Um amigo veio pedir-me um conselho. Sempre que isso acontece, e acontece com mais frequência do que seria de se esperar, eu fico surpreso por alguém achar que eu tenho como aconselhar. Justo eu que penso tanto sobre minha própria vida e tenho tanto trabalho para administrá-la…

O problema do meu amigo é que a filha, de dezoito anos, arranjou um namoradinho meio “vagabundo”. Desses rapazes de hoje em dia, que acham legal vestir as calças de modo que as cuecas fiquem aparecendo. Meu amigo é muito rigoroso na educação dos filhos. É religioso, protestante, apegado aos “tradicionais valores cristãos”. A filha de dezoito anos nunca havia tido um namorado. Pelo menos na cabeça dele, claro.

Aí a moça chegou em casa com esse rapaz e meu amigo teve uma antipatia natural por ele. Confesso que eu também tenho um forte preconceito contra esses jovens que andam com as cuecas à mostra. Coisa de época, penso eu. Sou do tempo em que as cuecas eram roupas íntimas, que não eram exibidas por aí. Mas compreendo que os tempos mudam. As roupas que eu mesmo uso hoje em dia, seriam consideradas escandalosas no começo do século XX.

Bom, o rapaz foi lá pedir para sair com a moça. Meu amigo o interrogou e descobriu que o rapaz não tinha habilitação, embora estivesse dirigindo. Imediatamente impediu a saída e, depois de conversar com a filha, restringiu fortemente os horários dos dois se encontrarem. Até a virada do ano, claro…

Aí a moça pediu para “dar uma passada” na casa da família do namorado. Ele permitiu, mas estabeleceu o horário de retorno. Então, cansado do trabalho diário, foi dormir cedo. Acordou por volta das quatro da madrugada com a voz da esposa ao telefone. A filha não havia chegado. A mãe ligou para saber dela, preocupada, e foi informada de que a filha havia bebido muito e estava “apagada”. Meu amigo tomou o telefone das mãos da mulher e disse que estava indo, furioso, buscar a filha. Cruzou com o carro do rapaz no caminho. Arrancou a filha de lá ainda adormecida e disse ao rapaz que nunca mais pisasse na porta dele.

Agora a filha está tristonha pelos cantos, amuada, porque quer continuar o namoro e ele não permite. Ele me perguntou o que deveria fazer. A minha resposta, creio eu, não o deixou muito feliz. E é pouco provável que ele siga meu conselho. Mas foi o conselho mais útil no qual consegui pensar.

“Passa em uma farmácia, compra um pacote grande de camisinhas, senta com a sua filha e entrega para ela. Diz a ela que ela é adulta, tem 18 anos, e é livre para viver a vida dela. Mas pede que ela tente evitar uma gravidez indesejada, ou uma doença, e que termine os estudos dela antes de assumir qualquer compromisso. Explica para ela os riscos de estar em um carro com uma pessoa não habilitada, ou de beber muito em um local cheio de estranhos, mas deixa claro que ela é adulta e tem de aprender a fazer as próprias escolhas. Depois disso, não esquenta mais com a vida dela.”

Essa “tradicional moral cristã” já arruinou vidas demais. Tudo que eu quis fazer foi impedir que estragasse mais algumas.

Porque as pessoas fazem sexo. Isso é absolutamente normal. Ninguém vai impedir jovens de fazerem sexo. Mas quando a “tradicional moral cristã” se mete nesses assuntos, logo as pessoas começam a fazer tudo às escondidas, o que torna o sexo ainda mais gostoso. Mais gostoso, mais rebelde e, consequentemente, mais irresponsável. Aí sim aparecem os problemas. Doenças venéreas. Gravidez indesejada.

Isso sem falar nos casamentos prematuros. Gente que se casa aos dezesseis, dezessete, dezoito anos, porque o casamento acaba sendo a única forma legalizada de saciar os desejos sexuais absolutamente naturais sem sentir culpa e com o apoio da família. Não conheço exatamente as estatísticas, mas acho quase impossível um casamento assim dar certo.

Casamentos de pessoas muito jovens são comuns demais no meio protestante. Acontecem justamente porque há uma passagem na Bíblia que diz que “é melhor casar do que abrasar”, ou seja, melhor casar do que arder nas chamas do desejo.

Que grande porcaria!

Claro que é melhor arder nas chamas do desejo! E viver a juventude plenamente, ardendo de desejo por uma pessoa nesse mês, por outra no mês seguinte. Vivendo, praticando, experimentando. Para então, diante da maturidade futura, tomar uma decisão firme sobre laços mais permanentes, como o casamento ou filhos. Mas a “tradicional moral cristã” não permite isso.

Permite fazer o sinal de arminha. Permite pedir a pena de morte para quem rouba celulares. Permite apoiar torturadores. Permite ir para ruas apoiar um presidente incompetente e cruel, que quer destruir vidas de adultos e crianças. Mas sexo não. Sexo é proibido!

Esse foco no moralismo sexual é, no meu entender, uma maneira de desviar a atenção para as falhas éticas da moralidade cristã. Jesus fez ZERO pregações sobre moralidade sexual, mas fez muitas contra a hipocrisia. Consta, inclusive, que protegeu uma mulher que havia violado as leis morais do Judaísmo e cometido adultério, impedindo que a multidão a apedrejasse. E ele fez isso dizendo que quem não tivesse pecado era quem devia atirar a primeira pedra.

Curiosamente, ninguém atirou pedra alguma. Todos ali eram igualmente “pecadores”. Todos ali haviam violado a lei de alguma forma. Mas todos estavam, instantes antes, decididos a tirar a vida de uma mulher por moralismo sexual.

Considerando que tudo isso tenha mesmo acontecido, é preciso entender que ele salvou a mulher justamente expondo a hipocrisia daquelas pessoas. Alguém precisa aparecer hoje para fazer o mesmo nas igrejas cristãs, sejam elas protestantes ou católicas.

Porque esse meu amigo anda comigo pela cidade frequentemente. E sempre o observo a olhar as moças bonitas, especialmente aquelas turistas de biquini que passeiam por nossas ruas no verão. Muitas delas da idade da filha dele. Mas ele é um moralista, um cristão que exige que a filha se comporte dentro dos “tradicionais valores cristãos”. Em suma, um hipócrita, exatamente como eram hipócritas, há dois mil anos, os que queriam apedrejar a mulher adúltera.

Pais devem educar seus filhos para a segurança sexual, ou seja, ensinar a eles que devem tomar precauções para evitar doenças e evitar uma gravidez indesejável. E pronto! Daí por diante é problema deles.

Porque é problema deles, quer você queira ou não! Não existe, nem nunca existiu, uma maneira de impedir a atividade sexual de jovens cheios de hormônios e de curiosidade.

Você pode iludir-se achando que sua filha é uma santinha e que seu filho precisa de orientação sexual. Mas a verdade é que, se eles já passaram dos quinze anos, talvez você tenha menos conhecimento sobre o assunto que eles.

O título deste artigo foi extraído daquela que é, na minha opinião, a melhor música de Erasmo Carlos: “Filho único”.

Não é justo tentar parir os destinos dos filhos. Mas não é injusto apenas para com eles. É injusto para com os pais também!

Primeiro porque é uma tarefa com fracasso garantido. Você não vai conseguir determinar o futuro dos seus filhos. Eu não conseguirei determinar o futuro do meu filho Dionysio, que agora tem sete anos. Tudo que posso fazer é educá-lo bem, mostrar a ele os problemas da vida, orientá-lo sobre como fazer as melhores escolhas possíveis. E deixá-lo viver… até para que eu possa aproveitar meus últimos anos de vida com minha esposa em relativa tranquilidade.

Se nós tentarmos viver a vida do Dionysio para ele, nossa velhice será um inferno. Os valores que nos orientaram para as escolhas que fizemos estão ultrapassados. Serviram para nós, no mundo em que vivíamos na nossa juventude. Não servem nem para nós mesmos hoje em dia, esta é a verdade.

Dionysio, assim como a filha do meu amigo, terá de aprender por conta própria a viver. Tera de cometer seus próprios erros, saborear seus próprios acertos, viver sua própria vida.

Meu amigo quer viver a vida da filha. Por isso ele está sofrendo. Por isso ela está sofrendo. Talvez até o rapaz das cuecas à mostra esteja sofrendo, se ele realmente estiver interessado na moça e não apenas em mais uma trepadinha. E tudo isso porque meu amigo quer viver, nos dias de hoje, segundo um moralismo sexual ultrapassado, definido por uma religião com dois mil anos de existência e completamente fracassada.

Sim, fracassada. O Cristianismo é uma religião fracassada. Propunha-se a melhorar as pessoas, preparando-as para o “reino de deus”, mas só conseguiu gerar guerras religiosas. Pretendia consolar os pobres e os que sofrem, mas só conseguiu gerar Vaticanos riquíssimos e pastores bilionários.

Essa religião fracassada só pode produzir pessoas fracassadas. Exceto os pastores, é claro. E o Papa, os cardeais e bispos. O Cristianismo certamente faz muito bem para estes, mas não para a filha do meu amigo. Não para a família dele, certamente.

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2 comentários

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  1. Ed, eu não havia tido a sorte de encontrar teu blog antes. Por sorte, as energias do universo me colocaram em contato contigo, sorte a minha digo. Pela primeira vez na minha vida vejo alguém traduzindo em palavras os meus pensamentos. E digo em todos as palavras abordadas, tanto sobre a liberdade sexual quanto o efeito cancerígeno da religião na sociedade, impactando cada indivíduo vivendo sob o peso do julgamento pseudo-cristão. A sociedade ocidental é uma das piores culturas que há hoje no planeta, valores estabelecidos pelos dogmas cristãos impostos há mais de 2 mil anos. Se, como vc escreve, os teus valores já não se enquadram para os jovens atuais, como podemos inferir que os valores de 2022 anos atrás são os que devem moldar a sociedade? Os dogmas empurrados goela abaixo, vc querendo ou não, vc sendo cristão ou não, podem determinar um comportamento social? Se ficarmos apenas nas 8 principais religiões do planeta ( https://super.abril.com.br/coluna/superlistas/as-8-maiores-religioes-do-mundo/amp/) por quê achar que o cristianismo é o correto, e o diferente queima no fogo do inferno? Há religiões muito mais antigas que cristianismo, o Deus deles é filho de Satanás? O budismo não tenta moldar o comportamento de seus seguidores, apenas orienta que nossa missão é a evolução espiritual e ajuda ao próximo, até o islamismo tem suas belezas, não o islamismo terrorista que os EUA vende ao mundo, mas aquele que desconhecemos.
    Mas, no meu ponto de vista, a religião em sua essência é o maior câncer da sociedade. Ela prega, desenvolve e nutre o ódio da sociedade, pois tudo que difere do que ela prega, tem de ser combatido e exterminado. Sofri 44a até aceitar que minha homossexualidade não escolhida, mas ganhada ao nascer, não me diminuía perante outros homens cis, heterossexuais e brancos, ao contrário disso, me engrandece. Vivi uma vida excluído da sociedade com marcas profundas dentro de mim que quase me levaram ao suicídio. É porque alguém imbecil em algum momento decidiu que um suposto Jesus filho de um suposto Deus cristão pregara que isso não era de Deus. Mas a coisa vai muito além disso. O mundo evoluirá quando a sociedade deixar de se preocupar com o loló alheio, quando parar de se preocupar com pecado alheio do aborto, do adultério, de qualquer pecado moral e começar a se preocupar se seu vizinho está emocionalmente bem, se seus amigos e entorno estão precisando de algum socorro, ajuda financeira, emocional ou apenas um ouvido para escutar suas mazelas. Eu sei que não viverei para ver este mundo, mas sei que morrerei lutando para fazer parte desta transformação. Deus é sublime, cristianismo apresenta uma faceta de Deus, assim como cada outra religião apresenta outra faceta. Deus é maior do que todas elas, Deus talvez seja um campo energético ainda desconhecido pela humanidade, que equaliza todos os outros campos energéticos já conhecidos. E ele está presente dentro de cada um, não em templos e igrejas de pessoas safadas, abusadores, pilantras que extorquem os menos abastados ou abusam das crianças daqueles que confiaram nos homens que se dizem representantes de Deus e agem como emissários do coisa ruim, essa tal hipocrisia que vc brilhantemente aponta.
    Fico por aqui, agradeço imensamente por ter começado meu dia com seu texto e me levanto mais um dia com o propósito de me deitar sendo melhor do que o André que se levantou hoje. Vamos procurar alguém para ajudar hoje e elevar meu desenvolvimento humano. Grande abraço e parabéns pelo blog

  2. Excelente. Eu sou anti-religiões e a educação com as amarras religiosas e uma afronta contra a informação certa, prevenção e liberdade.