Há muitos debates em torno da chamada “linguagem neutra”. Eu não havia refletido sobre o assunto o suficiente para comentar, mas o fiz depois que algumas pessoas me enviaram perguntas sobre o assunto. Este artigo é a minha posição oficial sobre o tema.

Os detratores da linguagem neutra apresentam sempre os mesmos argumentos batidos e facilmente refutáveis.

  • “Ah, isso vai contra a norma culta da Língua Portuguesa”

Eu frequento diariamente o site Quora, de perguntas e respostas. Tempos atrás alguém fez lá a seguinte pergunta:

A própria pergunta já mostra que quem a fez não aprendeu a Língua Portuguesa corretamente…

Antes de responder lá, tive a curiosidade de ler todas as demais respostas. Separei duas para mostrar aqui, justamente para deixar claro como as pessoas que usam a norma culta da Língua Portuguesa para atacar a Linguagem Neutra são apenas preconceituosas.

Sério? Essa pessoa usa a Língua Portuguesa como argumento para algo?
E esse outro, então???

Tratei de destacar nas duas respostas os erros diversos. Não todos. Apenas os mais óbvios. Não fiz isso por arrogância intelectual, embora eu reconheça que sofro desse mal ocasionalmente. Fiz isso para mostrar que o argumento da defesa da Língua Portuguesa é apenas um disfarce para o preconceito dessas pessoas, já que elas não ligam nem um pouco para a Língua Portuguesa. Se ligassem, tê-la-iam aprendido! (Sim, junto com o golpista Temer, sou um dos últimos a usar mesóclises neste culturalmente estremecido país…)

O que essas pessoas não suportam mesmo, devo dizer, é a noção de igualdade. Elas não gostam do fato de abandonarmos a construção machista da Língua Portuguesa.

  • “Escrever ‘todes’, ‘todXs’ ou ‘tod@s’ atrapalha os programas usados pelos deficientes visuais para a leitura de telas”

Este é, na verdade, o argumento mais tolo de todos, porquanto desconsidera (propositalmente, penso eu) o fato de que programas de computador não são imutáveis. Eles podem, e devem, ser atualizados para abarcar novos casos que surjam durante o seu ciclo de vida.

Como eu sei disso? Simples! Eu ganho a vida desenvolvendo programas de computador, desde 1984.

  • “Já existe ‘gênero neutro’ na Língua Portuguesa

Esta é outra falácia facilmente refutável. Porque o “gênero neutro” na Língua Portuguesa não é neutro em absoluto, é masculino.

Ainda no Quora, alguém me saiu com essa resposta aqui:

O experimento é interessante, devo admitir. Eu comentei na resposta do Pedro Henrique propondo o experimento inverso: Que tal se o palestrante entrasse na sala e dissesse “Boa noite a todas!”?

Eu tenho certeza, tanto que me ofereci para apostar a dez contra um, que os homens presentes na sala ficariam ofendidos e reclamariam se fossem incluídos no “todas”, no modo feminino.

Aí está, na minha opinião, o principal ponto a ser considerado sobre o assunto: Se os homens sentem esse desconforto ao serem incluídos no modo feminino, por que as mulheres e pessoas não-binárias têm a obrigação de se sentirem confortáveis ao serem incluídas no modo masculino?

Percebe-se facilmente que não se trata de uma questão de proteger o idioma ou de especificar as estruturas que ele contém ou deixa de conter. Trata-se, sim, de uma questão de dominação!

Trata-se de ver o mundo sempre sob o olhar masculino. E de oficializar isso na estrutura de um idioma, ao ponto de considerarem natural usar o modo masculino para referir-se a todos, inclusive às mulheres e pessoas que não se enquadram em nenhum dos gêneros, ao mesmo tempo em que acham ofensivo usar o modo feminino ao falarem com homens.

Para exemplificar isso, vamos falar um pouco de cinema?

Ao contrário do que muitos devem pensar, eu não sou do tipo de intelectual que só assiste “cinema de arte” ou “filmes cult”. Assisto esses, sim, mas também assisto produções comerciais bobas. Há momentos em que é necessário desligar o “modo pensamento” por algumas horas. E nesses momentos, nada melhor que um filme bobo.

A minha escolha de filme bobo esta semana foi “Chaos”, com Jason Statham, Wesley Snipes e Ryan Phillipe. Um filme policial sobre um assalto a banco. Um amigo havia comentado comigo que eles mencionavam a “Teoria do Caos”, que é como os leigos falam dos Sistemas Dinâmicos, a minha área de pesquisa no doutorado em Matemática.

Em uma das cenas o detetive Quentin Conners (Jason Statham) está discutindo com o detetive Bernie Callo (John Cassini). O capitão Martin Jenkins (Henry Czerni) aproxima-se, vê a discussão e a encerra com o seguinte comentário: “Já chega meninas!”

Este é praticamente um chavão nos filmes de Hollywood. Quando um policial ou um soldado quer calar colegas que estão brigando, chama-os de “meninas”. Em resumo, ao incluí-los no modo feminino de tratamento, desmerece-os, reduz os brigões, encerrando a briga.

As pessoas não param para pensar no aspecto simbólico das coisas. Como psicanalista lacaniano, eu penso sempre mais no aspecto simbólico. Para Lacan, o simbólico é mais real que o concreto.

O aspecto simbólico por trás deste fenômeno é muito claro para mim. O tratamento no feminino dado aos homens é uma forma de reduzi-los, de “baixar a bola” dos brigões. Ele reflete, simbolicamente, o fato de que mulheres são vistas como inferiores aos homens em nossa sociedade. Assim, tratar um homem como mulher é, para quem faz isso, reduzir o valor dele, inibindo-lhe a conduta masculina da agressividade. Sendo bem freudiano aqui, é uma forma simbólica de castrar o macho, reduzindo sua agressividade.

Podemos avaliar a importância de uma causa simplesmente observando quem são seus detratores. Se pessoas preconceituosas, ignorantes e machistas são contra a linguagem neutra, sinto-me quase na obrigação moral de ser favorável a ela.

Tenho também um outro argumento em favor da linguagem neutra. Um argumento humano.

Se é possível, com pouco ou nenhum custo, deixar confortáveis algumas pessoas que vivem sob intensa pressão social, por que não fazer isso?

Ao usar a linguagem neutra, deixo confortáveis não apenas as mulheres, que são maioria no mundo, mas também as pessoas não-binárias, que são minoria e vivem sob intensa pressão, muitas vezes incompreendidas por homens e mulheres.

Costumo dizer que sou o mais cristão dos ateus. Porque vejo na filosofia do Cristo, mesmo sem ver nele nenhuma divindade, uma filosofia gentil e amável. Por isso gosto muito da chamada “Regra de Ouro”: Faça aos outros apenas aquilo que gostaria que fizessem a você.

Ou, expressando de uma forma negativa, não faça aos outros aquilo que não gostaria de que fizessem a você.

Se você, homem, sente algum desconforto ao ser tratado como mulher, por que quer impor às mulheres e às pessoas não-binárias que sejam tratadas como homens e sintam-se confortáveis com isso?

Pergunta no ar, para a próxima sessão psicanalítica…

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1 comentário

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  1. Gostei do texto, muito bem explicado seu ponto de vista

    Sua argumentação é infalível dentro dos fatos que apresenta, mas devo ainda discordar por conta de faltar a abordagem de alguns pontos importantes, que fazem toda a diferença

    Antes de tudo, tenho que deixar claro aqui que sou homem, branco, cis e hétero, infelizmente agora a gente tem que mostrar as nossas “tags” antes de falar alguma coisa para que os ouvintes/leitores já decidam se vão concordar conosco ou não (não é uma indireta a você, e sim ao público em geral)

    Sou estudante de línguas orientais e de ciências sociais. Lembro muito bem a época em que esse questionamento da língua portuguesa começou a ficar mais forte, mais ou menos 2013, eu estava estudando japonês e cultura japonesa na época. Naquele ano eu apenas ouvi 1 argumento e era este: de que usar o gênero masculino para o coletivo misto era uma forma de dominação do masculino, e ainda de que usar “homem” para se designar ao ser humano, era uma forma de dizer que a mulher era de uma categoria secundária.

    Sobre usar “homem” para a espécie eu realmente acho que se trata de uma desqualificação da mulher, porém o gênero masculino no coletivo carece de qualquer evidência que indique que se trata de uma atitude de dominação. Vira aquele negócio:

    – “é dominação, sim!” – beleza, mas de onde você tirou isso?
    – “é evidente, oras!”

    E eis que é gerada toda uma militância dentro de uma coisa que você simplesmente assume que é verdade, por conta da sua visão de mundo ou porque aquilo se encaixa melhor nas suas crenças, e você quer que tudo fique bem coerente na sua cabeça, para sustentar sua convicção de que você pode compreender o mundo à sua volta, e com isso controla um pouco sua ansiedade e sensação de impotência

    – “ah, mas ao você assumir que usar o masculino não é dominação, está na mesma condição que eu, afinal, o que você pode apresentar de argumento além da sua visão de mundo?”

    Beleza, que tal se a gente estudar OUTRAS LÍNGUAS?

    Eu fico pasmo de as pessoas fazerem uma análise “universalizante” da língua, introduzindo conceitos de dominação entre gêneros, e ficarem bitoladas nas letras “o” e “a”. Uma análise deste tipo deve ser feita olhando para como o ser humano se comunica, no geral. Sem isso, é achismo e análise incompleta

    No japonês, por exemplo, temos “watashi”, que é “eu” para as mulheres, e “boku” que é “eu” para os homens.

    Eles podem usar essas palavras em qualquer momento? Não. Se a ocasião for mais formal, ambos os sexos usam “watashi”. Sim, o predominante no japonês é o feminino.

    E o coletivo? O sufixo “tachi” é o “s” do japonês, para falar de forma simplista. Então:
    Watashi – eu (feminino)
    Watashitachi – nós (para grupos femininos e mistos)
    Boku – eu (masculino)
    Bokutachi – nós (para grupos estritamente masculinos)

    Parece que o jogo virou, não é mesmo? Até porque o Japão sempre foi conhecido por ser extremamente conservador (não conservador político, conservador no sentido ruim mesmo), machista e patriarcal.

    Eu fico até imaginando pessoas argumentando que o japonês é machista, pois separa uma classificação específica para os homens, enquanto que usa uma palavra “genérica e qualquer” para as mulheres, como se os homens fossem tão especiais a ponto de terem uma palavra separada só para eles, e que requerer-se-ia um status social distinto para se ter um pronome separado para si, como se fosse um título de nobreza… Narrativa é tudo, não é mesmo? Pena que os bolsonaristas vagabundearam essa palavra até o limite

    Tirando isso, o coreano é uma língua completamente neutra (neste sentido) pois nele não há flexões de gênero nem diferenciação de pronomes, e eu ouvi de uma amiga tailandesa que o tailandês também é assim. Enfim, vemos uma insistência maior de uma tradição patriarcal em países cuja língua ignora flexões de gênero e, como no caso do Japão, até inverte a preferência.

    Convido você a perguntar aos japoneses mais machistas se eles se sentem inferiorizados por serem tratados no feminino quando estão num coletivo misto. Perguntar isso a brasileiros que escrevem errado é fácil. Estou aqui, gentilmente apontando que você fez uma generalização forçada para concluir algo que você quer que seja verdade. Mas por favor, não me leve a mal, não quero ser agressivo, estou apenas argumentando. Até porque eu, que cresci numa casa praticamente só com mulheres, vi claramente como “encontrar” características supostamente masculinas numa mulher serve como desqualificação para a mesma – não se trata de se descer do pódio do melhor gênero para outro inferior, mas sim de se se está representando bem seu papel social como homem ou mulher (isso é um problema, eu sei, o que quero esclarecer é que é esse o real problema, e sua comparação com o “já chega meninas!” careceu de análise mais ampla)

    Eu, sinceramente, não me importaria nem um pouco de ser tratado como “todas”, e dos homens que conheço, julgo que nenhum se importaria também – alguns com os quais conversei sobre isso, inclusive, falaram que “todas” é muito mais estético que “todes”. Eu não me sentiria inferiorizado ou não contemplado na fala, porque o que importa num texto é o SIGNIFICADO. Não é esse o argumento que usam justificar a tolerância aos dialetos regionais que se desviam na norma culta?

    Assim como quando recebi um email da escola da minha filha que começava com “queridas mães…”, achei super natural, visto que pai é só uma mãe do sexo masculino… Não me sinto “injustiçado” quando uma senhora na rua vem me ensinar coisas básicas sobre cuidado com crianças, quando vê que sou um pai (homem, que supostamente não tem jeito com crianças) com um bebê, e sozinho. Sou julgado equivocadamente em várias coisas ao longo da minha vida: por ser homem, por ser da área de TI, por ser jovem, por não gostar de frequentar festas, por ser magro, por ser mais sensível etc. Ser julgado por minhas características mais óbvias é um processo natural da convivência em sociedade e cabe a mim saber como lidar com isso, sem querer manipular o que acontece dentro da cabeça das pessoas

    Talvez a questão não seja exatamente a língua, mas sim maturidade. Agora eu estou saindo completamente do âmbito técnico e falando como pessoa. Parece uma atitude adolescente tentar manipular a língua à força, e mais imaturidade ainda achar que isso iria ajudar, muito ou pouco, no combate a um problema cabeludíssimo como um padrão histórico de atribuição de papeis sociais, que, sejamos sinceros, não temos ideia de até que ponto é cultural e a partir de que ponto começa a ser natural (quem diz que é tudo cultural nunca abriu um livro de antropologia).

    Eu vejo esse movimento de mudança forçada da língua como a prova de que o movimento pró igualdade de gênero é encabeçado por pós adolescentes que têm muito tempo livre e pouca experiência de vida. Quem, como eu, teve algumas amizades e conhecidos trans de classes mais baixas, sabe como esse tema chega neles: gostam da ideia de um gênero neutro, mas isso está LONGE de ser prioridade na vida deles, inclusive porque a maioria massiva deles só quer ser tratado pelo gênero oposto ao de nascimento e porque eles têm problemas mais urgentes para resolver, como conseguir um emprego melhor, serem tratados como pessoas normais etc

    A imposição na forma de se falar está provocando mais resistência da parte da sociedade do que educação e, com isso, atrasando o processo de integração dessas pessoas, além de soar bem feio colocar o “e” nessas palavras, acho que temos jeitos melhores de combater a discriminação

    Vejo muito poucas pessoas fazendo análises verdadeiramente imparciais, ou indo primeiro atrás das premissas para depois chegar às conclusões. Pessoas de alta escolaridade tirando conclusões emocionalmente, e depois buscando as justificativas para embasar o que passou pela cabeça delas

    É muito difícil pensar cientificamente, dá uma canseira danada, e somos sempre confrontados com nossos próprios egos ao fazermos isso, por isso sempre evitamos análises imparciais. Mas se nos propomos a sermos autoridades no que falamos, é o preço a se pagar