Agradeço a todos que mostraram preocupação depois do meu artigo anterior. Estou bem melhor agora. Tanto que já retornei totalmente às minhas atividades profissionais. E foi justamente no exercício destas que encontrei o assunto para este artigo.

Conversava ontem com colegas de um projeto, quando um deles soltou a seguinte frase: “Ah, eu não defendo Bolsonaro não, mas tomar vacinas sem saber o que tem nelas é ruim, não é?”

Tenho lido e ouvido frases assim por todos os lados. No Quora, no LinkedIn, no Facebook, no Twitter… em todas as redes sociais que frequento, tenho observado gente que diz que não apoia o Bolsonaro, mas logo em seguida começa a defender as ideias idiotas dele com afinco.

No início eu pensei que se tratava apenas de mais uma estratégia covarde. Afinal de contas, Bolsonaro fica cada dia mais indefensável para quem tem o mínimo de decência. Então, pensei eu, os bolsonaristas estão fazendo isso como uma forma de defesa indireta, ou seja, dizem que não defendem o próprio Bolsonaro, mas defendem as ideias que ele propaga, o que acaba dando no mesmo.

Depois eu percebi que o fenômeno é outro. Não se trata, pelo menos para a maioria, de uma estratégia indireta para defender o Bolsonaro, mas sim de algo muito maior: O BOLSONARISMO TRANSCENDEU BOLSONARO!

Sim, é isso mesmo. O bolsonarismo tornou-se maior que aquele que o criou. Bolsonaro ficou para trás e suas irritações constantes no “cercadinho” mostram que nem ele suporta mais os níveis de estupidez que o bolsonarismo atingiu.

A situação dele assemelha-se agora com o caso do Dr. Victor Frankenstein, vítima do monstro que ele mesmo criou. Muitos bolsonaristas agora atacam Bolsonaro, simplesmente pelo fato de que ele não conseguir fazer todas as coisas estúpidas que esperam dele.

O bolsonarismo, ao contrário do que pensam muitos, não é um movimento político. Trata-se, sim, da primeira revolta formal dos ignorantes e estúpidos no Brasil. Estes compreenderam finalmente que são a maioria e querem o poder. E como são ignorantes, querem o poder total, não aceitam oposição e rejeitam qualquer coisa que questione sua idiotice, mesmo que tangencialmente.

O bolsonarista padrão é aquele sujeito que, há vinte, trinta anos, orgulhava-se de não estudar. Dizia que o importante era ganhar dinheiro e ridicularizava intelectuais. O bolsonarista é aquele que desprezava os professores porque estes ganhavam pouco, sem entender que os professores eram a única chance para que ele fosse um pouco menos estúpido.

É por isso que hoje um bolsonarista questiona o conteúdo das vacinas, como esse colega de projeto. Ele reflete todo um ciclo de estupidez, já que se concentrou em assuntos técnicos (ao ponto de tornar-se um desenvolvedor de software) mas fugiu de qualquer formação ampla. Era um daqueles que dizia “Para que tenho de estudar química ou biologia se não vou ser químico nem biólogo?”

Agora, completamente ignorante em termos de química e biologia, ele usa sua própria estupidez nessas duas áreas como argumento para rejeitar as vacinas, alegando que não quer usá-las porque não sabe o que há dentro delas.

Eu sei que posso parecer arrogante com minha atitude usual nesses casos: Eu humilho sem dó nem piedade os bolsonaristas em sua estupidez!

Foi exatamente o que fiz com esse colega de projeto que disse que seria ruim tomar vacinas sem saber o que elas contêm. Perguntei a ele se poderia me dizer qual era a fórmula do ácido acetilsalicílico ou desenhar a molécula desse ácido. Ele, é claro, respondeu que não sabia nem o que era aquilo. Respondeu com aquela risadinha de lado que caracteriza plenamente os ignorantes arrogantes, aqueles que se orgulham de sua própria estupidez. Então perguntei se ele já havia tomado aspirina na vida e ele disse que sim, que obviamente já havia tomado aspirina. Então expliquei que ácido acetilsalicílico era aspirina e que ele havia tomado a vida inteira esse medicamento sem saber o que havia nele. O mesmo se dava com vacinas. E que ele, por sinal, não teria nem mesmo condições intelectuais para compreender o processo de criação de uma vacina, ou mesmo de ler a bula se uma fosse esfregada na cara dele.

Sim, eu sei que sou grosseiro. Mas trata-se de uma questão de linguagem. Essas pessoas simplesmente não conseguem entender outra linguagem que não seja a da grosseria. Se estou no centro de Berlin e quero ter certeza que uma pessoa com quem vou falar me compreenda, tenho de usar o idioma alemão. Da mesma forma, se pretendo que um bolsonarista me entenda, tenho de usar a linguagem da grosseria e da estupidez, que é a única que eles entendem.

Um outro caso de grosseria assim, de minha parte, aconteceu com um conhecido aqui do bairro, que tem um mercadinho na rua paralela à minha. Cheguei lá para comprar alguns produtos, justamente no dia em que o (des)Governo Bolsonaro cortou 92% das verbas da pesquisa científica no Brasil. O dono do mercadinho estava conversando com amigos bolsonaristas e vibrando. Segundo ele a pesquisa científica era algo inútil, “coisa de comunistas”, e as universidades eram apenas lugares para fumar maconha e fazer orgias.

Lá pelo começo do milênio, quando eu estava na casa dos trinta, eu teria dado um murro nele sem hesitar. Sofro de uma aversão total e irrestrita à ignorância.

Hoje em dia, mais calmo (ou apenas mais consciente de que brigar é um esforço acima das minhas capacidades), preferi recorrer à velha e boa humilhação. Perguntei a ele que universidade ele havia frequentado. Então ele, na frente dos amigos, teve de dizer que nunca havia entrado em uma universidade. Então expliquei que eu já sabia disso, porque conversava com ele constantemente e observava o quanto ele falava errado, de modo que sabia que ele não tinha condições intelectuais para ter cursado uma faculdade, fosse ela qual fosse. Então expliquei, nos termos mais rudes que consegui lembrar, que além de nunca ter pisado em uma universidade, ele não tinha condições intelectuais para entender o que era pesquisa científica e muito menos para entender os resultados da pesquisa científica. Também não tinha vivência universitária para saber sobre maconha e orgias e que a bronca dele com as universidades era justamente pela incapacidade de entrar em uma delas.

Retirei-me, deixando-o calado, sem ter o que dizer. Sei que logo em seguida ele e os colegas retornaram para a estupidez habitual, mas isso não me importa. É importante humilhar a ignorância dessas pessoas, para que elas voltem a ter vergonha de expressar essa ignorância, como aconteceu por séculos.

Por séculos, milênios, ser estúpido era motivo de vergonha. As pessoas que nada sabiam tinham vergonha disso e, por conseguinte, ficavam caladas quando estavam perto de alguém com maior conhecimento.

Com o advento das redes sociais, os estúpidos passaram a conversar entre eles. Perceberam então que eram a maioria. E como maioria eles sentiram que tinham poder. Dentro dos regimes democráticos, a maioria pode praticamente tudo. Aqui no Brasil a maioria de estúpidos percebeu que podia eleger um deles para a presidência da república. E foi assim que surgiu Bolsonaro.

Então, não se iluda. Não é o bolsonarismo que é filho de Bolsonaro. Na verdade, é exatamente o oposto. Bolsonaro foi apenas a forma que as massas ignorantes e estúpidas encontraram para ter um representante delas governando o país. Bolsonaro é filho desse movimento revolucionário dos ignorantes e estúpidos. O movimento ganhou o nome de “bolsonarismo” apenas por um acaso histórico. Se não fosse Bolsonaro, eles teriam achado outro ignorante e estúpido para colocar na presidência.

É por isso que não basta lutar contra Bolsonaro. Temos de combater o bolsonarismo, ou seja, esse movimento de estupidez e ignorância que o colocou no poder.

É preciso colocar os ignorantes e estúpidos de volta nos seus lugares. É preciso calá-los. Não adianta nem falar que a educação pode curá-los, porque será impossível educá-los sem calá-los primeiro. Eles não conseguirão aprender nada fazendo o barulho que hoje fazem.

Para que tenham vontade de aprender, é mister que compreendam primeiro que a ignorância é ruim. E só compreenderão isso no momento em que a usarem e sentirem o peso da humilhação que lhes é imposta por serem como são.

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