Amanheci com gripe ontem. Até aí tudo bem, porque ondas de gripe acontecem de tempos em tempos em todos os lugares. Mas nestes tempos de pandemia, parece que ficamos muito sensíveis e muito preocupados, de forma que a gripe (que nem está sendo assim tão forte…) me fez pensar na possibilidade de morrer!

Sim, eu sei que isso parece tolice para muitos. Outro dirão que é inútil e desgastante pensar na morte. Mas eu sempre achei que meditar sobre a presença constante dela como uma possibilidade em nossas vidas é algo reconfortante e que pode nos conduzir a tomar decisões melhores em nossas vidas.

A verdade, porém, é que a morte nos espreita a cada instante. Quando estou sentado aqui, nas madrugadas, escrevendo esses artigos, nunca sei se acabarei o que estou escrevendo. Pode ser que eu morra em uma pausa para pensar no parágrafo seguinte.

Acha que isso é exagero de minha parte? Não, não é. Não importa se você é alto ou baixo, magro ou gordo, negro ou branco, atleta como eu já fui ou ocioso como sou hoje. Cada um de nós pode morrer dentro de um instante, porque o único requisito para morrer é estar vivo.

Ela era jovem, apenas 32 anos. Era atleta. Morreu de infarto do miocárdio. Quem pode esperar uma coisa assim?

Porém, se você quiser aprender um truque para fazer com que pensar na sua própria morte seja algo positivo, leia este artigo até o fim.

Lá por volta do começo dos anos 80 eu assisti um filme na “Sessão Coruja”. Sempre tive o hábito de dormir pouco. Estes artigos que escrevo aqui, escrevo-os entre 4 e 6 da manhã, normalmente. Nesta madrugada em questão, estava estudando e vendo televisão quando me deparei com um filme intitulado “Billy Jack”. Assisti e gostei muito.

Só algum tempo depois eu descobri que se tratava do segundo filme de uma “quadrilogia” criada e produzida pelo ator estadunidense Tom Laughlin e por sua esposa, Delores Taylor. Tom morreu em 2013, Delores em 2018. Mas uma das filhas do casal, Teresa Kelly, uns poucos anos mais velha que eu, é ainda minha amiga no Facebook. Trocamos reminiscências sobre os filmes, dos quais ela participou ativamente.

Para os interessados deixarei aqui os links para os filmes da série. Não esperem produções hollywoodianas. Esperem apenas filmes feitos com amor, preocupação social e muita sabedoria.

É sobre o terceiro filme da série (“O julgamento do Billy Jack”, em português) que quero falar com você hoje. E prometo que tentarei evitar spoilers, caso alguém tenha interesse em assistir aos filmes, coisa que recomendo.

Em “O julgamento de Billy Jack”, o personagem central está sendo julgado por ter cometido três assassinatos. Plenamente justificados, no meu entender, mas ele está sendo julgado mesmo assim. E em determinado momento perguntam a ele se tem consciência de que pode ser condenado à morte. A resposta de Billy Jack a esta pergunta afetou imensamente minha vida, desde quando assisti ao filme.

Billy explica ao juiz que não tem medo de morrer. Que tem plena consciência de que um dia morrerá e que a morte está sempre por perto de cada um de nós, o tempo todo. E, segundo ele, este fato pode ser libertador.

Imagine, por exemplo, que você esteja diante de um desses problemas avassaladores que ocasionalmente atingem nossas vidas. Aí você pensa “Diante da perspectiva de que posso estar morto dentro de cinco minutos, será que esse problema é realmente tão grande assim? Se eu morresse agora, isso tudo estaria encerrado.”

E então você entende que nenhum problema é tão grande assim!

Por outro lado, suponha que você tem de escolher entre passar uma manhã brincando com seu filho ou sua filha, ou fazendo amor com seu companheiro ou companheira, ou então passar essas horas lidando com algo desagradável. Aí você pensa “Eu posso estar morto em cinco minutos. Então como eu gostaria de gastar meus últimos minutos? Lutando na rat-race cotidiana ou passando algum tempo agradável com alguém que eu amo?”

É assim que a coisa funciona. Se você for capaz de pensar em sua própria morte como uma realidade potencial para os próximos cinco minutos, aprenderá com isso a tomar as decisões corretas em sua vida.

Aqui em Bombinhas, onde moro, as coisas funcionam um pouco diferente do resto do mundo. A cidade tem pouco mais de vinte mil habitantes e praticamente todo mundo se conhece. Então quando os sintomas da gripe começaram, em lugar de ir no consultório, fui à casa do nosso médico.

Depois de um exame rápido e meia dúzia de perguntas ele disse que havia pouca chance de ser COVID-19. Disse que provavelmente era só uma “gripezinha” e que com meu passado de atleta, eu não teria problema nenhum. Eu, é claro, estremeci diante dessa declaração. Da última vez que ouvimos isso no Brasil, 620 mil pessoas morreram.

O médico, no entanto, convenceu-me que era mesmo apenas gripe. Mandou-me comprar Benegrip e repousar.

Saí de lá diretamente para a farmácia. Pedi Benegrip ao balconista e ele me trouxe isso aqui.

Minha primeira reação quando vi os comprimidos na cartelinha foi de pavor. Ando meio traumatizado com coisas verde-e-amarelas nos últimos anos. Tenho certeza de que você, que está lendo, entende o que quero dizer. Minha segunda reação foi perguntar ao balconista se não tinham uma versão vermelha, com uma foice e um martelo no meio. Se não tivesse, podia ser uma estrelinha do PT. Não tinham, infelizmente, nenhuma das duas.

Então o balconista, vendo que eu estava tossindo, sugeriu que eu levasse também essas pastilhas aqui.

Achei o nome meio agourento. Parece muito com “estrepe-se”. Talvez o balconista não tenha gostado da minha pergunta sobre uma versão vermelha com estrelinha do PT. Mas resolvi levar mesmo assim.

Agora eu estou medicado e espero não morrer com essa gripe. Mas sei que se acontecer, eu terei ao menos o consolo de ter tido uma vida plena. Em meus 53, quase 54 anos agora, vivi intensamente. Casei tarde, mas hoje tenho uma família que eu amo e que me ama. Uma esposa e um filho que estão sempre do meu lado, nas horas boas e más. Amo e sou amado. O que mais uma pessoa pode querer dessa vida?

Sim, meditando sobre a minha morte, sei que estou preparado para ela. Quero que ela demore, para aproveitar mais a companhia das pessoas amadas, mas se isso não acontecer, eu vivi. E vivi muito bem.

E você? Já aprendeu a encarar a morte como sua amiga? Já aprendeu a falar dela com humor, como eu faço?

Se você aprendeu tudo isso, parabéns! Você está preparado ou preparada!

Sobretudo, está livre do medo. Não será mais escravo de vendedores da salvação e poderá viver sua espiritualidade, ou não, do jeito que quiser.

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3 comentários

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  1. Acho que todas as pessoas temem a morte pelo simples fato de estarem sempre fazendo planos para o amanhã. Penso igual a você e sempre tento aproveitar o momento com as pessoas que eu amo, pois quando partir sei que aproveitei

  2. Gostei muito do seu blog e e exatamente o que penso . Porem sou idosa e tenho aversao a digitar a computador e por isso nao me manifestoporque mesmo com a idade nao me conformocomtanta ignorancia ,hipocrisia egocentrismovindo a tona nessa epoca atual Acho que nao veremos essa melhora.

  3. O medo da morte tem muito a ver com as religiões e as pessoas fazem questão de seguir algo imposto, que na verdade nunca existiu. Sendo assim, limitam às pessoas a pensarem e serem reais, evoluírem e entenderem melhor a vida.