Uma das propostas de reforma tributária que mais precisamos discutir, e implementar, é a da taxação das grandes fortunas. A verdade é que os muito ricos praticamente não pagam impostos. Pelo menos, não na proporção das suas riquezas acumuladas.

Ao redor do mundo, muitos milionários reconhecem isso e até elaboraram um manifesto pedindo aos governos que os taxem para custear o combate à pandemia.

Curiosamente, não são os muito ricos os maiores opositores dessa ideia. Pelo menos não publicamente. A verdade é que os maiores opositores da taxação dos ricos são exatamente aqueles que mais se beneficiariam dela, ou seja… os muito pobres!

Embora tenha se tornado muito mais visível na última década, o pobre de direita não é um fenômeno novo. É bem sabido que as classes menos favorecidas da população são justamente as mais conservadoras, sempre tendendo a apoiar a manutenção do status quo, mesmo quando este status quo não é favorável a essas classes.

A chave para entender o comportamento dos chamados “pobres de direita” está no significado atribuído por Karl Marx à palavra IDEOLOGIA.

Essa palavra tem sido usada erradamente em muitas ocasiões. Tornou-se, nos últimos anos, praticamente um sinônimo de “ideário”, ou seja, conjunto de ideias.

Para Karl Marx, no entanto, ideologia não é isso. Para ele, ideologia é uma construção social e cultural das classes dominantes para iludir as classes dominadas.

Para saber mais sobre ideologia, sugiro que assista esse vídeo do meu curso “O Bê-A-Bá do Marxismo” no Youtube. É de graça e não paga nada!

Um exemplo de ideologia como ilusão é a tal “meritocracia”.

As pessoas foram convencidas de que seu sucesso depende do mérito. Então, se você não tem sucesso, é porque não tem mérito, ou seja, não tem merecimento, não tem qualidades ou atitudes que justifiquem o seu sucesso. Como se houvesse uma entidade mágica em algum lugar, observando a humanidade e dizendo “Este aqui trabalha muito e se esforça, então receberá riquezas e glória. Este outro é preguiçoso e ficará na miséria”.

O problema é que as coisas não são assim. Ha pessoas, e muitas, que são muito trabalhadoras, muito esforçadas, mas que não conseguem nada na vida. Enquanto isso, o padrão entre os riquinhos que circulam por aí, pelas baladas da vida, é que sejam ricos por herança, ou seja, sem nenhum mérito pessoal. São ricos porque receberam a riqueza dos pais.

Apesar de tudo isso ser facilmente observável, tanto pelo senso comum quanto por estudos sociais, as pessoas continuam acreditando na armadilha ideológica da “meritocracia”, simplesmente porque isso é bombardeado nas cabeças deles o tempo todo. Pode ser através de novelas da Rede Globo, como “Rainha da Sucata”, que mostram sempre uma pessoa que nasceu pobre, mas subiu na vida através de muito esforço. Ou pode ser por pregação direta, como nas postagens do LinkedIn ou palestras dos “coaches”.

De uma forma ou de outra, a sociedade fica coaxando sobre meritocracia repetidamente, até que a maioria da população acredite. (Desculpe, não resisti ao trocadilho entre a voz dos sapos e rãs e os discursos irritantes dos “coaches”.)

No entanto, será que um empresário rico que está sentado na Hípica em um almoço de negócios, com ar condicionado e vinhos raros, realmente se esforça tanto quanto um estivador do cais do porto? Nunca!

Será que aquele trabalhador braçal que mora lá longe no subúrbio, gasta duas horas dentro de transportes coletivos para chegar no trabalho pela manhã, trabalha pesado o dia todo, depois gasta mais duas horas para voltar para casa, é pobre porque não se esforça? Claro que não!

Mas é isso que é empurrado na cabeça dele, fazendo-o acreditar que seu patrão, que na maioria das vezes nunca bateu um prego na vida, tem tudo que tem porque é mais esforçado que ele. E assim ele segue querendo esforçar-se cada vez mais, trabalhar cada vez mais, empreender…

Não é por acaso que a Síndrome de Burnout (exaustão) afeta tantos trabalhadores hoje, é? Culpa da ideologia da meritocracia!

Outro exemplo notável de proposição ideológica é o conservadorismo sexual. As camadas mais pobres da população são ensinadas, inclusive com o apoio das igrejas, dos padres e pastores, a seguir um moralismo sexual muito estrito. São muitos itens como “casamento é feito por deus e indissolúvel”, “tem de haver fidelidade conjugal”… Tudo muito bonitinho, não é?

As classes sociais dominantes, os ricos, plantam na mente dos proletários essas falsas noções morais, por motivos bem definidos. Um operário que está passando por um divórcio reduz sua produtividade. Um operário que está tendo um caso pode ter problemas no casamento e chegar ao divórcio, comprometendo sua produtividade. Mas as mesmas classes dominantes não vivem por essa moral sexual estrita que é empurrada na mente dos trabalhadores. Quantos casamentos e divórcios teve Roberto Justus? Ou os atores e atrizes da Rede Globo, os mesmos que encenam novelas com finais “felizes para sempre”? E a extensa rede de casos e trocas de parceiros que existe entre essas classes privilegiadas?

Uma moralidade para os ricos, outra para os pobres!

Um dos objetivos da ideologia, no sentido marxista da palavra, é impedir que as pessoas desenvolvam o que Marx chama de “consciência de classe”, ou seja, que elas compreendam realmente quais são as relações sociais de produção que as mantém na pobreza extrema, enquanto outros acumulam capital.

A falta de consciência de classe é a mãe dos pobres de direita. Sem consciência de classe o proletário acaba achando que pertence à mesma classe do patrão; acredita sinceramente que tem os mesmos interesses do patrão; que o que é bom para o patrão, também é bom para ele. Nada disso, no entanto, é verdade. São apenas ilusões plantadas pela ideologia.

Os muito ricos, no entanto, têm uma forte consciência de classe. Para começar, por mais que falem em “igualdade”, eles só se relacionam com outros muito ricos. Se você duvida, consulte a sua agenda e tente descobrir quando foi a última vez que o Bill Gate, o Elon Musk ou o Jeff Bezos te convidaram para um cafezinho.

Para tirar as pessoas das ilusões geradas pela ideologia imposta pelas classes dominantes, algumas vezes é preciso um tratamento de choque. Esfregar na cara do trabalhador alguns fatos duros, mas necessários. Foi por isso que fiquei muito feliz quando vi circular no LinkedIn um excelente vídeo do Felipe Castanhari, um dos meus youtubers prediletos. O vídeo é este:

O que o Felipe Castanhari explica nesse vídeo é, basicamente, que mesmo você que ganha 30, 40, 50 mil reais, ainda é pobre. Você vive melhor que quem ganha salário mínimo, obviamente, mas não é rico. Não é um capitalista.

Porque capitalistas são as pessoas que acumulam capital em grandes quantidades. Como o Eduardo Saverin, mencionado no vídeo do Felipe Castanhari, que possui uma fortuna de quase cem bilhões.

Portanto, quando você ouvir falar em “taxação das grandes fortunas”, fique sabendo que não estamos falando do seu celular Motorola com a tela trincada, ou do seu Ford Taurus 2000 financiado, que você ainda tem vinte prestações para pagar. Muito menos do seu apartamento alugado.

Taxar as grandes fortunas não afeta você. Ou melhor, afeta… positivamente!

Com a taxação das grandes fortunas o Estado terá recursos para melhorar saúde, educação e segurança, que são as obrigações mais fundamentais do Estado.

É preciso que o trabalhador brasileiro entenda a noção marxista de proletariado. Para Karl Marx, qualquer pessoa que precisa vender sua força de trabalho para viver, é um proletário.

Segundo esse conceito, se você ganha 1.000 ou 100.000 por mês vendendo a sua força de trabalho, não importa: você é proletário do mesmo jeito.

Porque a pessoa que ganha 100.000 de salário mensal não pode simplesmente parar de trabalhar. Se ela fizer isso, por querer ou porque ficou desempregada, logo a sua situação financeira irá deteriorar-se, já que essa pessoa possui compromissos que são proporcionais à sua renda.

Se ela ganha cem mil por mês, não mora em um quarto sala e cozinha no subúrbio, mas em um bonito apartamento de condomínio. Mesmo que o apartamento seja dela, tem o IPTU anual e o alto condomínio mensal. Tem a escola dos filhos, que não é a escola pública do bairro, mas uma escola particular. Enquanto o proletário que ganha um salário mínimo tem sua diversão tomando duas cervejas no boteco da esquina com os amigos, o proletário de cem mil reais por mês provavelmente toma whisky, bebe vinhos caros ou compra aqueles kits para fabricar sua própria cerveja e sentir-se um yuppie estadunidense. E ainda tem aqueles que gastam mais do que ganham e, mesmo com salário alto, estão até o pescoço no cartão de crédito e no cheque especial, que cobram juros altíssimos dos inadimplentes.

Retire dessa pessoa o salário de cem mil por apenas seis meses, e ela estará quebrada. Isso é verdade em qualquer parte do mundo e muito mais verdade no Brasil, onde a captação da poupança é muito baixa. Quase ninguém tem reservas. Muitos vivem mesmo é de salários futuros, usando cartões de crédito e crediários para o consumismo cotidiano.

Portanto, fique atento ao seguinte critério: SE VOCÊ NÃO TEM CAPITAL ACUMULADO PARA PARAR DE TRABALHAR PELO RESTO DE SUA VIDA E AINDA VIVER CONFORTAVELMENTE E GARANTIR O CONFORTO DAS SUAS GERAÇÕES FUTURAS, VOCÊ NÃO É CAPITALISTA PORRA NENHUMA!

Se for esse o seu caso, e mesmo assim você defende sempre o lado dos muito ricos, você não é capitalista por isso. É apenas uma pessoa muito burra!

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7 comentários

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  1. Adorei tudo que li. Usou unicamente termo boa de ler e
    tudo muito fácil de distinguir. Espero que faça mais artigo assim e também possa continuar com o trabalho.

  2. Há quanto tempo você já trabalha com blog. Comecei faz algo mas de
    um mês e também vejo que é bastante difícil descobrir matéria pra postar toda semana.

  3. Me reconfortou ler esse texto e assistir esses vídeos!! Isso é educação popular de fato, tirando o povo da alienação!! Obrigada e parabéns!!