Eu havia prometido dar continuidade hoje ao artigo de ontem, mostrando uma forma possível de democracia real. Peço perdão a vocês, prometendo continuar com esse assunto amanhã. Hoje, há algo mais grave e mais imediato que precisa ser discutido.

Depois que começaram a circular os rumores de uma possível chapa Lula/Alckmin para a presidência em 2022, uma série preocupante de reações foi iniciada dentro do Partido dos Trabalhadores e em diversos setores progressistas nacionais.

De repente, pessoas que estavam trabalhando arduamente pela eleição de Lula, pessoas que passaram 580 dias acampadas na porta da PF de Curitiba, pessoas que sempre usaram o bordão “Lula Livre”… passaram a acusar Lula de traição por (supostamente) aliar-se a Geraldo Alckmin em uma chapa para concorrer à presidência.

Essa divisão interna é potencialmente muito perigosa. Se o campo progressista se dividir um pouco mais, corremos o risco de ter um novo mandato de Bolsonaro. E isto seria catastrófico para o Brasil e para o povo brasileiro.

Para começar, já temos divisões demais. A derrota de Bolsonaro, que poderia acontecer já no primeiro turno das eleições, se houvesse mais união no campo progressista, provavelmente só acontecerá no segundo turno. Se ocorrer…

Sim, porque não me iludo nem um pouco com as pesquisas apresentadas até o momento. Em 2018 um colega professor da USP divulgou seus cálculos afirmando que Fernando Haddad tinha 96% de chance de ser eleito presidente. Mas o presidente hoje é Bolsonaro, mesmo que todas as pesquisas apontassem naquela época que ele perderia no segundo turno para qualquer candidato, lembra? Até Ciro Gomes, que acabou com modestos 6% dos votos no primeiro turno, segundo as pesquisas, venceria Bolsonaro no segundo turno.

Mais de dez milhões de votos de diferença… E as pesquisas?

Bolsonaro, no entanto, foi eleito. E eleito com mais de dez milhões de votos de vantagem em relação a Fernando Haddad! As pesquisas não ajudaram em nada. Na verdade, podem até ter ajudado Bolsonaro. Me pergunto quantos e quantos progressistas ficaram em casa e deixaram de votar, simplesmente porque acharam que Haddad já estava eleito, justamente por causa das pesquisas.

Os que dizem que não votarão em Lula se a chapa for com Alckmin como vice, parecem ignorar pontos fundamentais.

Em primeiro lugar, esquecem o quanto é importante tirar Jair Bolsonaro da presidência.

Eu fico surpreso com isso. Porque para mim, qualquer pessoa medianamente sensata deveria ser capaz de perceber a importância de derrubar Jair Bolsonaro, a qualquer custo.

São mais de seiscentos mil mortos gritando por isso. Mais de seiscentas mil pessoas que poderiam estar agora vivas, alegres, cuidado de suas famílias, divertindo-se com seus amigos e amigas… Mas morreram por causa do negacionismo e da desonestidade de Bolsonaro e seus asseclas. Primeiro negando a pandemia, depois envidando esforços para evitar a compra de vacinas reais, somente para tentar comprar uma vacina inexistente com superfaturamento bilionário.

Além disso, temos os ataques constantes à Ciência e à Educação. O homem que cortou 92% da verba da pesquisa científica no Brasil, chegou também ao ponto de nomear um semianalfabeto como Abraham Weintraub para o Ministério da Educação!

O meio ambiente está sendo destruído para que pecuaristas possam “passar a boiada”, como disse o Salles, para que garimpeiros invadam e vandalizem terras indígenas, para que o agronegócio transforme a Floresta Amazônica em uma vasta plantação de soja para exportação…

Vale também lembrar dos constantes ataques à democracia. Sim, eu sei que já afirmei aqui que não gosto da democracia como ela é hoje. Mas isso não quer dizer que eu queira ver uma ditadura de militares idiotas, banqueiros gananciosos e evangélicos intolerantes… Tudo isso sob a liderança de um idiota, ganancioso e intolerante como Jair Bolsonaro. Acontece que o Brasil esteve muito perto disso de 2019 para cá. E o perigo ainda não passou. Ainda assim, há pessoas que esquecem tudo isso e revoltam-se contra uma eventual aliança política que pode tirar o país desse risco.

Nem sempre é confortável ver algumas alianças políticas, mas devemos ser pragmáticos.

Ainda exilado na Alemanha, Lênin participou indiretamente da fundação do Partido Operário Social Democrata da Rússia (POSDR). Esse partido era uma coalisão de forças que desejavam a derrubada do czar Nicolau II.

Engana-se quem acha que havia algum tipo de “pureza ideológica” no POSDR. Ali se uniam marxistas revolucionários, socialistas de diversas correntes não-revolucionárias, anarquistas e até mesmo liberais que só queriam tirar o czar incompetente para substituí-lo por um governo eficiente e lucrar mais com isso.

As divisões internas eram muitas, mas todas superadas pela consciência de que o autoritário e incompetente Nicolau II tinha que cair. E foi o que aconteceu em fevereiro de 2017, justamente graças a essa coalisão de forças.

O que seguiu não foi um período de paz. Logo depois da derrubada do czar, as diversas forças dessa coalisão começaram a se chocar. Os marxistas revolucionários, no entanto, eram a maioria (bolcheviques) e mantiveram um certo controle da situação, mesmo dentro de um governo liberal. Até 25 de outubro daquele ano, quando aconteceu a segunda revolução, com o afastamento da minoria liberal e não-revolucionária (mencheviques) e a vitória do proletariado russo, consolidada apenas depois de anos de lutas internas.

Algumas vezes é preciso agir assim. Algumas vezes não dá para enfrentar sozinho o valentão da escola. Então você se alia com um outro valentão e, os dois juntos, quebram o inimigo comum na porrada. Claro que o novo valentão é uma ameaça, mas você aliou-se a ele, conhece o jogo dele, aprendeu sobre as fraquezas dele. Basta então esperar a hora certa para bater nele também. Talvez até com o auxílio de um terceiro valentão. E se você repetir esse processo, logo será reconhecido e respeitado como o cara que derrotou todos os valentões.

Geraldo Alckmin é um valentão menos perigoso que Jair Bolsonaro. Ele não tem nenhum carisma, sendo conhecido como “picolé de chuchu”. Ele não tem mais o peso do PSDB atrás de si, de modo que perdeu boa parte de sua força. Ele não tem a ignorância que tanto seduz as hostes bolsonaristas. Mas Geraldo Alckmin tem uma coisa importante: seu papel simbólico.

Como psicanalista lacaniano, eu seria um completo estúpido se não percebesse o que Luís Inácio Lula da Silva consegue unindo-se com Alckmin. Lula pode não ter a minha instrução formal, mas certamente é um dos homens mais inteligentes de todos os tempos desse país, em um sentido informal e muito prático.

Lula sabe que Alckmin é um sinal tranquilizador para os banqueiros e industriais. Ele é uma mensagem que diz, em luzes de neon, “Eu quero união e não promoverei nenhuma represália por causa do golpe contra Dilma ou por causa da minha prisão injusta”.

Se essa coligação realmente acontecer, será por isso. Porque Lula sabe que se os banqueiros e industriais alimentarem toda a indústria da mídia contra ele, como fizeram em 2018, não tem pesquisa que o faça vencer as eleições em 2022.

Aliás, eu nem mesmo entendo essa revolta por causa da união de Lula com um liberal social-democrata como Alckmin. Sim, porque Lula, dos anos 90 para cá, sempre deixou claras as suas teses social-democratas!

Lula nunca mentiu para ninguém neste ponto. Ele sempre falou abertamente em conciliar Capital e Trabalho, que é exatamente uma tese da social-democracia. Está lá, para quem quiser ver, em todos os discursos do Lula!

Lula certamente está mais à esquerda que Geraldo Alckmin. Mas ele nunca saiu por aí dizendo que era marxista revolucionário, por exemplo. Quando incitou o Trabalho contra o Capital, foi lá nos anos 70, durante as greves do ABC. Da Constituinte de 1986 até o presente momento, Lula sempre pregou a conciliação entre Capital e Trabalho, coisa que qualquer pessoa com conhecimentos apenas básicos em Teoria Marxista sabe ser impossível.

Lula é social-democrata!

Por que, então, essa revolta? Se você, que é marxista ou simplesmente está mais à esquerda, pretendia votar em Lula antes e diz que não votará agora por causa da aliança com Alckmin, você está sendo completamente incoerente. Você está deixando de votar em um social-democrata porque ele fez aliança com outro social-democrata!

Eu sou marxista-leninista. Salientei o leninista porque uma das coisas que mais admiro em Lênin é seu pragmatismo. Lênin não ficou em busca de nenhum purismo idealista quando desenvolveu seu projeto revolucionário. Pelo contrário, criticou duramente em seu livro “Esquerdismo, a doença infantil do Comunismo”, os marxistas alemães que se colocavam como puristas e recusavam-se a participar de processos eleitorais porque acreditavam que só a revolução traria a vitória. Lênin diz a eles que o processo eleitoral pode, e deve, ser visto como parte da revolução, como uma maneira de conseguir espaço para falar diretamente ao povo.

Lula não é o meu candidato ideal. Pelo um simples motivo: Eu não acredito em candidatos ideais! Ideal é algo que existe apenas no plano das ideias. E política, meu caro leitor, é algo muito concreto, muito real.

É por isso que votarei em Lula, com ou sem Alckmin! Porque sei que ele trará a estabilidade política necessária para que o estado de direito permaneça no Brasil, permitindo-me continuar a existir como ser revolucionário. Sob o bolsonarismo, em breve terei de largar minha família e cair na clandestinidade, já que eles pretendem criminalizar o Comunismo.

Eu não acho que Lula fará milagres, porque eu não acredito em milagres! Eu acredito em uma gestão pública honesta e transparente. E o desmascaramento da Lava Jato mostrou que o PT trouxe exatamente isso para o Brasil. Foi o PT quem criou o Portal da Transparência. Foi Bolsonaro quem tentou tirá-lo do ar.

Em resumo, voto no Lula com ou sem Alckmin, por coerência com o marxismo-leninismo e com tudo mais que acredito e sei. E convido você a fazer o mesmo, mesmo não gostando do Alckmin, como o companheiro Zé de Abreu explica tão bem nesse tweet.

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2 comentários

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  1. Perfeito! Parece que alguns esquecem que Lula só conseguiu vencer quando colocou um candidato da direita como vice e adotou o discurso lulinha paz e amor. Infelizmente o Brasil é muito conservador e dominado por uma elite que manda e desmanda, elege e “impichima”. Provavelmente Dilma não soube ser conciliadora como Lula foi.

  2. Nós temos uma missão que é a de derrotar o nazifascismo, o entreguismo e a visão obtusa que dominou esse país e que é totalmente prejudicial ao povo, como estamos testemunhando. Nós não temos o direito de errar e permitir mais 4 anos de trevas, esse país não aguenta.
    Alianças políticas não só são necessárias como são legítimas, quando feitas sob objetivos programáticas e não escusos. Essa história de ser contra a aliança com Alckmin é de uma miopia politica e de um “infantilismo” que só podem ser frutos de duas coisas: ou total analfabetismo politico ou má fé mesmo.