Corria o ano de 1984. Este que vos escreve era um adolescente que, aos 16 anos, havia acabado de ingressar na UFRJ e dividia seu tempo em quatro partes: o estudo, o trabalho, as garotas e as passeatas em prol das Diretas Já.

Aqui no Brasil, não aguentávamos mais os militares no poder. O misto de corrupção e incompetência deles estava arrebentando o país. Aqueles como eu, que estavam ingressando no Ensino Superior, sentiam-se desmotivados com a perspectiva do desemprego futuro, em uma economia arrasada pela estupidez dos generais. Por isso íamos em massa para as ruas, para pedir a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que garantiria que a eleição que se aproximava não fosse mais feita por um Colégio Eleitoral, mas pelo voto direto da população.

Perdemos, mas lutamos o bom combate. E enquanto aqui no Brasil reuníamos um milhão de pessoas na Cinelândia para pedir “Diretas Já”, no país que se julga dono do mundo, uma crise econômica se aproximava.

Lee Iacocca (15/10/1924 – 02/07/2019)

O homem da foto é Lee Iacocca. Considerado um gênio da administração, ele foi o principal executivo da Ford por décadas. Até que, no início dos anos 80, um conflito de egos levou-o a brigar com Henry Ford III, o proprietário da empresa, sendo então demitido sumariamente. Lee Iacocca foi imediatamente contratado pela terceira maior montadora dos Estados Unidos, a Chrysler, que naquele tempo perdia apenas para a Ford e a General Motors.

A verdade, porém, é que Iacocca achou um verdadeiro caos instaurado na Chrysler. A empresa tinha bom faturamento, mas estava às portas da falência. Durante dois anos Iacocca fez tudo que sabia para tentar estabilizar a situação da empresa, mas nada funcionou. Em 1984 a Chrysler estava à beira da falência.

Antes de continuarmos, é bom entender um pouco do pensamento de Lee Iacocca, que era um liberal em economia. Quem quiser conhecer mais pode ler a autobiografia dele “Lee Iacocca: uma autobiografia”, lançada justamente no final daquele agitado ano de 1984.

Como todo liberal, ele tinha sempre o mesmo discurso: impostos baixos para as empresas, nenhuma intervenção estatal na economia e, sobretudo, Estado mínimo. Para os liberais, o Estado é sempre o maior problema. Ou melhor… quase sempre.

Acontece que os liberais têm um segredo. Eles só não gostam do Estado quando estão lucrando. Aí eles reclamam de qualquer interferência estatal em suas empresas. Mas quando estão no prejuízo, aí os liberais sempre aparecem com o pires na mão pedindo dinheiro público para salvar suas empresas. O mesmo dinheiro público que é fruto dos impostos que eles querem acabar.

Diante da iminente falência da Chrysler, foi exatamente isso que Lee Iacocca fez. Conseguiu uma audiência com o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, para pedir dinheiro.

É preciso que se diga que Ronald Reagan era um conservador nos costumes, mas defendia ferrenhamente uma economia liberal, ou seja, sem intervenção estatal. E como bom conservador, procurava sempre inverter as coisas, mudar os nomes para confundir as pessoas, como se vê nesse vídeo.

A empreitada de Lee Iacocca, portanto, parecia difícil. Para salvar a Chrysler da ruína ele tinha de convencer um presidente que falava o tempo todo em não-intervenção estatal na economia a colocar dinheiro público em uma empresa privada, coisa que até então nunca havia acontecido nos Estados Unidos. Pelo menos, não oficialmente como deveria ser dessa vez.

A operação, no entanto, deu certo! Lee Iacocca conseguiu convencer Ronald Reagan de que uma onda de desemprego se seguiria à falência da Chrysler e Reagan concordou em injetar dinheiro público, dinheiro suado pago em impostos pelo proletariado estadunidense, para salvar uma empresa privada e garantir o padrão de vida elevado de executivos e magnatas da indústria automobilística. E para salvar, é claro, a reeleição de Ronald Reagan, que estava terminando seu primeiro mandato.

Eu considero este o momento em que o Capitalismo liberal expôs sua incompetência para o mundo, mostrando também sua verdadeira face hipócrita.

Anúncio público da ajuda do Governo à Chrysler

Quando a foto acima foi tirada, com Ronald Reagan e Lee Iacocca juntos anunciando a ajuda governamental para salvar a pele da Chrysler, ficou claro para qualquer pessoa com um mínimo de inteligência que o Capitalismo liberal é apenas uma farsa ridícula.

Onde ficou a conversa de Estado mínimo de Lee Iacocca quando ele precisou de dinheiro do Estado? Se o Estado fosse mínimo mesmo, e não pudesse ajudar, teria ele aceitado a falência da Chrysler com um sorriso nos lábios?

Quando estes dois homens apertaram as mãos celebrando esse acordo, ficou claro qual é a verdadeira especialidade dos liberais em economia:

Privatizar os lucros e socializar os prejuízos,
este é o resumo do Capitalismo liberal.

Deste dia em diante ficou claro para quem quiser entender que o Capitalismo liberal é uma fraude hipócrita. Quando as empresas estão bem, elas rejeitam a intervenção do Estado porque sabem que essa intervenção significaria terem de arcar com suas responsabilidades sociais, reduzindo seus lucros ou empregando parte deles para melhorar o mundo ao redor.

Quando, porém, as empresas estão mal, elas sempre querem uma ajudinha do mesmo Estado que rejeitam. As mesmas empresas que dizem que o Estado enfia a mão no bolso delas, agora querem que o Estado enfie a mão no bolso coletivo do povo para dar dinheiro a elas.

Desde esse dia a economia dos Estados Unidos passou a intervir sempre que as empresas precisavam. Aberto o precedente de Reagan e Iacocca, o Estado passou a sustentar empresas quebrando.

Em 2008, quando a irresponsabilidade e as fraudes cometidas pelos bancos dos Estados Unidos em nome dos lucros elevados com a carteira de seguros imobiliários levaram o país e o mundo a uma crise econômica, o governo dos Estados Unidos injetou bilhões e bilhões de dólares na economia para impedir uma quebradeira geral. Salvou do problema os bancos que criaram o problema. Com o dinheiro dos impostos dos trabalhadores, claro.

Só não salvou os quatro milhões e meio de estadunidenses que perderam suas casas durante essa crise, muitos dos quais passaram a morar nas ruas com suas famílias. Os trabalhadores pagaram a conta da irresponsabilidade dos bancos, mas não receberam eles próprios nenhuma ajuda estatal.

Aqui no Brasil a mesma coisa acontece constantemente.

Os terminais aeroviários foram privatizados pelo governo golpista de Michel Temer logo que ele assumiu, em 2016. Mas no final daquele ano, quando as concessionárias descobriram que administrá-los não era tão simples e começaram a acumular prejuízos, foram nossos impostos que pagaram os prejuízos.

Se os aeroportos dessem lucro, essas empresas dariam alguma parte desse lucro para os trabalhadores? Nunca! Mas quando elas precisam de dinheiro, são os impostos pagos pelos trabalhadores que as salvam.

Todos os dias, quando digo na internet abertamente que sou comunista, as pessoas perguntam: Onde foi que o Comunismo deu certo?

A minha resposta é sempre a mesma: Sem ter os trabalhadores para explorar e sem os impostos dos trabalhadores para salvá-lo, onde foi que o Capitalismo deu certo?

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