Sim, eu sei. Demorei a comentar sobre essa questão do Monark no Flow Podcast. Os que me conhecem um pouco melhor, sabem que só comento depois de refletir muito. Então, aqui vão minhas as considerações sobre este tema. E não são poucas.

Para começar, a questão que mais tem sido debatida: Monark é nazista?

Não, não acredito que ele seja nazista. Na verdade, não acredito que ele seja nada, exceto mais um imbecil que fez sucesso nessa era medíocre na qual vivemos. Um idiota, filhinho de papai, que vivia de fazer vídeos de jogos e achou uma maneira de ganhar mais dinheiro dando opiniões idiotas para milhões de idiotas que se recusam a acreditar que o são.

Ele não é inteligente o bastante para ter uma posição política definida. Nem mesmo sabe qualquer coisa sobre o nazismo, como demonstram os seus comentários.

Segundo o Monark, no fatídico vídeo, os nazistas só foram um problema na Alemanha porque eram maioria. Então, considerando que hoje seriam maioria, não haveria nenhum problema em deixar que se organizassem como um partido político. Será que isso é verdade?

Não, isso é apenas mais uma estupidez do tal Monark, que ganhou fama justamente por falar muitas idiotices.

O NSDAP (sigla em alemão do nome do partido nazista) não começou sendo maioria. Na verdade, começou bem pequeno. Ao contrário do que muitos pensam, Hitler não fundou o NSDAP. Quando ele ingressou no partido, em janeiro de 1920, sua carteira tinha o número 555. Na verdade, ele foi o 55º filado, mas a contagem das carteiras começava em 501, para fazer o partido parecer maior.

É bom lembrar também que, mesmo no auge do NSDAP, o número de filiados deste partido nunca ultrapassou 9% da população alemã. Foi essa minoria, determinada e barulhenta, que dominou o país, conduziu-o à guerra e causou 60 milhões de mortes na II Guerra Mundial.

Então, a “argumentação” do Monark é completamente falaciosa. Nazistas não oferecem risco quando são maioria. Eles oferecem risco porque suas ideias de “superioridade racial” são nocivas. A própria comparação entre Nazismo e Comunismo é intelectualmente desonesta para quem conhece a história dessas duas ideologias em profundidade. O Comunismo teve suas distorções e elas, inegavelmente, causaram dor e sofrimento para muitas pessoas. Mas isso não muda o fato de que o Comunismo foi concebido como uma forma de gerar uma sociedade sem classes e sem injustiças sociais. Um bom propósito que sofreu distorções. Muito parecido com o Cristianismo, que começa como uma filosofia de paz e amor e acaba produzindo a Inquisição, com fogueiras e torturas. Se considerarem banir o Comunismo por suas distorções, proporei também o banimento do Cristianismo!

O Nazismo, por outro lado, já surgiu como uma filosofia de superioridade de uma raça sobre as demais. Uma filosofia usada por seus adeptos para justificar a destruição em massa ou a escravização das raças não-arianas. Não se trata de uma distorção nociva, mas de uma ideia nociva do princípio ao fim.

Liberar a existência de um partido nazista é o mesmo que tratar como normais e viáveis as ideias de destruição do povo judeu e de escravização do povo eslavo. Como fazer isso sem jogar nossa sociedade na selvageria legalizada?

Liberar a existência de um partido nazista é normalizar o ódio contra os judeus, institucionalizá-lo, garantir a esse ódio direito de expressão no Congresso Nacional, através de deputados que contariam com a prerrogativa da imunidade parlamentar. Quanto tempo demoraria para que começassem a propor leis de segregação racial? Pior ainda, quanto tempo levaria para que leis assim fossem aprovadas?

A fala do Monark baseia-se em uma liberdade de expressão ilimitada. Mas a liberdade de expressão é limitada! A nossa Constituição garante a liberdade de expressão, mas proíbe o uso do anonimato.

Isso acontece justamente para que cada um tenha de assumir a responsabilidade pelos pensamentos que expressa. Por isso o Código Penal prevê diversos crimes contra a honra, ou seja, crimes que alguém pode praticar ao usar sua liberdade de expressão para ferir os direitos de outra pessoa.

O mais paradoxal no discurso de liberdade absoluta do Monark é que ele agora apresenta-se como vítima de um “linchamento”.

Em resumo, o mesmo sujeito que diz que os nazistas têm o direito de odiar os judeus e até mesmo que questionar o direito dos judeus existirem, agora não reconhece o direito das pessoas falarem mal dele! E olha que ninguém propôs o assassinato dele, como os nazistas propunham abertamente o assassinato de judeus.

Esse discurso é típico de filhinhos-do-papai-e-da-mamãe. Pessoas acostumadas a fazer tudo que querem, sem sofrerem nenhum tipo de consequência. A maioria desses “anarcocapitalistas” é exatamente assim. Quem não lembra do Paulo Kogos ameaçando o governador Dória e depois fazendo um vídeo de desculpas porque a mamãe tinha mandado ele se desculpar, já que a família dela e a do Dória são amigas?

Outro ponto curioso é que o Monark fez um vídeo de desculpas, alegando que estava bêbado quando fez as declarações de favorecimento ao nazismo. Acontece que embriaguez é um agravante para acidentes de trânsito, é um agravante para o cometimento de qualquer crime. Por que seria diferente com o crime de apologia ao nazismo, previsto em lei no Brasil?

Podemos concluir, sem medo de errar, que Monark é apenas um idiota que defende algo impossível, que ele mesmo não suporta. Ainda bem que sempre preferi bicicletas da Caloi!.

Vamos agora às reações!

Para começar, o Aliança para o Brasil, ex-futuro partido do Bolsonaro (aquele que ele tentou fundar mas não conseguiu porque a maioria de seus eleitores simplesmente não sabe assinar o nome) saiu em defesa do Monark, com essa declaração:

Observem o tom de normalização, de justificativa. Segundo eles, quem estudar história (provavelmente aquela ensinada pelo falecido Olavo de Carvalho) vai entender que o nazismo foi legal.

Alguma surpresa nisso? Se você acha estranho apoiadores do Bolsonaro defendendo o nazismo, assista a esses dois vídeos.

Repórter bolsonarista defendendo o extermínio de judeus como solução para a economia. Eleitor de Bolsonaro sugerindo que a educação brasileira tem de ser conduzida como a educação era conduzida na Alemanha de Hitler. Tudo perfeitamente de acordo com o que se espera.

Não foi Bolsonaro que, em cima de um carro de som na campanha de 2018, disse que as minorias tinham de curvar-se à maioria ou desaparecer? A frase certamente poderia ter sido dita por Adolf Hitler, porque foi isso que ele fez ao buscar exterminar minorias como judeus, ciganos, homossexuais e testemunhas de jeová.

Não foi Bolsonaro que, orgulhosamente, mentiu em uma entrevista para dizer que o avô havia sido nazista, quando o avô dele chegou ao Brasil ainda no século XIX, ou seja, bem antes do surgimento do nazismo? Eu já havia ouvido muita gente mentindo para negar qualquer ligação com o nazismo, mas para criar uma ligação falsa só mesmo o Bolsonaro!

Não foi Bolsonaro quem intercedeu a favor dos alunos de um colégio militar que, ainda nos anos 90, escolheram Adolf Hitler como patrono da turma? Não foi ele quem disse na ocasião que a juventude precisava de valores como os do nazismo?

Bolsonaro e seus seguidores são nazistas! Alguns tentam esconder isso o melhor que conseguem. Outros simplesmente abrem o jogo, como o Alvim.

Por todos esses fatores, não é nada estranho que o partido iniciado por Bolsonaro tenha assumido a postura de defender o Monark. Se o nazismo fosse legalizado, provavelmente o “Aliança para o Brasil” teria o nome de “Aliança para o Nazismo”.

Estranho, porém, é o fato do Rui Costa Pimenta, líder do PCO, sair em defesa do tal Monark e do Kim Kataguiri, que estava no mesmo programa em que o Monark defendeu a legalização do nazismo e até concordou com ele.

O PCO tornou-se um caso patológico nas esquerdas brasileiras. Para um partido que se apresenta como revolucionário de extrema-esquerda, nos últimos anos as suas pautas têm-se aproximado demais das pautas da extrema-direita.

No começo da pandemia os bolsonaristas iam até a página do PCO para elogiar o fato deles combaterem as máscaras e o isolamento social. O PCO também dedica muitas postagens em sua página a defender o jogador Neymar, que eles consideram um “injustiçado”. E agora o PCO aparece, na pessoa do seu líder, defendendo as declarações pró-nazismo de Monark e Kataguiri.

Dei a esse fenômeno o nome de “Efeito Ouroboros”. Para quem não lembra, Ouroboros é a serpente engolindo a própria cauda que os alquimistas usavam como um de seus símbolos.

Ouroboros é, para mim, um símbolo da eterna atração dos extremos. O PCO foi tão para a esquerda que acabou encontrando o pessoal da extrema-direita.

De resto, só nos resta dizer que só há uma postura eticamente correta quando se trata de lidar com nazistas.

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