esforço e custo atingia apenas uma centena de pessoas… Não tínhamos intenção de obter lucro com o canal, apenas de difundir cultura. Mas também não tínhamos intenção de manter um prejuízo tão grande, de forma que acabamos com o canal.

Esse não é um problema apenas nosso. Felipe Castanhari, um youtuber que conhecemos e admiramos, queixa-se da mesma coisa em um dos seus vídeos. Segundo ele os custos não eram sequer cobertos pelo que o Youtube pagava. E olha que o canal dele era muito concorrido! Mas não tinha a Anitta rebolando…

É assim que a humanidade está indo para o buraco. A estupidez está dominando tudo. Estamos, literalmente, sob o domínio da burrice. E junto com ela virão suas sequazes: a guerra, a doença, a peste, a fome…

Segundo um relatório da ONU dos anos 90, o simples conhecimento sobre ferver a água antes de beber reduziria em 70% a mortalidade infantil no mundo. Mas como espalhar esse conhecimento de forma efetiva? As pessoas que mais precisam dele não têm internet. E as que têm internet e poderiam servir de multiplicadoras, muitas vezes estão usando seus recursos para desinformar. Se a ONU lançar a proposta de cada youtuber fazer um vídeo ensinando a ferver a água, logo os adeptos da ignorância estarão combatendo a ideia. Aqui no Brasil, em particular, os bolsominions estarão dizendo algo do tipo: “A ONU é globalista e comunista. Se ela manda ferver a água, é porque isso reduzirá a taxa de natalidade das pessoas cristãs, para que o diabo tome conta do mundo junto com o comunismo.”

Eu tinha 32 anos quando chegou o ano 2000. E tinha muitas esperanças. Afinal, estávamos entrando na Era da Informação. Hoje, eu nem mesmo fico surpreso quando um deputado bolsonarista do centro-oeste apresenta um projeto de lei para que as mulheres vítimas de feminicídio recebam uma verba para comprar armas.

O sujeito não consegue nem mesmo entender que as mulheres vítimas de feminicídio não podem comprar mais nada, mesmo que recebam dinheiro para isso, porque estão mortas!

Definitivamente, estamos no fundo do poço. E logo aparece mais uma escavadeira para piorar a situação…

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1 comentário

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  1. Amei! Muito bem colocado! E Marcos Bagno é inspirador, né? Estava “pipocando” aqui enquanto lia. Que pena que o casal cultural se aposentou.
    Lembrando das mensagens subliminares em filmes e supostos desenhos “nudes” nos filmes da Disney, tive uma ideia para vocês bombarem na Internet! Vocês colocam as mensagens inteligentes como mensagens subliminares na “bunda da Anitta”, quero dizer, na cascata do emburrecimento. WAT?