Eu não sei como começar a falar sobre Jesus de Nazaré. Tenho sentimentos muito ambíguos em relação a essa personagem da história humana.

Por um lado, tenho dúvidas da sua existência. E minhas dúvidas são fundamentadas em muito mais do que mero “achismo”. Recentes estudos mostram que ele pode ter sido apenas uma invenção dos aristocratas romanos, com o objetivo de criar uma religião oficial que unificasse o povo.

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT343900-17770,00.html

Ainda que tenha existido como pessoa real, não consigo acreditar na sua suposta divindade. Para mim está claro que seus objetivos falharam miseravelmente, coisa inaceitável para um deus todo-poderoso. Ou mesmo para o filho de um deus todo-poderoso.

Qual seria o verdadeiro rosto de Jesus, sendo ele nascido no Oriente Médio antes de qualquer miscigenação dos judeus com os povos da Europa?

Ele veio para reformar o Judaísmo, combatendo a hipocrisia de fariseus e saduceus. No entanto os fariseus e saduceus só ficaram mais poderosos depois dele. Inclusive o mataram. Morrer também não é algo muito aceitável para um deus todo-poderoso, ou mesmo para o filho de um deus todo-poderoso.

Ele veio para combater os “pecados” da humanidade. Mas a humanidade continua “pecando” e o Cristianismo gerou até mesmo novos pecados. Como a simonia, por exemplo.

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Como já disse, meus sentimentos em relação a Jesus de Nazaré são ambíguos. Por um lado, gosto da filosofia de paz e amor que ele prega, embora ache que o mundo só será melhor no dia em que os cristãos adotarem essa filosofia de verdade. Até agora, dois mil anos depois de sua morte, tudo que vimos foram os piores exemplos, com guerras religiosas, fogueiras e tortura para os “infiéis”.

Por outro lado, acho muitos dos pensamentos dele bobos. Essa coisa de “amar os inimigos” é uma grande tolice do ponto de vista da sobrevivência. Amando meu inimigo, coloco minha vida nas mãos dele. E se o “amor pelos inimigos” não for recíproco, estarei totalmente ferrado!

Há, porém, algumas coisas que eu tenho certeza sobre Jesus de Nazaré.

A primeira delas é que ele tem pouco ou nada a ver com o que chamamos de “igreja de Cristo” nos dias de hoje. Os autointitulados sucessores de Jesus, ou autointitulados representantes dele na Terra, só servem para acumular riquezas terrenas e desprezar as espirituais.

Tive a oportunidade de acompanhar, nos meus quase 54 anos de vida, o surgimento de muitas igrejinhas de esquina. No início o “pastor” chega andando com sua família, ou de bicicleta. Terno surrado, daqueles que você sabe que foram comprados no brechó e até consegue imaginar o aroma forte da naftalina, mesmo estando longe. Meses depois, quando aparecem mais fieis, a caminhada ou a bicicleta são trocadas por um carrinho velho. Em um ano ou dois chega em um carro novo. E precisa mesmo, porque já não mora mais na comunidade pobre em que começou sua igreja, mas em uma bonita casa em outro bairro. Daí pra frente é só riqueza. Diferente dos membros da sua igreja, cada vez mais empobrecidos pelos dízimos e ofertas solicitados a cada culto, a cada reunião, a cada escola dominical.

Não me entendam mal. Eu não vejo nenhum problema nisso. Afinal de contas, não é o meu dinheiro que sustenta o enriquecimento desses pastores. De mim nunca viram ou verão um centavo sequer. E cada um tem a liberdade de dar ou não o que eles pedem. Se dão, em lugar de alimentarem melhor suas famílias, é problema deles.

O meu problema é o envolvimento das igrejas em atividades ilegais. E, pior ainda, quando essas atividades ilegais geram, além do enriquecimento desmensurado dos pastores, sérias consequências políticas para o país.

FONTE: https://csalignac.jusbrasil.com.br/noticias/357011526/templos-religiosos-sao-o-melhor-lugar-para-se-lavar-dinheiro-no-brasil

Nas últimas décadas temos visto igrejas virarem grandes empresas multinacionais. Vimos Estados nacionais proibindo certas igrejas porque exploravam tanto suas populações que os efeitos econômicos estavam se fazendo sentir nesses países como um todo.

Vimos também esse enriquecimento sendo usado para comprar apoio político no Congresso Nacional. Deputados e senadores financiados por igrejas, fazendo projetos para beneficiar as igrejas, que já possuem muitos benefícios. Como o perdão da dívida das igrejas, que foi vetado pelo presidente para fazer média com a população, sendo o veto derrubado a pedido do próprio presidente.

Vimos um presidente da república prometendo aos pastores que indicaria para o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, alguém “terrivelmente evangélico”. Em suma, alguém que não julgasse com base na Constituição Federal, mas com base na Bíblia.

Agora falam em colocar um pastor, o Silas Malafaia, como vice na possível chapa para a reeleição do presidente. Malafaia, um dos grandes expoentes do enriquecimento ilícito de pastores no Brasil, certamente usaria o cargo de forma descarada para privilegiar sua igreja e as igrejas evangélicas em geral.

Evangélicos, assim como católicos, espíritas, umbandistas ou membros de qualquer religião, são cidadãos como eu, possuindo os mesmos direitos. Eles, naturalmente, podem votar segundo suas consciências, elegendo quem eles quiserem. Nenhum problema até aí.

O problema passa a existir quando eles, em posição de poder, usam a máquina do Estado para obter benefícios para o seu próprio grupo religioso. O problema passa a existir quando eles usam o poder político para oprimir pessoas de outras religiões. Porque isso fere o princípio constitucional da LAICIDADE ESTATAL.

O Estado Laico foi um avanço imenso na história da humanidade. Assegurou a todos o mesmo direito de crença, impedindo as perseguições religiosas. Que as igrejas tenham poder apenas espiritual, nunca temporal, é um requisito para a liberdade religiosa.

Por isso não consigo entender quando uma pessoa religiosa atenta contra a laicidade estatal. Ao fazer isso essa pessoa parece não compreender que a sua própria liberdade está ameaçada.

Sim, porque o fato de uma religião estar no controle hoje, não significa que estará no controle para sempre! E se a outra, que a suceder, resolver proibir esta religião de existir? E se resolver perseguir os adeptos dessa religião atualmente predominante?

Quando os católicos eram maioria esmagadora no Brasil, com o Estado intimamente relacionado com a Igreja Católica, coisa que só veio a acabar com a Constituição do Estado Novo, os evangélicos eram seriamente prejudicados. O registro civil era feito pelas paróquias católicas e o padre da cidade sempre podia recusar-se a registrar uma criança filha dos “nova seita”. Era assim que, no começo do século XX, os protestantes eram chamados no Brasil. Ou o padre podia exigir que a criança recém-nascida fosse batizada no Catolicismo para efetuar o registro.

O mesmo se dava com casamentos. A avó de uma antiga namorada minha viveu por décadas com seu esposo em “concumbinato”, como se dizia na época. Porque ambos eram protestantes e na cidade deles, no interior do Pernambuco, não havia como registrar um casamento se não fosse na Igreja Católica.

Nesses tempos o discurso dos protestantes era favorável a laicidade estatal!

Como a hipocrisia, porém, é dominante no meio protestante, agora que eles cresceram em número e em influência política, o discurso deles mudou. Agora eles querem que a Bíblia substitua a Constituição Federal. Querem que seus “valores cristãos” sejam impostos por força de lei à sociedade como um todo.

Sou capaz de apostar que os protestantes voltariam ao seu discurso de laicidade estatal se um padre ou um pai-de-santo fosse eleito presidente da república. Teriam medo de que fizessem com eles o mesmo que eles agora querem fazer com as outras religiões.

Jesus de Nazaré, no entanto, supostamente disse para nunca fazer aos outros aquilo que não se quer feito contra si mesmo.

Onde está Jesus de Nazaré nas igrejas de hoje?

Longe, bem longe. E esta é uma constatação de alguém que se intitula “o ateu mais cristão de todos”, eu mesmo.

Não consigo ver o Jesus que, ao ser perguntado sobre o pagamento de impostos respondeu “Dai a César o que é de César”, fazendo lobby no Congresso Nacional para garantir o perdão de dívidas com o INSS e dívidas trabalhistas.

Não consigo ver o Jesus que falou tanto em amor ao próximo apoiando o uso da igreja para lavar dinheiro sujo de políticos corruptos, traficantes de drogas e milicianos.

Acima de tudo, não consigo ver Jesus de Nazaré em um palanque com Jair Bolsonaro, gritando coisas como:

  • “Vamos fuzilar a petralhada”
  • “E daí que morreram? Eu não sou coveiro!”
  • “Quando é que vamos deixar de mimimi?”
  • Ou rindo enquanto imita o som de pessoas sufocando com COVID-19

E vou te dizer uma coisa. Se você se autointitula cristão e consegue ver Jesus apoiando Bolsonaro, você está sofrendo de uma total desconexão mental entre as doutrinas do seu Cristo e as doutrinas desumanas e cruéis do bolsonarismo.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche disse que “o último cristão morreu na cruz”. Os crentes dizem que ele está vivo no céu, sentado à direita de seu pai.

Sinceramente, eu espero que os crentes estejam errados e Nietzsche esteja certo. Porque se estiver vivo mesmo, seja lá onde for, Jesus de Nazaré deve estar morrendo de vergonha de tudo que está sendo feito aqui na Terra em seu nome.

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