É muito provável que vocês leiam poucos artigos meus nos próximos dias. Não escrevo nada desde a quinta-feira passada e sinto pouca vontade de fazê-lo. Aliás, sinto pouca vontade de fazer qualquer coisa nesses últimos dias. E o motivo para isso poucas pessoas são capazes de entender, especialmente as que me conhecem um pouco melhor. Eu, que pareço sempre tão alegre, tão animado, sempre brincando, sofro de ondas de depressão muito profundas, embora raras.

As pessoas que veem o Ed de Almeida sempre brincando, sempre fazendo uma piada, sempre com um sorriso nos lábios, dificilmente são capazes de imaginar como são as minhas fases depressivas. E isso acontece porque elas estão acostumadas a ver muito mais em mim a outra fase do meu transtorno, que é a fase preponderante, ou seja, a fase maníaca.

Pessoas como eu sofrem do que é normalmente qualificado como “transtorno maníaco-depressivo”. Isso quer dizer que nós alternamos duas fases diametralmente opostas, uma maníaca, outra depressiva.

Na fase maníaca, que é a preponderante em mim, eu sou sempre um poço de energia. A minha esposa costuma dizer que sou a única pessoa que ela conhece que acorda de madrugada (levanto-me diariamente por volta das quatro horas, quando ainda está escuro) com bom humor. Desde o começo do nosso casamento ela, que adora dormir, diz que não pode ser normal acordar cedo com tanta alegria. E só nos últimos anos ela tem compreendido um pouco melhor o quanto ela estava certa nessa primeira avaliação.

Porque aquela energia toda, que me faz pular da cama e lavar a louça do dia anterior cantando velhas canções hebraicas e italianas com as janelas abertas, é apenas uma parte do meu problema. É uma parte agradável na maioria das vezes, porque as pessoas costumam olhar apenas a superfície. E quem não observa as coisas em profundidade tem a impressão que ali está um homem profundamente feliz, cheio de energia. Um senhor de meia idade (54 anos dentro de poucos dias…) com a energia de um garoto, cheio de bom humor, cheio de alegria de viver.

Um profissional de saúde mental, no entanto, compreenderia a minha energia excepcional pelo que ela realmente é: a fase maníaca de um maníaco-depressivo!

A psicose maníaco-depressiva abrange uma gama de transtornos mentais, que vão dos brandos ao mais graves. Ela se caracteriza justamente pela alternância entre fases maníacas, nas quais a pessoa parece sempre animada e cheia de energia, e fases depressivas, nas quais a pessoa parece ter exaurido toda sua energia e não consegue nem mesmo realizar com algum ânimo as tarefas mais básicas do seu cotidiano. O transtorno mais famoso que é classificado como maníaco-depressivo é o chamado Transtorno Bipolar.

O Ed de Almeida em uma fase maníaca é capaz de realizar sozinho, facilmente, o trabalho de três pessoas, não importando se é trabalho físico ou mental. Para satisfazê-lo eu tenho uma oficina completa de carpintaria, monto e desmonto computadores, tenho uma bancada de eletrônica onde gasto parte da minha energia fazendo montagens com o microprocessador Arduíno. Além disso, sempre estou trabalhando em dois ou três projetos pessoais de programação. E escrevendo… E fazendo mais uma infinidade de coisas.

O Ed de Almeida em uma fase depressiva não consegue nem mesmo assistir um filme inteiro sem dormir. É como se um peso terrível caísse sobre mim e em minha cabeça a única solução para os problemas do mundo, do meu mundo, fosse permanecer dormindo o tempo todo.

Como as fases maníacas são as preponderantes em mim, chegando a durar meses sem interrupção, enquanto as fases depressivas aparecem e vão embora em poucos dias, as pessoas que não convivem comigo diariamente sempre me veem como uma pessoa excepcionalmente alegre, risonha e produtiva. O que elas não sabem mesmo é como eu fico nas fases depressivas.

Nestas fases é como se uma sombra tomasse conta de mim. Não há nada que possa me animar. Coisas alegres me parecem tristes. Coisas tristes me parecem insuportáveis. Cada sugestão de diversão é, para mim, como uma facada no coração. Cada tentativa de animar-me só me deixa mais apático ou irritado.

Durante a fase depressiva, cada novo pensamento é uma nova dor. Se eu penso estar vendo uma solução para animar-me, logo vem aquela sensação de que essa possibilidade é vazia, de que aquilo vai representar apenas uma nova decepção, uma nova irritação.

Com o passar dos anos eu aprendi a simular. Em certa medida consigo fingir que estou bem, mesmo durante as fases depressivas. Aprendi a fazer isso para não ter de aturar as pessoas chatas e sem compreensão que ficam tentando animar-me. Não que eu as culpe de alguma forma. Elas simplesmente não compreendem. Só dois tipos de pessoas podem compreender as minhas fases depressivas: as pessoas treinadas para isso, como profissionais de saúde mental, e as pessoas que sofrem do mesmo transtorno que eu.

Embora o processo algumas vezes ocorra sem que eu mesmo perceba, há quase sempre um gatilho que me atira de uma fase para a outra. Pode ser uma briga com minha esposa, um problema no trabalho, um incidente qualquer. Até mesmo uma notícia. Tenho lido cada vez menos os noticiários por isso. Especialmente depois que me tornei pai. Se eu vejo uma notícia sobre algo muito ruim que aconteceu com uma criança, sinto logo que o gatilho pode disparar.

Minhas fases depressivas são breves. Algumas duram poucas horas, outras poucos dias. Nunca mais do que isso. Felizmente, porque eu não sei o que aconteceria se fosse o oposto, ou seja, se elas fossem as fases predominantes.

Esta fase na qual estou já começa a mostrar que está indo embora. Durou um final de semana apenas e agora eu sei que, se evitar os gatilhos, posso passar mais alguns meses sendo o tiozão alegre. Já começo a olhar para a pilha de pratos da pia com vontade de ensaiar “O Sole Mio”, e isso é uma boa coisa. Ou não.

Porque o problema para o maníaco-depressivo é justamente o desequilíbrio entre as fases. Eu não seria tão depressivo se não fosse tão maníaco. Se não fossem os imensos dispêndios de energia nas fases maníacas, eu não ficaria tão “no fundo do poço” durante as fases depressivas. As pessoas ditas “normais” são justamente as que não oscilam tanto.

Seja como for, que venha logo mais uma longa e produtiva fase maníaca. Ficar depressivo é ruim demais.

Se você conhece alguém assim como eu, faça a si mesmo e a esta pessoa um grande favor: NÃO ENCHA O SACO QUANDO ELA ESTIVER DEPRESSIVA!

O rei francês Luis XIII era um maníaco-depressivo. Nas fases maníacas ele era um grande jogador, caçador e dançarino. Dava imensos bailes e até tinha uma oficina onde gastava seu tempo produzindo cofres e fechaduras complexas que presenteava aos amigos. Nas fases depressivas, costumava ficar por horas a olhar pelas janelas do palácio, sem dizer uma palavra. E quando lhe passava por perto um cortesão, chamava-o para perto de si, dizendo: “Vem, encosta-te aqui na janela comigo e nos entediemos juntos.”

A quem não tem como simplesmente ficar calado e entediar-se ao meu lado, sem encher o saco com conselhos, sempre peço que se retire. Não há nada mais irritante do que aqueles conselhos bondosos e mal informados do tipo “Anime-se!” ou “Ah, mas você é sempre tão alegre”.

Não é uma escolha. Eu jamais escolheria ficar depressivo. Ninguém escolheria, se pudesse evitar. Não é um botão que eu possa ligar e desligar quando me convém. Se fosse, acredite, eu optaria sempre pelas fases maníacas.

Ainda bem que na fase depressiva não temos energia para pular no pescoço de quem fica dizendo coisas assim…

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2 comentários

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  1. Olá, Ed! Fico feliz que sua fase maníaca dura mais… Meu ânimo é espetacular na fase maníaca, no meu caso a fase depressiva é preponderante, não encontro os tais gatilhos, claro que sinto que algo contribuiu para que eu escave o o poço, eu passo do fundo do poço… Perco a força física, o sorriso, meu corpo somente respira, não há sentido no banho, aliás não há sentido na vida… E eu sempre encontro muita justificativa no suicídio… É complicado viver esse transtorno… Hoje me sinto confortável em falar, já que li sobre vc, mas em geral eu me afasto das pessoas, ninguém dá muita falta mesmo… Pensam, ah.. A Anna tá emburrada, chata… Muito eu queria que ao menos perguntassem se estou melhor, eu tinha valor quando era disposta, alegre, expansiva… Se eu resolvesse falar sobre o que vivo numa rede social, temo me afogar de vez… Ninguém comentaria, acho que nem “curtiriam”… As pessoas se afastam das pessoas em tristeza. As vezes uma palavra de afeto, conforto, compreensão ou até mesmo de reconhecimento da sua presença fazem muita diferença, mudam o ânimo, dá importância. Desabafei contigo. Respiro melhor. Abraço!

  2. Tive minhas crises de depressão quando minha mãe foi embora, tinha a idade de 10 anos, lembro-me de sentar num banco na porta dos fundos e ao entardecer, vendo o sol se por, ou então olhava para céu nublado, neste exato momento uma tristeza invadia meu ser, pareceia que o vento trazia aos poucos. Bom já passou! Que bom que está melhor!