Nasci nos anos 60, justamente quando muitas nações do mundo estavam abandonando o antigo “lastro ouro”. Lastro ouro, para quem não sabe, era a garantia do tesouro de um país, que só emitia moeda contra uma reserva em ouro existente nos cofres públicos.

A moeda inglesa, a libra, não tem esse nome por acaso. Uma libra representava uma promessa de pagamento do valor correspondente a uma libra (aproximadamente 0,453592 kg) de ouro no Banco da Inglaterra.

Esse ouro “lastreava” a moeda, impedindo que os países que adotavam tal lastro emitissem moeda indiscriminadamente, gerando processos inflacionários. Assim, a Inglaterra, por exemplo, só podia emitir uma nota de uma libra quando havia previamente roubado de alguma de suas colônias uma libra de ouro.

(Para os que acharem estranho que eu fale assim, sugiro a leitura desse artigo aqui, sobre quanto os britânicos roubaram apenas da Índia, e quantos indianos morreram em consequência desse roubo sistemático de riquezas. Tenho guardado esse artigo para mostrar para aqueles chatos que ficam repetindo que o Comunismo matou cem milhões de pessoas. É bom que eles façam uma ideia de quantas pessoas o Capitalismo matou, só para variar.)

Quando os anos 70 chegaram, o lastro ouro era apenas uma relíquia do passado. Para substitui-lo vieram as crises inflacionárias. Difícil lembrar de um país, desenvolvido ou não, que não tenha vivido ao menos uma crise inflacionária dos anos 70 para cá. Claro que a ausência do lastro ouro não foi o único fator dessas crises, mas certamente foi um forte elemento para facilitá-las.

Israel passou por uma explosão inflacionária nos anos 70, causada pelos imensos gastos com defesa depois de terem enfrentado três grandes invasões em menos de trinta anos de existência como país.

Os Estados Unidos enfrentaram uma forte crise inflacionária depois de 1973, causada pela subida abrupta no preço do barril de petróleo. O inverno de 1973 ficou conhecido nos EUA como “o inverno da morte”, pois milhares de pessoas (especialmente idosos e crianças) morreram de frio dentro de suas casas depois que as companhias de gás cortavam o aquecimento por falta de pagamento. O preço do gás havia subido muito e as pessoas não podiam pagar, então eram condenadas à morte pelo crime de pobreza. Ah, esse é o maravilhoso capitalismo liberal que tantos cristãos não cansam de defender!!!

O Brasil, sempre atrasado em tudo, entrou para o clube da hiperinflação nos meados dos anos 80. Era o fim da ditadura militar e a incompetência dos senhores de verde-oliva estava tão exposta que eles resolveram passar o comando do país para um civil, tirando o deles da reta diante da crise gigantesca que eles sabiam que se avizinhava. Assim, sobrou para José Sarney a culpa de uma crise criada pelos empréstimos ao FMI que os milicos tomaram para fingir que estavam causando um milagre econômico no Brasil. Talvez eles soubessem que, trinta e tantos anos depois, uma geração de debiloides sem conhecimento histórico acreditaria na eficiência deles…

No começo deste milênio assisti, no Shopping Juazeiro, em Juazeiro do Norte, no Ceará, a uma palestra de um consultor chamado Waldez Ludwig, na qual ele discorreu (brilhantemente, por sinal) sobre o processo que hoje chamo de “desmaterialização da riqueza”.

Segundo o Waldez os “muito ricos”, que antes dos anos 70 sempre possuíam coisas concretas, estavam sendo gradualmente substituídos por “muito ricos” que possuíam apenas abstrações, coisas imateriais. Aristóteles Onassis, por exemplo, um “muito rico” dos anos 50/60/70, possuía a maior frota de petroleiros do seu tempo. Praticamente todo o transporte de petróleo do mundo passava pelas mãos dele, de forma direta ou indireta. Hoje os “muito ricos” possuem coisas como redes sociais, absolutamente imateriais no sentido de que nada produzem, nada transportam, nada geram em termos de riqueza. Apenas existem como espaço para ajudar outros a venderem seus produtos.

Estou falando nessas coisas porque elas se juntam quando o assunto é criptomoedas. A falta de lastro e a imaterialidade dessas novas moedas digitais deixa-me constantemente preocupado com relação a elas. E o fato de ver manchetes como essa não ajuda e nada a aliviar minhas preocupações.

Talvez seja um defeito meu, é claro. Talvez este velho cérebro não esteja muito bem adaptado aos tempos modernos e não compreenda bem o fenômeno das criptomoedas. Talvez este que se autointitula “O Dinossauro da TI”, seja realmente um dinossauro. Mas eu não perdi 99% do meu dinheiro apostando em criptomoedas e em ideias mirabolantes de bilionários entediados como o Mark Zuckerberg, perdi?

Não! Então talvez, apenas talvez, a minha opinião sobre o assunto seja de alguma utilidade.

A habilidade de qualquer pessoa ou empresa de criar uma moeda própria e comerciar com ela pode parecer para muitos o auge do Capitalismo liberal, da chamada “liberdade econômica”. E é realmente o auge, se considerarmos que até bem pouco tempo só os Estados nacionais tinham esse poder.

É justamente por isso, entretanto, que desconfio fortemente das criptomoedas e que continuarei a não colocar meu dinheiro nelas.

Por um lado, desconfio profundamente das pessoas. Sou um pessimista por natureza e, embora algumas ações humanas sirvam como alívio para o meu pessimismo, continuo desconfiado. Para mim os casos como o de Ruja Ignatova, alcunhada “A Rainha das Criptomoedas”, continuarão a acontecer por muito tempo. Porque não é uma questão de criptografia, não é questão de blockchain, não que questão de tecnologia. É questão de ganância e de mau caráter mesmo!

Não há, até o presente momento, nenhuma tecnologia capaz de dar caráter a quem não tem. Oxalá tal tecnologia existisse! Seria bem empregada, por exemplo, no atual ocupante do Palácio do Planalto, bem como na maioria dos seus seguidores. Mas não existe. E enquanto tal tecnologia não existir, e não tiver sua eficácia comprovada, continuarei acreditando que a Ganância será sempre um fator muito mais determinante na sociedade capitalista do que a Ética.

O Eike Batista está aí, livre, para servir de fundamentação para o meu pensamento pessimista…

Meu bisavô, o velho comerciante judeu que me ensinou a ser desconfiado assim, sempre me dizia que precisamos de juízes e tribunais apenas porque não existe maneira de impedir que ladrões atuem. Não há trancas, não há cadeados, não há portas, não há guardas, não há detectores de metais… Não há nada que impeça quando alguém quer realmente roubar algo.

A falta de lastro e a imaterialidade das criptomoedas fornecem um território ideal para golpistas. Os possíveis cenários para um enriquecimento fácil e um desaparecimento total são muito amplos. O fato de tudo acontecer na internet, onde pessoas podem ser criadas a partir do nada, torna tudo ainda mais preocupante.

Dê uma boa olhada no cavalheiro da foto acima. Aparência respeitável, não é? Cabelos grisalhos, dando impressão de maturidade e equilíbrio. Óculos de leitura, indicando alguém com bom nível intelectual. Olhar franco e sincero.

Examine também a jovem senhora da foto acima. Aparência simpática. Sorriso bonito. Branca e de olhos claros, o que não é uma vantagem do meu ponto de vista, mas constitui uma vantagem em uma sociedade intrinsecamente racista como a nossa, que aceita que uma loja como a Zara crie um alerta para avisar aos seguranças que uma pessoa negra entrou no recinto. Brincos de ouro nas orelhas, indicando que não é uma pessoa totalmente sem posses. O vestido branco sugere que poderia ser uma médica, por exemplo.

Você provavelmente aceitaria o convite de amizade dessas pessoas no seu Facebook ou no seu LinkedIn. Você curtiria postagens sensatas e objetivas dessas pessoas, que falassem sobre investimentos ou aplicações financeiras. Especialmente se os perfis delas indicassem que são donas de empresas, mostrassem fotos de carros e iates. Sim, porque na sociedade das aparências na qual vivemos, qualquer um pode construir um perfil de prosperidade nas redes sociais. Mesmo que não tenha, como se dizia antigamente, um pau para bater em um cachorro. Ou mesmo sem existir em absoluto.

Esse é exatamente o caso do senhor e da senhora das fotos acima. Eles não existem. As duas fotos foram geradas através do site “This person does not exist”, ou seja, “Esta pessoa não existe”. Todas as vezes que você visitar este site, ou refrescar a tela nele com um F5, verá diante de seus olhos um rosto perfeitamente humano que foi gerado por uma inteligência artificial. Mais especificamente, por uma rede neural treinada para montar rostos humanos!

Usando outras tecnologias como o deepfake, é possível fazer um lindo discurso motivacional e colocar estes simpáticos rostos para lerem esse discurso. É possível, com os recursos computacionais certos, fazer com que você assista uma palestra de um desses dois, ou de ambos, convencendo você a investir seu rico dinheirinho, ganho (parodiando Winston Churchill) com muito sangue, suor e lágrimas, em uma maravilhosa criptomoeda que promete valorizar-se 10000% em poucos dias.

Quem pode resistir a um lucro assim?

Eu! Porque como comunista, rejeito a ideia do lucro como motivador humano. E porque como ser humano sou profundamente desconfiado, como já disse. Mas muitas pessoas cairiam em um golpe assim. Não de cara, mas depois de um ano de postagens sensatas e equilibradas do nosso casal inexistente, criando uma reputação de bons conselheiros sobre finanças, você sentiria uma certa tentação de investir.

Não é vergonha confessar isso, porque sabemos que há pessoas investindo dinheiro com a XP Investimentos.

Sim, tem gente que acredita na XP. Mas o Papai Noel me disse que é furada!

Sim, há milhares de pessoas investindo com a XP Investimentos. Aquela mesma XP Investimentos que disse que o dólar cairia abruptamente se Bolsonaro fosse eleito, provavelmente emparelhando com o real. E mesmo com o dólar comprando R$ 5,60 hoje, tem gente que ainda coloca dinheiro no que a XP Investimentos recomenda. Imagina se eles acertassem nas previsões, não é mesmo?!

Não, eu não confio nas criptomoedas. O matemático que sou reconhece a eficácia da criptografia por trás delas. O programador que eu sou reconhece o potencial do blockchain para validar transações. Mas o judeu desconfiado que sou ainda prefere investir em imóveis cada centavo extra que ganho.

A menos que o cometa de “Não olhe para cima” venha e colida com a Terra, meus investimentos continuarão concretos e com sólido lastro. E se o cometa vier, coisa que algumas vezes desejo ardentemente, certamente não precisarei mais de qualquer preocupação com investimentos. Sentar-me-ei na varanda da minha casa tranquilamente, passando meus últimos dias em intensa diversão, observando os negacionistas do cometa!

Você consegue imaginar morte mais divertida?

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