Algumas vezes me sinto como o personagem de Washington Irving, Rip van Winkle, que deita recostado em uma árvore durante uma caçada e acaba dormindo por cem anos, tendo de conviver com as mudanças do mundo ao seu redor quando acorda.

O problema é que eu não dormi por cem anos, mas a sociedade mudou completamente ao meu redor, ao ponto de não a reconhecer em absoluto em alguns momentos.

Há os aspectos tecnológicos, claro. Hoje eu ando com um celular no bolso, com dois chips de operadoras diferentes. Posso ligar para o Brasil e para o mundo com o toque de um dedo. Na minha infância, nos distantes anos 70 do século XX, eu tinha de pegar um saco daquelas fichas telefônicas de metal e sair procurando um orelhão que não tivesse sido depredado no Rio de Janeiro.

Eu, no entanto, não me surpreendo tanto com os avanços tecnológicos. Até porque a minha geração esperava muito mais do que o que temos hoje! A séries “Os Jetsons”, criada entre 1962 e 1963 (mais velha que eu, portanto, já que sou de 1968) previa que os humanos do século XXI teriam carros voadores, robôs inteligentes fazendo o trabalho doméstico e uma série de avanços tecnológicos que ainda não temos. Nós esperávamos mais do século XXI!

Agora mais de um quinto do século XXI já se passou e, ao contrário do esperado, os carros não voam, os robôs de serviços domésticos não são nada inteligentes.

Robô aspirador Xiaomi

As maravilhas tecnológicas dos Jetsons não chegaram. Por outro lado, um fenômeno muito desagradável aconteceu: a humanidade emburreceu!

Duvida da minha afirmação? Pois pesquise “terraplanismo” no Google! Eu fiz isso e esbarrei com 115.000 resultados. São apenas os que o Google achou em uma consulta rápida (0,37 segundos). E olha que eu pesquisei o termo em português. Se eu tivesse pesquisado em inglês, certamente acharia um número muito maior de referências.

Note o destaque em amarelo na imagem acima. Trata-se de um link para uma proposta legislativa sobre esse tema. Não resisti e fui lá ver do que se tratava. O que achei foi isso aqui:

Um tal de Elizeu Lamosa Prado, de São Paulo, realmente teve a coragem de ir no site do Congresso Nacional para dizer que as experiências estúpidas conduzidas por iletrados do Youtube devem servir de base para o reconhecimento do terraplanismo como um movimento cultural e que o terraplanismo deve ser ensinado nas escolas!

Não, eu não estou brincando. Aqui está o link para quem quiser consultar. Alguém realmente propôs isso. E, pior ainda, teve o apoio de 1.249 outras pessoas!

A quantidade aceitável de terraplanistas no mundo de hoje, é claro, é ZERO. Nós fazemos viagens espaciais. Nós fotografamos a Terra de fora da Terra. Nós estamos pensando em colonizar Marte. E, enquanto isso, tantas pessoas aqui na Terra acreditam que o Sistema Solar é assim…

Se o terraplanismo fosse o único sintoma de burrice, tudo bem… Seria absurdo, claro, mas é sempre esperável que uma parcela da população tenha problemas mentais e que parte desses problemas sejam na área cognitiva.

A questão é que não se trata só disso.

Os jornais! Ah, os jornais! Eu sempre amei ler os jornais. Desde criança esse era um momento especial no meu dia. Como minha família era muito pobre e não podia comprar jornais diariamente, eu caminhava todas as tardes até a biblioteca do bairro e lá lia pelo menos um jornal. Nos finais de semana eu lia muito mais, pois ia até a Biblioteca Nacional, no Centro do Rio, onde passava o dia lendo.

Hoje eu não tenho mais coragem de ler jornais. Aliás, não leio mais revistas também. São tantos os erros de gramática e ortografia que eu fico realmente irritado. Como essa matéria da Veja de ontem.

Quando foi que as pessoas que lidam com as palavras esqueceram como usar uma crase? Uma simples crase?! A Veja, uma das maiores revistas do país. Golpista, eu sei, mas ainda assim uma das maiores revistas do país. Será que eles não têm dinheiro para contratar revisores? Ou, se tem, quando foi que os revisores pararam de estudar a Língua Portuguesa?

Não são apenas erros de gramática ou ortografia. Dá uma olhada nisso.

Isso mesmo. O Correio Braziliense escreveu sobre a ida à Lua citando Louis Armstrong, quando quem foi à Lua foi Neil Armstrong.

Louis Armstrong, músico, e Neil Armstrong, astronauta

Quando foi que ficamos tão burros?

Ou será que o problema não é a burrice, mas a arrogância?

Sim, arrogância. Nada pode ser mais arrogante do que um terraplanista, por exemplo. Pessoas sem qualquer formação específica que resolvem postar vídeos absurdos como este em que uma pessoa tenta “provar” que a Terra é plana usando uma régua!!!

É a arrogância da ignorância. O sujeito não estudou o suficiente para entender o fenômeno da curvatura, mas ele julga que a experiência patética dele com a régua é mais importante do que séculos de estudo. Sim, séculos, porque qualquer dúvida sobre a esfericidade da Terra foi dissipada há cerca de 2.300 anos, quando Eratóstenes de Cirene mediu o raio da Terra com uma notável precisão, através de uma experiência fundamentada justamente no conceito de esfericidade.

Se eu tentar explicar isso a um terraplanista (e, acredite, eu já tentei…) ele dirá que eu estou errado e apresentará outro vídeo idiota do Youtube como “prova”. Se eu tentar argumentar que sou Mestre em Geometria Diferencial e, por conseguinte, compreendo melhor que ele o conceito de curvatura, serei acusado de “usar títulos para calar a ciência dele”.

Sim, porque a estupidez hoje em dia se protege do aprendizado alegando que tudo é democracia e que a opinião de um vale tanto quanto a opinião do outro. Mesmo quando um não passou da sexta série primária, como Olavo de Carvalho, e o outro é um Doutor em Matemática, como eu.

Há em nossa sociedade uma confusão notável entre os termos gregos episteme e doxa. Episteme é conhecimento produzido através de estudos e validado por pessoas daquela área, que se portam ceticamente com relação a tudo e avaliam cada nova tese com desconfiança e prudência. Doxa é crença, pura e simplesmente, ou seja, aquilo em que se acredita sem qualquer fundamento de pesquisa ou analise.

Há um vídeo do “filósofo” Olavo de Carvalho no Youtube em que ele questiona a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, alegando que ele, Olavo, “não consegue conceber a curvatura do espaço-tempo”. Observa-se nesse comentário, claramente, a arrogância que mencionei acima. A limitação mental de Olavo, que não conseguiu sair do que na época chamávamos de “ensino primário”, passa a ser o parâmetro usado por ele para tentar negar uma das mais testadas e comprovadas teorias científica do século XX.

Se o mundo tivesse evoluído como eu pensava lá nos anos 70 que evoluiria, pessoas como Olavo de Carvalho e os terraplanistas seriam meras curiosidades acadêmicas. Estariam em instituições para doentes mentais, sendo estudadas por profissionais competentes, na tentativa de entender como suas mentes foram distorcidas ao ponto de acreditarem nas coisas que acreditam. No caso particular do Olavo de Carvalho, que apresenta a si mesmo como “o maior filósofo de todos os tempos”, haveria também uma junta de psiquiatras, psicólogos e psicanalistas estudando o que afirmo ser um dos maiores casos de megalomania de todos os tempos.

Por trás disso tudo, porém, estão a estupidez e a ignorância. Essas pessoas encontram audiência justamente por causa desses fatores. Os terraplanistas cinquentões de hoje são aqueles meus contemporâneos de escola que só gostavam de jogar bola e que riam de mim por preferir estudar.

É por causa da estupidez e da ignorância que temos tantos negacionistas da ciência; que temos tantas pessoas morrendo para não tomar vacinas; que temos pessoas acreditando na honestidade e no patriotismo de um deputado corrupto e inútil que acabou eleito presidente em 2018.

Quando foi que nossa sociedade humana ficou tão burra? Vivo a perguntar-me isso ultimamente. E o fato de fazer a mim mesmo essa pergunta é talvez um sintoma de que não escapei ileso do processo de emburrecimento. Porque tudo estava lá, o tempo todo, diante dos meus olhos. Eu deveria ter percebido o que estava acontecendo.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando a música brasileira de qualidade foi substituída pelo “pseudo-sertanejo” de Chitaozinho e Chororó e, posteriormente, pelo “sertanejo universitário”.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando notei a proliferação das igrejinhas de garagem e o enriquecimento monstruoso de impérios da fé como o de Edir Macedo e Waldemiro Santiago.

Eu deveria ter percebido o processo de emburrecimento coletivo quando notei que minha própria mãe, que na juventude lia muito e se comunicava bem em três idiomas, passou a escrever errado nas mensagens que me mandava pelo Whatsapp.

Não há desculpa. Eu também fiquei burro, pelo jeito. Ou simplesmente recusei-me a enxergar um fenômeno tão óbvio por razões psicológicas. Mas o simples fato de estar aqui, junto com você, fazendo esse questionamento, já me dá alguma esperança. Talvez nós, que estamos aqui refletindo juntos, ainda não estejamos tão burros. Talvez possamos reconstruir juntos uma sociedade humana pensante e inteligente.

Quando se atravessa o Atlântico voando, existe o que se chama de “ponto de não-retorno”. É quando o combustível restante no avião não basta mais para voltar ao aeroporto de origem e tudo que resta é seguir voando em frente.

Não, ainda não é o fim do mundo. Mas se não fizermos algo urgentemente, logo ultrapassaremos o ponto de não-retorno da civilização e tudo que nos restará será seguir em frente, em direção à barbárie.

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2 comentários

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  1. Texto perfeito.
    Enviei a um amigo e ele me devolveu o link abaixo:
    https://youtu.be/uLs14UBJ5yw

    Café Filosófico com a Psicanalista Maria Rita Kehl – Identidade e Ressentimentos.

    Seu texto e a análise dela se completam.

    Espero que goste.