Puritana, putana! Este sintético provérbio italiano é certamente um exagero. Nem toda puritana é, secretamente, uma puta. Seria mais justo dizer que só cerca de 99% são assim. Provavelmente existem puritanas que são pessoas de comportamento realmente ilibado, muito embora eu nunca tenha conhecido uma assim em meus 54 anos.

A verdade, porém, é que o puritanismo voltou à moda com força total nos últimos tempos, na esteira da onda de conservadorismo que trouxe de volta, de uns anos para cá, a extrema-direita de Trump e Bolsonaro.

É por saber disso que fiquei surpreso, mas não muito, ao ler esta notícia ontem.

https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/mulher-alvo-de-ataques-nas-redes-por-usar-macaquinho-fitness-para-levar-filho-escola-25384034.html

Eu, particularmente, acharia legal se ela transferisse o filho para a mesma escola do meu filho!

Sim, é isso mesmo. Uma mulher foi levar seu filho à escola usando um “macaquinho”, ou seja, um traje curto, com pernas e costas à mostra. Até aí nada demais. No entanto, uma mãe filmou-a retirando o filho do automóvel e espalhou a filmagem nas redes sociais. Outras mães, indignadas, ou fingindo indignação, resolveram fazer ataques à mãe em questão pela internet. Quando as ameaças e xingamentos não se mostraram suficientes, algumas passaram a exigir que a escola expulsasse a criança dela, para que ela não circulasse mais por lá com seus trajes sumários.

Se o lamentável incidente não tivesse acontecido em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, eu certamente gostaria que o filho dessa jovem fosse transferido para a escola do meu filho. Não seria nada desagradável avistá-la, com esses trajes, ao menos duas vezes por dia. E eu, mesmo sendo casado, posso dizer isso abertamente. Minha esposa lerá este artigo antes mesmo de ser publicado, já que ela sempre revisa meus artigos para mim, assim como eu reviso os dela. Mas nós não somos puritanos!

Quando andamos pela praia (e nós moramos em uma das praias mais cobiçadas do Brasil, Bombinhas, em Santa Catarina…) costumamos mostrar um ao outro as pessoas bonitas que vemos por lá. Ela me mostra as mulheres bonitas que ela vê, enquanto eu mostro a ela os homens bonitos que eu vejo. E isso não abala o nosso casamento, de modo algum. Estamos casados há dez anos e eu devo dizer que nunca fui fiel a mulher nenhuma por tanto tempo, somente a ela. E creio que ela pode dizer o mesmo em relação a mim também.

Não, nós não aderimos à onda de moralismo em nossa casa. E não aderimos justamente porque sabemos distinguir moralismo de moralidade. Vejamos a definição de cada uma dessas coisas.

Moralidade é um conjunto de princípios individuais ou coletivos. Tem a ver com o bem, com o bom convívio social.

Moralismo, por sua vez, é a ação de manifestar, através das palavras e/ou ações, uma preocupação demasiada com questões de teor moral, geralmente mostrando juízo de valor ou preconceito para com os demais.

Moralidade é julgar, pelos seus princípios, se uma coisa é certa ou não PARA VOCÊ! Moralidade não tem nada a ver com os outros. Não é uma maneira de julgar a vida alheia, mas a sua própria vida.

Moralismo é outra coisa, completamente diferente. Moralismo é invadir a vida alheia com os seus valores, proferindo julgamentos de valor que não são pertinentes,

Moralidade tem a ver com aquilo que te incomoda pessoalmente. Eu não roubo nada de ninguém porque, se o fizesse, legitimaria com a minha atitude a ação de tirar a propriedade de outra pessoa, conquistada com muito esforço. E, uma vez legitimada essa atitude, alguém poderia tomar a minha propriedade, coisa que eu não quero que aconteça!

Moralismo, por sua vez, é preocupar-se com coisas na vida dos outros que não te afetam em nada. Uma pessoa que não é gay não tem razão para julgar se o casamento gay é algo bom ou mau, já que ela própria não terá de viver um casamento gay e o casamento gay dos outros não a afetará de forma alguma.

Em resumo, podemos dizer que:

Moralidade é julgar a sua própria vida e as coisas que a afetam diretamente. Moralismo é julgar a vida dos outros em coisas que não te dizem respeito.

Sabendo disso, podemos nos perguntar: Por que cargas d’água alguém optaria pelo moralismo?

A resposta mais simples é que o moralismo serve para que elas chamem tanta atenção para a vida dos outros, chegando ao ponto de esquecerem das irregularidades de suas próprias vidas ou, melhor ainda, de desviarem a atenção das pessoas próximas para essas irregularidades.

Um marido que esteja tendo um caso pode contar para a esposa sobre os casos dos colegas dele, fingindo sentir repulsa por eles. Com isso ele convence a esposa de sua fidelidade. Sua atitude, no entanto, segundo Lacan, tem um efeito colateral interessante.

Ao condenar, diante da esposa, os casos extraconjugais de seus amigos, ele atribui aos casos dos outros um valor moral negativo. E fazendo esse julgamento moral, ele passa a sentir-se como uma pessoa correta, mesmo sabendo que ele próprio está tendo um caso! É a grande força do imaginário que, segundo Lacan, é muito mais concreto do que o real.

Partindo dessa análise, é natural que quanto mais imoral for uma pessoa, mais ela seja adepta do moralismo. Quanto menos vergonha na cara uma pessoa tiver, mais essa pessoa apresentar-se-á como pura e perfeita. E fará isso justamente condenando a vida dos outros, enquanto sua própria vida permanece mergulhada na podridão.

É por isso, por exemplo, que Bolsonaro e seus filhos acusam Lula de ser ladrão. Porque enquanto as pessoas estiverem pensando sobre Lula, não verão as rachadinhas, as ligações com as milícias ou os 39 kgs de cocaína transportados no avião presidencial por um sargento que, com seu parco salário, jamais teria condições de adquirir tanta cocaína para revender.

É por isso, por exemplo, que a ministra da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves, está sempre tão preocupada em julgar as cores das roupas que meninos e meninas devem usar. Enquanto as pessoas estiverem debatendo sobre meninos que vestem rosa ou meninas que vestem azul, não terão tempo de perceber que Damares está tendo um caso com um homem casado. E quem diz isso é o Oswaldo Eustáquio, um blogueiro bolsonarista.

Também não perceberão que Damares mentiu descaradamente ao afirmar que era mestra em Direito da Família e em Direito Constitucional, somente para afirmar (quando pressionada pela mídia) que esses eram “mestrados bíblicos”… Embora nunca se tenha sabido que a Bíblia tem autorização do MEC para oferecer cursos de pós-graduação!

E os crentes dizem que o “pai da mentira” é o diabo…

Há inúmeros outros casos. Já falei em um artigo anterior sobre uma namorada crente que fazia sexo comigo em segredo, ao mesmo tempo em que criticava uma colega que havia sido vista “tirando um sarro”. Também comentei, em outro artigo, sobre um coronel bolsonarista, grande adepto do moralismo, que foi pego em flagrante estuprando uma menina de dois anos em seu carro.

No mesmo artigo comento sobre outro adepto do moralismo, que acusou Haddad de espalhar o kit gay para corromper a juventude, e que foi classificado pelo FBI como um dos maiores distribuidores de pornografia infantil do mundo.

São muitos casos mesmo! Eu poderia passar o resto do dia aqui enumerando-os e não acabaria, embora a sua paciência para ler sobre tanta sujeira certamente fosse acabar.

Eu poderia até arriscar aqui um palpite. É bem provável que essa senhora que filmou a moça do “macaquinho” tenha ficado preocupada não com a moral da escola, mas com o fato de que seu amante pudesse ver a moça e ficar interessado… Talvez até tivesse ciúme do marido e do amante ao mesmo tempo!

A verdade é que o moralismo é um disfarce. Uma forma de apresentar ao mundo uma face que é diametralmente oposta à face real do moralista.

Puritana, putana!

Quando se trata de fazer massas e ditados bem sintéticos, os italianos são realmente imbatíveis.

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2 comentários

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  1. Muito interessante este texto, desde a forma de trabalhar os conceitos e relacioná-los com a realidade posta.

  2. A inveja é o câncer das pessoas!!
    Atingem inocentes sem pensarem nas consequências e ainda querem ter razões pra tal atrocidades.