(Este artigo é uma continuação deste outro aqui.)

Depois de ter explicado no artigo anterior por que os monstros mais populares da atualidade são os zumbis, gostaria hoje de falar sobre um outro ponto que atraiu a minha atenção em séries como “The Walking Dead” e seu spin-off “Fear the Walking Dead”: o imenso potencial destrutivo dos humanos vivos!

Quando comecei, por sugestão do meu cunhado, a acompanhar a série “The Walking Dead”, em 2012, a minha primeira impressão era a de que o policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) e sua turma seriam os heróis da série. Jogados de um lado para o outro na tentativa de achar um local seguro, parecia-me que eles representariam o que havia de melhor na humanidade, segundo aquela ideia de que nos momentos de crise conseguimos nos superar.

Quanta ilusão!

O desenrolar da série mostrou-me um Rick extremamente arrogante. Só ele podia ser o líder de qualquer lugar em que chegassem. Se não fosse o líder, conspirava para depor a liderança e chegava até mesmo a comprometer o lugar para assumir o controle.

Rick Grimes certamente tinha um problema com autoridade. Ou melhor, com a autoridade dos outros, já que ele tentava ser a autoridade máxima onde quer que estivessem. E esse nem é o único problema.

Em um mundo onde a população humana foi sistematicamente reduzida, era de se esperar que descobrir outros seres humanos fosse, para cada grupo, um motivo de alegria. Essa, entretanto, não é a realidade. Quando dois grupos se encontram, a primeira reação é destruírem-se mutuamente.

Não, eu não sou nenhum inocente. Sei muito bem que, em condições de recursos limitados, é bem natural que haja competição. Mas é de se esperar que, mesmo em condições extremas, alguém pense em não destruir potenciais talentos no grupo oposto. Ou em unir forças contra o inimigo comum, os zumbis.

Se você parar para pensar, os zumbis comportam-se bem melhor que os humanos em “The Walking Dead”. Para começar, zumbis não atacam zumbis. Até mesmo os humanos vivos conseguem transitar entre os zumbis quando se sujam com sangue e entranhas, passando a parecer com eles. Entre os humanos vivos, não há nenhum recurso assim que os impeça de matarem uns aos outros sistematicamente.

Rick e sua turma são especialistas nisso. Acham uma cidade murada e segura, controlada por uma mulher. Rick logo quer controlar o lugar e o resultado é a invasão do lugar por zumbis, inviabilizando seu uso por humanos.

Depois aparece o “Governador”, que estava construindo uma cidade segura. Seus métodos podiam não ser os mais simpáticos, mas em situações extremas é natural que as pessoas adotem soluções extremas. Novamente a turma do Rick Grimes aparece e os dois grupos entram em conflito, resultando a coisa na inviabilidade da prisão que a turma do Rick ocupava e também da cidade do “Governador”. Sem falar em mais e mais humanos mortos! Se os zumbis não conseguiram exterminar a humanidade, certamente os humanos remanescentes fazem um excelente trabalho nesse sentido durante toda a série.

Particularmente fascinante é o personagem Negan (Jeffrey Dean Morgan), sempre acompanhado de sua amiga Lucille, um bastão de baseball enrolado com arame farpado que ele usa sem pena quando precisa reforçar sua autoridade.

Novamente temos alguém que usa métodos violentos e pouco ortodoxos para atingir seus objetivos. Negan é um valentão que estabelece uma espécie de sistema de proteção e extorsão. Um verdadeiro miliciano pós-apocalíptico. Não sei se o Bolsonaro assistiu “The Walking Dead”, mas se assistiu, tenho certeza de que Negan era o personagem predileto dele.

Curiosamente, eu também gosto do Negan!

Ao contrário de Rick Grimes e do “Governador”, que procuram manter fachadas respeitáveis, procuram fingir que são boas pessoas, Negan assume abertamente seu mau caráter e até o aperfeiçoa com uma fachada sarcástica constante.

Negan é, possivelmente, o personagem mais bem resolvido psicanaliticamente de “The Walking Dead”, se pensarmos no que dizem por aí da Psicanálise: Que o principal objetivo dela não é consertar os maus comportamentos humanos, mas sim fazer com que as pessoas não sofram combatendo ou reprimindo esses maus comportamentos.

Dias atrás resolvi, por puro tédio, assistir ao spin-off “Fear the Walking Dead”. Mais uma vez, o maior problema do mundo pós-apocalíptico não são os zumbis, mas os humanos vivos, exatamente como na série principal.

Depois de muito refletir, cheguei à conclusão que se um apocalipse zumbi um dia acontecer, estarei do lado dos zumbis.

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1 comentário

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  1. Interessante demais trazer uma série da netflix e fazer uma analogia com a psicanálise, me faz ter interesse em estudar sobre o assunto. Eu não assisti a série, mas concordo que o ser humano é mais destrutivo que os zumbis, aliás, acho que podemos trazer isso pra nossa realidade, e não só para um mundo pós-apocalíptico, pois, o ser humano já é, de fato, a nossa ruína. Inclusive, isso me faz lembrar do que Thomas Hobbes disse, que “o homem é o lobo do homem” ou seja, o homem é o maior inimigo do homem e essa série só enfatiza isso. No entanto, confesso que é triste saber que o protagonista, que deveria ser um herói, é na verdade só um homem ambioso pelo poder , e isso me faz pensar que nós, muitas vezes, nos deixamos ser enganados por pessoas que aparentam ser heróis, mas na verdade, elas são egoístas, egocêntricas..
    Digo isso, porque conheço muita gente que ama o protagonista de “The Walking Dead”, e se não fosse por esse artigo, eu também acreditaria que ele é um herói..