Quatro da madrugada, como sempre, acordei. Levei meu notebook para a varanda do meu quarto, de onde gosto de ver o sol nascer todos os dias. Como sempre, vou direto à página de notícias para saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo. E lá descubro sobre a morte de Olavo de Carvalho.

Poucas pessoas no mundo me causaram tanta repulsa quanto Olavo de Carvalho. Nem mesmo Jair Bolsonaro, a quem dedico enorme asco. Até porque, Jair Bolsonaro nunca seria possível sem Olavo de Carvalho. Se existiu um responsável direto pela estupidez que levou as pessoas a votarem em Bolsonaro, este foi Olavo de Carvalho.

Olavo de Carvalho ensinou a toda uma geração que ignorância é melhor que conhecimento. Apesar de ter escrito um livro intitulado “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, as “aulas” de Olavo de Carvalho eram verdadeiras usinas de moer cérebros. Uma escola de formar idiotas.

Olavo acreditava que, mesmo sem nunca ter ultrapassado a sexta série primária, sabia mais sobre tudo do que qualquer pessoa. Ele era um caso de estudo clássico para a Efeito Dunning-Kruger, ou seja, um idiota que acredita que sabe mais do que as pessoas que estudaram, justamente por ser um idiota.

As teses de Olavo sobre Filosofia fariam corar os filósofos de quem ele falava. Inverteu toda a lógica Kantiana enquanto dizia ser o maior especialista em Kant no mundo inteiro. Sobre Isaac Newton, dizia que as descobertas dele sobre a gravitação universal tinham como único objetivo destruir a Igreja Católica. Quem diria! A gravidade, segundo Olavo, era coisa do diabo! E muitos davam atenção a um estúpido deste nível.

Em outra de suas “aulas” ele dizia que Einstein estava errado em sua Relatividade Geral, porque ele (Olavo) simplesmente não podia conceber a curvatura do espaço-tempo. Em suma, para Olavo de Carvalho a ciência deveria orientar-se não por teses verificadas por experimentos rigorosos, mas pelas limitações mentais dele. É o que eu chamo de “subjetividade dominante”, uma das mais marcantes características da estupidez que reina em nossos tempos. É com base nela que tantos idiotas alegam que a Terra é plana, afirmando que eles não conseguem perceber a curvatura da Terra.

Sobre a Terra, por sinal, Olavo afirmava que não existiam provas de que era plana ou esferoide. Uma declaração que prova a extensão de sua ignorância, já que as provas em favor da Terra esferoide datam de milhares de anos. Já se vão mais de 2300 anos desde que Eratóstenes calculou, com notável precisão, o raio da Terra, mas Olavo via o mundo pelos olhos de sua própria ignorância.

Astrólogo e muçulmano no passado, Olavo de Carvalho passou os últimos anos de sua vida alegando ser um católico conservador, um desses ultra-católicos que negam a autoridade do Papa Francisco, a quem Olavo chamava abertamente de comunista.

Apesar de dizer-se mais sábio que todos e apresentar-se como “o melhor filósofo de todos os tempos”, Olavo de Carvalho optou por nunca levar seus supostos conhecimentos para a validação na Academia. Como qualquer pessoa, Olavo poderia apresentar suas teses para tentar obter uma Livre Docência, ou seja, o reconhecimento da Academia de que era pessoa de notório saber.

A opção dele não foi por acaso. Ele escolheu desprezar a Academia porque sabia que suas falácias e idiotices jamais passariam pelo crivo acadêmico. Suas mentiras seriam desmentidas e desmontadas pelo primeiro intelectual de verdade com quem debatesse.

Por isso mesmo Olavo não debatia com ninguém que, mesmo remotamente, discordasse dele. Diante dos desafios que recebia para confrontar ideias, Olavo simplesmente xingava e colocava apelidos para ridicularizar as pessoas. Essa era a grande especialidade dele. Sempre que um intelectual de verdade questionava suas afirmações, Olavo colocava um apelido nele e o ridicularizava diante de seus estudantes, que saíam acreditando que Olavo era um gênio, sem perceber a verdade: Ele fugia dos debates!

Eu mesmo convidei Olavo para debater publicamente diversas vezes. Enviei para ele minhas considerações sobre as teses dele, em tom polido e acadêmico. Incapaz de responder-me, Olavo bloqueou-me no Twitter depois de xingar-me.

Eu não guardo ressentimentos. Não pelos xingamentos. Reconheço que essa é a única linguagem que ele tinha condições de compreender com seus parcos conhecimentos e sua cultura artificial, que só convencia as pessoas sem estudo, as pessoas frustradas por não terem conseguido uma vida acadêmica por incapacidade ou preguiça. Olavo e seus seguidores são, em relação à Academia, representações vivas da raposa da fábula de La Fontaine. São não podiam ter as uvas que cobiçavam, classificam-nas como verdes.

Guardo ressentimento, sim, porque Olavo fez muito mal ao Brasil. Convenceu toda uma geração de que o ad hominem é um argumento válido. Empurrou nas mentes idiotizadas pelo BBB e pelo sertanejo universitário noções falsas sobre o Comunismo. Combateu a verdadeira Filosofia e a verdadeira Ciência com suas teses ignorantes e sem fundamentação. Ajudou a formar o “mito” Bolsonaro, convencendo milhões de pessoas de que ser grosseiro e vulgar era sintoma de honestidade e sinceridade.

Não, não há perdão para Olavo de Carvalho. Diante da morte dele, quase desejei que toda essa patuscada sobre inferno fosse verdadeira, para que ele pudesse queimar lá por toda a eternidade. Mas sou inteligente demais para acreditar nessas besteiras e não quero descer ao nível do Olavo.

Para mim basta que ele não exista mais. E que seja gradualmente esquecido, não tendo mais a oportunidade de falar suas besteiras para as gerações futuras. O dano que ele fez, está feito. Já temos muitos olavetes estupidificados circulando por aí, mas esses também partirão no devido tempo.

Diante da morte de Olavo de Carvalho, só fica em mim um medo bobo. O medo de que haja um apocalipse zumbi e ele volte para comer cérebros. Mas depois eu lembro que Olavo de Carvalho não precisaria morrer para isso, porque ele já devorava cérebros mesmo quando estava vivo.

Vá em paz, Olavo… e não volte!

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1 comentário

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  1. Nada a acrescentar. Parabéns! Deve ter sido difícil conter uma hostilidade mais contundente à “eminência parda” que se foi para qualquer gsaláxia (??). Não desejo o Mal para ninguén, mas o silêncio de Olavo será muito mais didático do que suas absurdas digressões. Abraços, Prof. Reinaldo Müller.