O que constitui um real ser humano vivo
é mais um mistério do que nunca, nesses dias em que homens
– cada um dos quais é um valioso,
único experimento por parte da natureza
são abatidos no atacado.

Hermann Hesse, no prólogo de “Demian”

Não me regozijo com a morte de seres humanos, sejam eles quem forem, não importa o que tenham feito. Como diz o Hesse, cada um de nós é um experimento único por parte da natureza.

Alguns experimentos falham, é claro, e geram pessoas desprezíveis como o atual ocupante do Palácio do Planalto ou os abusadores de crianças. Ainda assim não desejo a morte dessas pessoas. Preferia, antes, que tivessem sido experimentos de sucesso, que as circunstâncias da vida não os tivessem levado para o caminho do crime.

Penso assim porque calculo o quanto o mundo seria melhor se, por exemplo, Bolsonaro não tivesse entrado para as milícias cariocas e fosse um homem honesto. Quantas famílias não estariam completas? Quantos órfãos ainda teriam seus pais? Se ele e sua gang não tivessem interesse no superfaturamento de vacinas, quantas pessoas, devidamente vacinadas em tempo hábil, não teriam sobrevivido, dentre as mais de 600 mil pessoas mortas pela COVID-19 no Brasil?

Sim, porque muitas dessas pessoas não tiveram escolha. Elas foram deixadas ao acaso. Muitas sem auxílio emergencial e tendo de trabalhar para garantir o sustento de suas famílias. Tiveram de ir para as ruas, de pegar ônibus e trens lotados, de circular em seus ambientes de trabalho com pessoas contaminadas.

Outras tantas simplesmente, porém, optaram pela morte, contaminadas pela ideologia da necropolítica da extrema-direita, centrada na morte, não na vida.

Isso não aconteceu apenas no Brasil, é claro. A estupidez da extrema-direita não é um privilégio brasileiro, mas algo disseminado pelo mundo inteiro. Como nesse caso:

Se você não é mais forte que esse aí, então tome a vacina…

No Brasil, o negacionismo tem-se manifestado de formas diversas durante esta pandemia.

Aqueles mais limitados intelectualmente simplesmente dizem que as vacinas não funcionam. A maioria destes não consegue sequer entender como funciona o mecanismo de uma vacina. São pobres coitados, mantidos na ignorância pela indústria da diversão, pelos jogos de futebol, pelo álcool, pela indústria do sexo. São aqueles que desprezavam a escola porque se julgavam mais “espertos” que os professores e que os colegas que estudavam. São os adeptos do “jeitinho”.

Há, porém, aqueles um pouco mais sofisticados intelectualmente e que são igualmente negacionistas.

Não posso ler a bula

No LinkedIn um engenheiro civil me disse que não tomaria a vacina se não pudesse ler a bula para saber o que continha. Era um senhor mais ou menos da minha idade, cinquenta e poucos anos, que tomou vacinas nos anos 60/70/80, nas campanhas obrigatórias da Ditadura Militar (que, pelo menos, não era negacionista…), sem nunca ter tido acesso a uma bula de vacina. E mesmo que hoje ele tivesse acesso a essa bula, de que serviria? Como engenheiro civil, teria ele alguma condição de entender realmente o que estivesse escrito na bula?

Não, a resposta é não. Embora os cursos de engenharia tenham algumas disciplinas de Química, o que está em uma vacina é muito mais complexo do que esses cursos habilitam a entender. E ele sabe disso! O suposto argumento é só uma maneira de tentar justificar racionalmente seu negacionismo cego.

Vacinas sob suspeita

Há também aqueles que tentam colocar as vacinas em suspeição, alegando que elas foram desenvolvidas muito rapidamente e que isso não é compatível com os processos habituais.

A resposta óbvia para estas é que os processos de desenvolvimento não foram habituais! Desde o começo desta pandemia as companhias farmacêuticas estão apostando nos fragmentos do RNA viral para o desenvolvimento das vacinas, em lugar do tradicional método de “atenuar” o vírus antes de inseri-lo no organismo, de modo que o sistema imunológico “aprenda” a combater os vírus enquanto combate esses exemplares enfraquecidos. Alterado o modo de produção, alteram-se os prazos. Nada mais natural que isso.

O verdadeiro problema neste caso, porém, é outro. Mesmo sendo ligeiramente mais sofisticadas intelectualmente que a maioria dos negacionistas, essas pessoas não são ainda capazes de raciocinar de forma realmente complexa em termos sociológicos.

As vacinas foram desenvolvidas muito rapidamente porque a tecnologia para isso existia e porque essa pandemia abalou as estruturas do Capitalismo.

Sim, é isso mesmo. Ao contrário do que os economistas liberais dizem, o Capital nunca gerou riqueza. A força de trabalho é o que gera riqueza. E a pandemia tirou a força de trabalho das linhas de produção das fábricas; tirou as pessoas dos balcões do comércio, seja por dentro, atendendo, ou por fora, consumindo. A pandemia ameaçou a produção de riqueza, que é o que sustenta o luxo de industriais, comerciantes e banqueiros. E foi isso que fez com que o Capital mobilizasse todas as forças, toda a tecnologia, tudo… para produzir vacinas que restabelecessem a produção de riqueza rapidamente.

Teóricos da conspiração

Há também aqueles negacionistas psicologicamente transtornados, que fundamentam seus argumentos em teorias da conspiração diversas:

  • Chineses teriam desenvolvido o vírus para espalhar o Comunismo na sociedade ocidental.
  • As companhias farmacêuticas criaram a pandemia para lucrarem com venda de vacinas.
  • As companhias farmacêuticas simplesmente não produziram vacinas, apenas venderam placebos para os governos vacinarem suas populações.
  • O coronavírus é uma invenção e a pandemia também. Tudo foi criado por governos que querem aumentar seu controle sobre as respectivas populações.

São tantas fantasias absurdas que comentar uma por uma consumiria mais minha paciência do que o meu tempo. São óbvias explosões neuróticas que precisam mais de tratamento psicanalítico do que de instrução formal ou conhecimento do mundo.

Negacionistas por interesse

Há, porém, um último grupo de negacionistas que merece mais desprezo do que todos os demais, que são apenas pessoas ignorantes ou mentalmente desequilibradas. São os negacionistas por interesse.

Jair Bolsonaro é um desses. Sua postura em relação à pandemia da COVID-19 foi fruto de um cálculo político deliberado e frio, que acabou por conduzir mais de seiscentas mil pessoas à morte.

Por um lado, sabedor de que seus seguidores são adeptos das teorias da conspiração, Jair Bolsonaro resolveu posicionar-se como o fez porque assim teria argumentos para alimentar as neuroses de seus fanáticos.

Por outro lado, ele descobriu na pandemia uma forma de ganhar dinheiro. Recusando-se a comprar as vacinas oferecidas por laboratórios como a Pfizer, Bolsonaro empenhou seus esforços na compra de uma vacina que nem mesmo existia. Uma compra superfaturada, intermediada por vários apoiadores. As vacinas adquiridas através de uma empresa fraudulenta, cujo proprietário tornou-se, logo em seguida, sócio de seu filho caçula, Renan, o “04”.

Tudo muito suspeito, claro, para qualquer pessoa que raciocine. Mas aí vem a parte boa de manter seu eleitorado entre pessoas mentalmente desequilibradas! Assim, quando tudo isso veio à tona, bastou a ele dizer que eram afirmações falsas, produzidas para comprometê-lo. Bastou dizer que ele tem um “plano” qualquer que é melhor para o Brasil, mas que não pode ser revelado, sob pena de fracassar, e que basta aos seguidores acreditarem no plano e não consumirem as vacinas.

No meio de tudo isso entram também as psicoses religiosas. A vacina seria uma forma de marcar as pessoas com o “chip da besta”, em uma referência tosca à mitológica “besta do Apocalipse” citada no Novo Testamento, em um livro delirante, escrito por um ancião insano que vivia na ilha de Patmos, conhecida por suas inúmeras espécies de cogumelos alucinógenos.

Tudo isso fermentou de forma ideal em meio ao cenário de ignorância e fanatismo religioso no qual vivemos. Tudo isso reforçou o apoio desesperado de muitos ao presidente mais insano e criminoso que o Brasil já teve.

Para mim é extremamente doloroso ver tantas pessoas escolhendo a morte. Não apenas escolhendo. Algumas até aplaudindo. Mas quando começo a achar tudo isso estranho demais, procuro sempre lembrar que 57 milhões de pessoas, em nossa sociedade declaradamente cristã, votaram em um homem que dizia abertamente ser favorável à tortura.

Vivemos em um mundo país muito doente.

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