As pessoas adoram fantasias! Esta é uma constatação que pode ser feita muito facilmente. Basta observar, por exemplo, as escandalosas quantias que são pagas para atores e atrizes, para que vivam uma fantasia de menos de duas horas diante das câmeras e iludam multidões. Segundo um princípio básico da Teoria Marxista, se atores e atrizes faturam tão alto é porque geram receitas milhares de vezes maiores. E essas receitas, muitas vezes na casa de centenas de milhões de dólares, são obtidas com a venda de fantasias!

A religião é outro exemplo de como as pessoas adoram fantasias. Jesus de Nazaré, sobre quem já falei neste outro artigo aqui, morreu há quase dois mil anos. A esperança de que ele fosse o Messias que libertaria o povo da dominação romana e iniciaria uma era de paz e prosperidade morreu com ele, mas seus seguidores não aceitaram esse fato, criando então uma fantasia sobre uma segunda vinda em breve. Paulo de Tarso, um dos principais divulgadores do Cristianismo, chega a afirmar em seus escritos que aquela geração dele não passaria sem que Jesus voltasse. Jesus não voltou durante a vida de Paulo de Tarso. Dois mil anos depois ele ainda não voltou, mas pessoas continuam repetindo, dia após dia, que Jesus está voltando e chegará em breve. Nem mesmo dois mil anos de espera desmentindo esta conversa, foram capazes de vencer o poder dessa fantasia. Jesus não voltou até agora (e não voltará nunca, porque está morto e mortos só voltam em filmes de zumbis…), mas isso não impede que bilhões de pessoas vivam nessa esperança ilusória.

Outra ilusão muito popular entre as pessoas é a chamada “Lei do Retorno”. O objetivo deste artigo é dissecar essa fantasia.

Tudo começa com a problemática do mal. A tão discutida problemática do mal, que já consumiu milhões de páginas escritas por filósofos, teólogos e também meros escrevinhadores como eu! A velha pergunta: Se o universo foi criado por um deus amoroso, por que existe o mal no universo?

Cada pessoa, é claro, responde a este questionamento de acordo com suas convicções e vivências. De minha parte, por exemplo, a questão é facilmente respondível: O universo é como é simplesmente porque não foi criado por nenhum deus. Essa, porém, é a resposta de um materialista-dialético, mentalmente treinado apenas para lidar com fatos concretos. Uma pessoa que se prende a poucas ilusões. A maioria das pessoas simplesmente não é assim.

Agostinho de Hipona, que os católicos veneram como “Santo Agostinho”, faz toda uma série de malabarismos retóricos para tentar responder esta questão. Divide o mal em categorias, fala sobre “permissividade divina”… Enfim, cria sua própria sequência de fantasias em cima de fantasias, para tentar explicar a existência do mal em um universo criado por um deus amoroso. Tudo isso, claro, sem abrir mão da fantasia fundamental que é a existência de um deus todo-poderoso.

Nem todos possuem a profundidade cultural e filosófica de Agostinho, é claro. Então a maioria das pessoas respondem a essa questão com fantasias muito mais simples que aquelas que Agostinho elaborou.

Uma dessas fantasias é a chamada “Lei do Retorno”, segundo a qual há uma força cósmica (deus, o karma…) que faz com que a maldade executada por uma pessoa volte para ela de algum modo.

Como a maioria das fantasias, essa coisa da “Lei do Retorno” é facilmente desmontada quando observamos os fatos de maneira nua e crua. Infelizmente a maioria das pessoas não quer fazer isso. Talvez elas simplesmente não estejam preparadas para lidar com a realidade concreta.

Na Lógica Formal dizemos que para desmontar uma universal afirmativa falsa, basta mostrar um caso que não se encaixa nela. Em outras palavras, se eu afirmo que “todo esquilo é marrom” e alguém me mostra um único esquilo cinza, por exemplo, então pode-se dizer que a minha afirmação é falsa, porque ela dizia que todos tinham uma propriedade X e foi mostrado um item com a propriedade Y.

Dito isto, se a afirmação da “Lei do Retorno” é que o mal que fazemos sempre volta para nós, trata-se então de uma universal afirmativa. E para mostrar que não é válida basta mostrar um caso em que isso não aconteça. Antônio Delfim Netto é um caso assim, dentre tantos que temos na política brasileira.

Delfim Netto sempre foi um corrupto. Quando era ministro da ditadura militar foi, junto com Ernane Galvêas, um dos responsáveis pela falência do Grupo Coroa-Brastel, do empresário Assis Paim Cunha, de quem Delfim e Galvêas extorquiam dinheiro. A quebra do Grupo Coroal-Brastel causou uma onda de desemprego e instabilidade econômica pelo país. Delfim Netto foi também atuante na ditadura militar, tendo sido um dos signatários do AI-5, a legislação que deu poderes de tortura e morte ao governo militar. Ocupou vários ministérios na ditadura militar de 1964-1985: Fazenda, Planejamento, Economia e Agricultura. Como ministro da agricultura, foi tão ineficiente que as nossas exportações de grãos, principal fonte de receita da nossa balança comercial, praticamente ficaram paralisadas. Como tal, foi um dos grandes responsáveis pela explosão inflacionária durante o (des)governo João Figueiredo, que culminou com a hiperinflação no (des)governo José Sarney.

Delfim Netto tem atualmente 93 anos. Não se pode dizer, portanto, que a “Lei do Retorno” o tenha privado de uma longa vida. Delfim também nunca foi responsabilizado criminalmente por suas ações, embora muitas delas merecessem décadas de cadeia. Delfim é um homem rico e vive muito bem.

Onde está a “Lei do Retorno” nesse caso específico?

O sujeito passou a vida envolvido em sujeira e corrupção. Tem sangue nas mãos, por ser signatário do AI-5. Levou muitos pais e mães ao desemprego e ao desespero com suas ações. Em troca disso, tem uma vida longa, saudável e próspera!

“Ah, mas ele vai pagar no inferno, na outra vida!”

É assim que as coisas funcionam. Quando uma fantasia falha, logo as pessoas recorrem a outras para substituí-la, ou para complementar a eficácia da fantasia original.

Como não existe nenhuma prova efetiva da existência de um inferno, rejeito esta explicação e digo que Delfim Netto está chegando ao fim da vida em meio à riqueza, honrado pela sociedade, saudável (para um homem de 93, claro) e longevo.

“Ah, mas ele vai morrer!”

Sim, claro que vai. Assim como eu também vou. E você que está lendo. Isso não pode ser considerado como uma “punição kármica”, já que todos morremos, cedo ou tarde. Não importa se a pessoa é a mais cruel criminosa de todos os tempos ou uma pessoa “santa”, ela vai morrer.

Delfim Netto, é claro, é apenas um exemplo. Temos outros. Muitos outros, por sinal. Não há como sustentar essa fantasia da “Lei do Retorno” diante dos fatos. Mas a fantasia é, sem dúvida alguma, mais poderosa que os fatos!

Estando cega pela fantasia, uma pessoa tenderá sempre a ignorar todos os fatos que a desmintam. Uma pessoa apaixonada recusar-se-á a aceitar quando todos os amigos e amigas disserem que o alvo de sua paixão não presta. Um bolsonarista convicto viverá a fantasia de que o “mito” é honesto, mesmo que as provas contra ele e seus familiares acumulem-se dia após dia.

Não, este artigo não pretende acabar de vez com a fantasia da “Lei do Retorno”. Apenas pretende entender a origem dessa fantasia, que é a incapacidade de dar uma elaboração filosófica mais densa ao problema do mal, bem como entender o efeito dessa fantasia nas pessoas, em geral, e na sociedade como um todo.

Para tentar entender o quanto esse efeito é negativo, faz-se necessário entender primeiro por que essa “Lei do Retorno” tornou-se tão popular. E para entender isso é preciso entender quem ganha realmente com ela.

Delfim Netto, e outros como ele, ganham muito com a tal “Lei do Retorno”. Em outras palavras, as elites econômicas ganham muito com esta fantasia. Porque quando elas prejudicam o povo com seus gananciosos interesses, o povo se contenta em esperar esse “retorno kármico”, em lugar de ir atrás de punir de alguma forma seus algozes.

Sem a fantasia da “Lei do Retorno”, é bem possível que homens como Antônio Delfim Netto, Paulo Maluf e Fernando Collor de Mello já tivessem sido justiçados pelo povo, linchados nas ruas diante das coisas erradas e extremamente danosas que fizeram contra a população brasileira. Mas o povão está esperando que eles sejam punidos pela “Lei do Retorno”, ou “em outra vida”. E é isso que eles querem mesmo que o povo espere, porque assim garantem a impunidade na única vida que existe, essa aqui, que eles vivem com conforto em função do dinheiro roubado dos cofres públicos.

A “Lei do Retorno” é parte do que chamo de “ideologias metafísicas”, ou seja, das fantasias criadas pelas classes dominantes para que as massas acreditem que serão recompensadas pelo sofrimento atual em “um outro plano”, bem como que seus algozes serão punidos em “um outro plano”.

No começo do milênio (2007) a socialite Narcisa Tamborindeguy, Boninho (diretor da Globo) e Bruno Chateaubriand (apresentador, neto do magnata da imprensa Assis Chateaubriand) foram flagrados jogando ovos da cobertura da socialite, nas pessoas que passavam, enquanto gritavam “Vamos jogar ovo nos pobres!”. Era uma cruel diversão de elite, ainda mais cruel porque muitos dos atingidos não tinham dinheiro sequer para comprar ovos para comer.

Sem a “Lei do Retorno”, talvez uma multidão enfurecida invadisse o prédio em que ela morava e fizesse uma justiça sumária, atirando os três idiotas pela sacada, do mesmo modo como eles atiravam os ovos.

Com a “Lei do Retoron” a atitude foi passiva. Por que se queixar? Por que buscar justiça? Por que não aceitar essa ofensa gratuita, se os ricos seriam punidos “nesta ou em outra vida”, enquanto os pobres “receberiam sua coroa de ouro no céu”?

Esse tipo de conformismo é o principal motivo para que fantasias como essa sejam plantadas e estimuladas pela ideologia das classes dominantes.

Resta a você escolher se quer colher os frutos do seu trabalho duro e honesto hoje mesmo, ou esperar por uma suposta “outra vida”. Da mesma forma, você pode escolher entre ver a justiça sendo feita aqui e agora, ou esperar por uma suposta “Lei do Retorno”.

Participe da discussão

4 comentários

Deixe um comentário para Fernando Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

  1. Venho pensando sobre isso com mais intensidade desde o início da pandemia. A minha conclusão eh bem parecida com a sua: essas fantasias surgem para controle de massa. Sendo que eh I tipo de argumento que nasce nas igrejas, ou seja, dos detentores do saber da época, como forma de controle. Imagina um monte de pobre querendo justiçamento? Eh bem isso aí.

  2. Lei do retorno é um adestramento, é o que modera às pessoas más, cruéis de serem absurdamente piores que são. Assim como o “castigo divino” ou a frase “Deus tá te vendo”.

  3. Concordo! Quanta gente nós podemos citar que morreram de decrepitude e/ou senilidade sem pagar absolutamente nada de uma vida inteira de vigarize e rapinagem? Essa lei do retorno é uma forma bem eficiente e útil de manter as pessoas resignadas.