Aqui em casa gostamos muito de filmes. Sobretudo filmes de terror. Mas minha esposa não gosta de filmes de zumbis e isto tem-se tornado, nos últimos tempos, um grande problema.

Sim, porque “terror”, na última década ou pouco mais, tornou-se sinônimo de “zumbis”. Muitos atribuem isso ao sucesso da série “The Walking Dead”, de 2010, mas eu discordo de forma veemente. O sucesso da série não é causa, mas consequência.

Como atento observador do mundo, e acreditando que a arte imita a vida, e vice versa, elaborei uma teoria para explicar porque os monstros contemporâneos são zumbis, ou seja, humanos que morrem e voltam à vida com fome de carne humana.

Os monstros dos filmes de terror acompanham os medos que nós humanos temos em cada geração. Ainda nos tempos do cinema mudo, no começo do século XX, quatro monstros dominavam o imaginário popular, cada um com sua própria interpretação psicanalítica.

A MÚMIA

Com a descoberta da tumba do faraó Tutancâmon, feita pelo arqueólogo britânico Howard Carter em novembro de 1922, as múmias ganharam notoriedade que nunca haviam tido antes. Lord George Herbert, 5º conde de Carnavon, que havia sido o financiador das pesquisas de Carter, morreu de uma febre misteriosa, apenas cinco meses após a descoberta do túmulo. Depois dele, vários dos exploradores que participaram da descoberta também morreram de formas não completamente explicáveis. Esses fatos deram origem às lendas sobre uma suposta maldição do faraó, trazendo as múmias para o espectro dos monstros.

Naquele início do século XX, quando carros velozes (para a época) começavam a circular nas ruas e aviões começavam a encher os céus, algumas pessoas sentiam imenso orgulho dos avanços tecnológicos que estava sendo conquistados. Nesse contexto, as múmias passaram a representar também o medo do antigo, o medo do velho. Observo também, misturado com isso, um certo medo do “sagrado”, que contrastava com o então tão valorizado “científico”.

O MONSTRO DE FRANKENSTEIN

Nem todos, entretanto, são favoráveis ao progresso. Há sempre os tais conservadores, que veem em qualquer avanço científico ou moral uma ameaça para a sociedade. E para estes o cinema do início do século XX trouxe o monstro de Frankenstein, baseado na obra de Mary Shelley.

Frankenstein não é o nome do monstro, mas de seu criador, um médico obcecado com a ideia de usar a tecnologia da época para gerar vida em laboratório. E por essa descrição já podemos entender o motivo pelo qual o monstro que ele criou passou para o imaginário popular como uma ameaça.

O monstro de Frankenstein representava, para começar, a heresia de um homem que quer roubar para si a prerrogativa divina de criar a vida. Além disso, representava a tecnologia gerando uma criatura perigosa e ameaçadora para a humanidade.

O VAMPIRO

O vampiro, que mordia o pescoço das virgens para alimentar-se de seu sangue, representa outra ameaça contra uma sociedade conservadora: a luxúria!

O vampiro visitava as jovens em seu leito. Era capaz de seduzi-la e encantá-las com o olhar, para então alimentar-se do sangue delas. E, uma vez mortas, renasciam como vampiras e passavam a ser suas “noivas”. No “Drácula”, de Bram Stoker, o conde da Transilvânia tem três mulheres morando em seu castelo, vivendo maritalmente com ele sem os “sagrados laços do matrimônio”, sem as bênçãos da igreja. Praticamente uma heresia. Ainda hoje a ideia de “poliamor” escandaliza, então podemos imaginar o efeito disso no final do século XIX e começo do século XX, quando os vampiros confrontavam mais que as cruzes. Confrontavam a moralidade vitoriana.

Os vampiros continuaram afrontando a moralidade com a escritora Anne Rice, que publicou em 1976 o primeiro livro das suas crônicas vampirescas, “Entrevista com o vampiro”, levado ao cinema em 1994 com um elenco de belezas masculinas que encenavam uma história permeada de homossexualidade.

Quem assistiu ao filme certamente lembra da cena em que o vampiro Armand (Antonio Banderas) tenta convencer o vampiro Louis (Brad Pitt) a largar tudo e vir com ele como companheiro.

Estendendo um pouco mais a análise dos vampiros, é bom lembrar que originalmente o alimento deles é o sangue das mulheres, em uma clara alusão ao sangue menstrual, que é um tabu social relacionado com a sexualidade e com a reprodução.

LOBISOMEM

O quarto monstro dos tempos do cinema mudo era o lobisomem, um ser humano que se transforma em monstro quando a lua está cheia, passando a matar como uma fera selvagem. Aqui temos um claro conflito entre a racionalidade e a natureza selvagem, que residem conjuntamente em cada um de nós. O lobisomem reflete uma perspectiva realmente freudiana: o conflito entre o ID selvagem e o EGO humano. Foucault também discute, em seu “História da Loucura na Era Clássica”, como o ser humano animaliza-se em condições extremas.

A influência da lua na transformação do lobisomem também é significativa, do ponto de vista psicanalítico. Trata-se de um retorno à natureza de uma sociedade industrial, uma sociedade tecnológica. Novamente vemos aqui o mesmo conflito entre o novo e o antigo que já havíamos visto na análise da múmia.

Depois que Orson Welles, em 1938, apavorou os Estados Unidos com sua transmissão radiofônica de “A Guerra dos Mundos”, na qual narrava uma invasão do planeta por alienígenas, os monstros passaram a ser, durante algum tempo, de outro planeta.

Nos anos 50 tivemos uma epidemia de monstros deformados pela radiação. Insetos gigantes, como a formiga da foto, refletiam o medo da mais nova ameaça à humanidade, revelada nos covardes e desnecessários ataques dos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki.

Por que, então, os monstros de nossa era são zumbis, ou seja, humanos mortos que devoram humanos vivos?

Para entender isso precisamos compreender antes como os monstros de antigamente foram “absorvidos” pela nossa sociedade, racionalizados, sanitizados.

Os vampiros e lobisomens de “Crepúsculo” (2008) continuam bonitos, mas perderam seus elementos de sedução sexual e agora até se guardam para o casamento, em uma visão bastante cristã para seres supostamente amaldiçoados. Eles não representam mais a força vital que usava o sexo para roubar a vida. Não são mais objetos de temor, mas apenas de desejo. Não são temidos, mas cobiçados. Ao ponto do meu amigo Maurício Ricardo ter feito, com sua banda “Os Seminovos”, uma música satirizando a franquia “Crepúsculo”, na qual um pai tenta convencer sua filha de que ela não poderia achar um vampiro lindo para se casar.

Em seu livro “Tudo que é sólido desmancha no ar”, o filósofo Marshall Berman relata a decepção da pós-modernidade com a Ciência. Depois que os progressos científicos foram mais usados para a guerra do que para produzir e distribuir riqueza, a Ciência perdeu parte da sua credibilidade. Frankenstein não seria hoje nenhuma surpresa, considerando que as pessoas já acham natural que todo avanço científico traga problemas, traga novos riscos.

As múmias foram dissecadas e passaram por tomografias por ressonância magnética. A decifração da Pedra de Rosetta e a descoberta de mais exemplo de escrita egípcia, revelaram os rituais de mumificação e seus objetivos. Os mistérios das múmias foram acabando com o passar do tempo.

“Eu fui um lobisomem adolescente”

As transformações dos lobisomens passaram a ser vistas, no cinema, como metáforas para as transformações bastante naturais da adolescência.

Extraterrestres agora têm até fã clubes! Misturados com as múmias pelos teóricos dos antigos astronautas, como Erich von Däniken e Giorgio A. Tsoukalos, eles agora são populares. Não há mais como ter medo de ETs depois que o filme de 1982 nos apresentou um extraterrestre simpático, bonzinho, ecológico e amigo das crianças. Ou depois que a Record nos apresentou algo tão ridículo quanto o ET Bilu…

Todos os monstros foram destruídos, descaracterizados, sanitizados e absorvidos pela sociedade consumista.

Em 1968, ano em que nasceu este que vos escreve, que hoje completa seu 54º aniversário, apareceu a primeira versão de “A noite dos mortos vivos”, o único filme de zumbis que minha esposa gostou realmente.

De lá para cá os zumbis cresceram cada vez mais em participação no mercado dos monstros, até dominá-lo completamente de 2008 para cá, com “The Walking Dead” e seus spin-offs.

A explicação para isso é simples. Em 1968 a guerra do Vietnã estava em seu auge. A história do massacre da aldeia de My Lai havia chegado aos Estados Unidos. Os manifestantes pediam punição para o tenente William Calley que, junto com sua tropa, massacrou uma aldeia inteira de velhos, mulheres e crianças vietnamitas. Calley, condenado à prisão perpétua, foi perdoado por Richard Nixon depois de cumprir apenas três anos e meio de prisão domiciliar.

Policiais e membros Guarda Nacional atiravam nos estudantes nas universidades South Carolina State (3 mortos, 27 feridos), Kent State (4 mortos, 9 feridos), Jackson State (2 mortos, 12 feridos) e Southern University (2 mortos, 2 feridos). Atiravam porque esses estudantes estavam protestando contra a Guerra do Vietnã, que todos os dias fazia com que jovens chegassem ao país em sacos plásticos, não para defender a democracia, mas para defender o Índice Dow Jones da bolsa de valores.

Na pátria do cinema, as pessoas que dormiam e acordavam esperando um ataque nuclear soviético, começavam a entender que os inimigos não vinham do espaço como os ETs, não vinham de outras eras como vampiros e múmias, não eram animais selvagens como os lobisomens e muito menos seres gerados pela tecnologia como o monstro de Frankenstein.

Os inimigos da humanidade eram os próprios seres humanos!

Avancemos um pouco no tempo e passemos dos remotos anos 60 do século XX para os dias atuais.

Será que a situação melhorou?

Não, de modo algum.

As mudanças sociais que conduzem às mudanças drásticas nas relações de produção, e ao fim previsto dos empregos, estimularam a competitividade. Aceitamos como natural a psicopatia da maioria dos CEOs, desde que tragam lucros. Aceitamos como natural que a cultura corporativa esteja permeada por violência, abusos e traições. Na escassez, trabalhadores tiram o pão de outros trabalhadores para poderem manter seus empregos. Literalmente, roem a carne uns dos outros.

Não é por acaso, portanto, que nossos monstros somos nós mesmos. Nós os representamos como mortos que querem comer nossa carne porque a verdade é que estamos todos um pouco mortos hoje em dia.

(Este artigo continua amanhã…)

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