Na noite de 11 de maio de 1960, uma equipe da Mossad, agência israelense de inteligência, dirigiu-se à Rua Garibaldi, no bairro industrial de San Fernando, 20 km ao norte do centro de Buenos Aires. Lá eles conseguiram atrair para fora de casa e capturar um senhor magro e alto, de 54 anos, que lá vivia sob o nome de Ricardo Klement.

Ricardo Klement era, na verdade, Adolf Eichmann, um Oberstrumbannführer (Tenente Coronel) das SS, que durante a II Guerra Mundial havia sido nomeado pelo Obergruppenführer (Tenente General) Reinhard Heydrich (o Açougueiro de Praga) para a função de Chefe do Amt II do Gabinete Central de Segurança do Reich (RSHA), responsável pelas questões econômicas.

Adolf Eichmann foi identificado graças aos esforços de um judeu chamado Simon Wiesenthal, um sobrevivente de campo de concentração que resolveu dedicar sua vida a localizar criminosos de guerra nazistas. Ao saber da identificação positiva de Eichmann, o primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion deu instruções ao comandante da Mossad, general Isser Harel, para que capturasse Eichmann e o trouxesse para Israel para ser julgado por seus crimes. A decisão de Ben-Gurion deveu-se ao fato da Argentina recusar sempre a extradição de criminosos nazistas.

Isser Harel, um comandante dos velhos tempos, daqueles que lutavam lado a lado com seus subordinados, veio pessoalmente à Argentina para supervisionar a operação de captura de Adolf Eichmann.

Uma pergunta deve estar na sua mente: Por que um chefe-de Estado arriscaria um incidente diplomático e mandaria um dos seus principais chefes de espionagem pessoalmente para capturar um homem de meia idade que dirigia na guerra um escritório de administração econômica e nunca esteve em combate ou sequer passou perto de um campo de concentração em toda a sua vida?

Para entender isso é preciso compreender que o Holocausto não foi apenas uma operação de “limpeza racial”, como os nazistas queriam que o povo alemão acreditasse. Na verdade, o Holocausto foi uma das maiores operações de ROUBO da história.

O roubo começou antes dos campos de concentração. Os judeus foram privados de suas profissões ao serem proibidos de exercê-las. Depois suas casas e propriedades foram confiscadas. Depois, quando começaram os transportes para os campos, foram roubados em tudo que tinham guardado em dinheiro, joias e outros bens. Ao chegarem nos campos, suas malas e roupas eram roubadas e eles tinham de vestir os uniformes regulamentares, não tendo mais nada de seu. Aquelas pessoas morreram sem direito a uma foto dos entes queridos, uma memória de suas famílias.

A coisa, entretanto, não parava por aí. Os cabelos dos judeus, que eram raspados quando eles chegavam nos campos, passava a servir de estofamento para as botas dos soldados alemães que lutavam na gelada Frente Russa. Enquanto vivos, seus corpos eram usados em experiências médicas diversas. E quando seus cadáveres eram retirados das câmaras de gás, seus dentes de ouro eram arrancados antes que os corpos fossem atirados em valas com cal para se decomporem sem mau cheiro. Durante algum tempo os nazistas chegaram a tentar usar a gordura dos corpos mortos para fabricar óleo e sabão, mas a tentativa foi um fracasso, já que não dá para extrair muita gordura de pessoas que foram deixadas morrer de fome lentamente nos campos de concentração.

Toda a contabilidade desse imenso latrocínio, roubo seguido de morte, era feita pelo Amt II do RSHA, chefiado por Adolf Eichmann. Era esse órgão que contabilizava cada centavo roubado das vidas de seis milhões e meio de judeus, para não mencionar também os eslavos, os poloneses, os russos, os ciganos e outros grupos cuja existência incomodava Hitler e sua gang de criminosos.

Se tivesse sido apenas uma “limpeza étnica”, já teria sido suficientemente ruim. Mas do jeito que foi, o Holocausto foi motivado também pela ganância. O Reich, a partir de um certo momento, fundamentou sua economia no roubo praticado contra suas vítimas.

Falar em economia no Brasil de hoje nos leva, inevitavelmente, a pensar no “Posto Ipiranga” de Bolsonaro, o economista Paulo Guedes.

Paulo Guedes explica: “Por ter um bilau pequeno, deste tamanho, é que eu quero me vingar e foder todo o povo brasileiro.”

Guedes fez sua fama como economista no Chile de Augusto Pinochet. E se, após sua passagem por lá, só havia gente falando bem de seus talentos como economista, isso se devia menos aos seus talentos do que ao hábito de Pinochet de mandar jogar nas geladas águas do Pacífico Sul, a partir de helicópteros, todos os que criticavam seu governo. Morta a oposição, só sobravam aqueles que elogiavam, fosse por medo ou concordância, os “Chicago Boys” que Pinochet contratou para reformar a economia chilena.

Foi com o que pilhou do Chile que Paulo Guedes tornou-se banqueiro no Brasil. E foi justamente ele, acostumado a ser economista de ditador, que Bolsonaro chamou para comandar a economia brasileira.

Ou melhor… Talvez tenha sido exatamente o contrário!

Foram as elites escravagistas do Brasil que convocaram Paulo Guedes para a tarefa de promover as reformas que eles julgavam necessárias para aumentar seus lucros. Assim como Hitler precisava de um economista sem sentimentos, como Eichmann, para contabilizar os lucros obtidos com a morte de milhões, as elites econômicas brasileiras precisavam de alguém que lhes possibilitasse ampliar seus lucros, mesmo às custas de vidas humanas. E quem melhor para isso do que alguém como Paulo Guedes, acostumado a ajustar economias matando pessoas em um regime ditatorial?

Claro que Paulo Guedes não teria condições de surgir do nada e ser eleito presidente. Ele não tem nem mesmo um vocabulário popular que permita uma comunicação direta com as massas!

Então as elites acharam Jair Bolsonaro. Campeão de votos que já acumulava sete mandatos como deputado federal. Sempre reeleito, mesmo sem jamais ter feito qualquer coisa de útil pelo Brasil ou pelo estado que o elegeu, o Rio de Janeiro, Bolsonaro tinha o que faltava a Guedes, ou seja, uma forma de comunicar-se com o povo de forma direta, de explorar os piores lados do povo brasileiro, como o medo e a violência, para conseguir votos.

De certa forma, foi Guedes quem colocou Bolsonaro na presidência.

Assisti, junto com minha esposa, à série de entrevistas que a Globo News fez, antes da eleição de 2018, com os economistas de cada um dos candidatos. Nós estranhamos imensamente a dinâmica diferenciada das entrevistas. Guilherme Mello, economista de Fernando Haddad (PT), mal conseguiu falar, crivado de perguntas pelos repórteres da bancada da Globo News. Enquanto isso, Paulo Guedes dominou a entrevista quando chegou sua vez. Miriam Leitão e Merval Pereira, que praticamente não deixaram Guilherme Mello responder, simplesmente calaram para que Paulo Guedes mentisse descaradamente sobre como reergueria o país com a venda do patrimônio público. Ele citava números e mais números que nunca se mostraram comprovados, mas eles calavam e deixavam que ele falasse.

Em março de 2020, quando começou a penetração da COVID-19 no Brasil, Bolsonaro dizia que só morreriam idosos e pessoas com comorbidades, ou seja, portadores de doenças crônicas. E ele dizia isso com tranquilidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se fosse até algo desejável. Quando via essas declarações de Bolsonaro, eu só conseguia pensar em Paulo Guedes fazendo as contas de quanto a Previdência Social economizaria com as mortes dessas pessoas. Afinal de contas, os filhos e filhas de civis mortos não herdam as pensões de seus pais de forma vitalícia, como acontece com as filhas “solteiras” dos nossos “valorosos e patrióticos” militares.

Quando Bolsonaro dizia que os hospitais de campanha eram caros demais, eu pensava nos relatórios do Amt II do RSHA, nos relatórios de Eichmann, que diziam ser mais barato exterminar os doentes mentais e paciente terminais do que construir novos hospitais para tratar dos soldados feridos em combate. Foi isso que Hitler fez através de um decreto no início da guerra.

Quando o Ministério da Saúde do desgoverno Bolsonaro enviou um médico com COVID-19 para examinar uma tribo indígena, eu pensei no Paulo Guedes contabilizando quanto o PIB brasileiro cresceria com o garimpo e a pecuária invadindo as reservas de indígenas exterminados pela pandemia.

Quando o desgoverno Bolsonaro se negava inicialmente a pagar o Auxílio Emergencial, e depois propunha apenas 200 reais, alegando que não tinha dinheiro para mais do que seis meses de auxílio, eu via ali a mão de Guedes querendo economizar. A mesma mão de Guedes que autorizou o Banco Central a liberar UM TRILHÃO E DUZENTOS BILHÕES para os bancos em março de 2020. Dinheiro o suficiente para pagar 24 meses de Auxílio Emergencial dado aos banqueiros, não aos pobres, com a anuência de Guedes, um banqueiro.

Sobretudo, quando Bolsonaro falava que as pessoas não podiam ficar em casa, mas tinham de sair e trabalhar para que a economia não parasse, eu não via essas palavras como um discurso de Bolsonaro, mas sim de um economista, mas sim de Paulo Guedes. Afinal de contas, Bolsonaro nunca havia sido muito amigo do trabalho mesmo.

Esse parece um homem preocupado com o trabalho???

Bolsonaro não tem intelecto para pensar nessas coisas sozinho. Foi seu patrão, Paulo Guedes (falando em nome de todos os banqueiros, grandes industriais, agropecuaristas, especuladores financeiros e todos os grandes exploradores do proletariado) quem colocou tudo isso na mente vazia do miliciano.

Eu quero muito ver Bolsonaro ser julgado em Haia por seus crimes contra a humanidade. Mas isso não me basta. Eu quero ver Paulo Guedes sentado ao lado dele no banco dos réus. Não podemos permitir que ele saia ileso depois ser corresponsável por setecentas mil mortes.

Quero finalizar falando um pouco sobre dois livros.

O primeiro é “Eichmann em Jerusalém”, de Hahhah Arendt, onde a autora discorre sobre o que ela chamou de “banalidade do mal”. Eichmann não matava, assinava papéis. Segundo ele próprio, nunca sacou uma arma, nunca matou ninguém. Mas os papéis que ele assinava determinavam políticas que mataram milhões. A maldade fica banalizada quando é reduzida a meros números e interesses econômicos. Mas isso não reduz em nada a natureza vil da maldade.

O segundo livro é “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini. O escritor fala nesse livro, baseado em sua própria vida, sobre a filosofia de vida de seu pai, que dizia que todo crime é um crime de roubo. Quando você assalta um homem, rouba sua propriedade. Quando o mata, rouba sua vida. Quando o humilha, rouba sua dignidade.

O que assistimos no Brasil, de 2019 para cá, é um imenso crime de roubo. Estamos sendo saqueados pelas elites econômicas e pela verdadeira pátria de homens como Guedes e Bolsonaro, os Estados Unidos da América do Norte.

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1 comentário

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  1. Prezado Edvaldo, terminei de ler o seu texto em lágrimas…
    Eu li esse lado vro da Hannah Arendt na versão traduzida e em francês para submeter-me a uma prova de Mestrado.
    Para mim, foi como um soco no estômago!
    E esse seu texto, de forma didática, descortina o panorama tétrico que vivemos no Brasil hoje, coadjuvado pela ignorância do povo. Triste, amigo, muito triste.