“O último a chegar é a mulher do padre!”

Quem nunca ouviu essa frase da boca de crianças que estão prestes a disputar uma corrida?

A frase, aparentemente inocente, na verdade está dizendo que aquele que correr menos, o mais lento, será pego pelo padre para ser “a mulher” dele naquela noite, ou seja, será capturado para ser usado sexualmente pelo padre.

O fato de uma frase assim estar tão entranhada em nossa cultura revela algo muito perturbador: a epidemia de abusos sexuais contra crianças por parte de padres católicos não é uma coisa nova!

Em 2009 o Drauzio Varella falava sobre esse assunto polêmico com o meu amigo Afonso Borges, no programa “Sempre um Papo”.

De preferência assista tudo. Mas, se não der, assista do ponto 5:20 em diante…

É como o Drauzio diz. Quem estudou em instituições católicas sempre soube desses abusos. Sempre.

Por que, então, tais abusos continuam existindo? Por que não são severamente punidos, de modo que outros potenciais perpetradores tenham medo?

A resposta está em uma só palavra: CONIVÊNCIA!

Conivência por parte da Igreja Católica como instituição, já que ela sempre envidou mais esforços para calar os acusadores do que para acabar com os abusos. O padrão da Igreja Católica sempre foi proteger seus padres, transferindo-os para outras localidades quando acusados.

Eu realmente compreendo esta atitude da Igreja Católica. Não respeito, mas compreendo. Como instituição, ela está protegendo seus interesses. Protegendo toda a riqueza que acumulou durante os últimos dois milênios, já que as acusações acabam gerando despesas, chegando ao ponto de algumas dioceses falirem devido às milhares de denúncias, como mostrado nesta matéria.

O que eu não entendo e nem respeito é a conivência dos católicos. Essa é incompreensível e imperdoável.

Porque instituições não têm filhos. Instituições não esperam por nove meses a chegada de uma criança. Instituições não se curvam nervosamente sobre berços à noite para checar se os bebês respiram. Instituições não conhecem a fragilidade dos bebês, não sentem o seu carinho. Instituições não acompanham o crescimento de filhos, não sabem o quanto eles nos amam e nos idolatram.

Instituições são apenas isso, instituições. Mas pais e mães que colocam seus filhos em escolas católicas ouviram por décadas as histórias de abusos. Em muitos casos, eles ou elas foram abusados também. Mas perpetuam essa monstruosidade mesmo assim. Tudo para proteger a igreja, para proteger a “fé”.

Sou pai. Meu filho tem sete anos e é meu melhor amigo, assim como minha esposa é minha melhor amiga. Por meu filho eu tive de corrigir muitos dos meus maus hábitos, já que ele imita tudo que faço e não quero que ele adquira a parte ruim do meu comportamento.

Se alguém machucasse meu filho, se alguém abusasse dele, sexualmente ou não, nada no mundo impediria a minha vingança. Eu destruiria essa pessoa, fosse como fosse. Não haveria perdão. Não haveria segunda chance. Nenhum ser humano e nenhum deus poderia impedir que eu caçasse essa pessoa e a exterminasse como se extermina um animal raivoso. E eu não fugiria da minha responsabilidade. Ao contrário, sentaria ao lado do cadáver e esperaria a polícia, que eu mesmo chamaria. Chamaria também a imprensa, e faria questão de contar por que eu havia matado aquela pessoa.

Mesmo sabendo que tais pensamentos não são compatíveis com o pensador, com o intelectual que sou, isso não muda nada. Eu procederia assim contra toda a lógica e contra toda a razão, simplesmente por não confiar em ninguém mais, exceto minha esposa, para realizar tão punição. E ela teria de ficar viva e livre para cuidar do nosso filho, restando para mim o dever, a obrigação moral de punir o agressor.

Por pensar assim, simplesmente não consigo compreender os pais e mães católicos que participam, de forma ativa ou passiva, do acobertamento dos abusos dos padres contra seus filhos. E são muitos os que fazem isso! Sim, porque são muitos os abusos!

216 mil crianças! E essas são apenas as que foram abusadas por padres e freiras!

Quando essa matéria saiu, em outubro de 2021, postei um comentário sobre ela nas minhas redes sociais. Em lugar dos abusos causarem revolta, foi o meu comentário que revoltou os católicos.

Uma pessoa acusou-me de querer prejudicar a Igreja Católica por ser comunista. Mas a minha revolta contra abusadores de crianças não é uma revolta política, é uma revolta humana.

Outro católico, igualmente revoltado, me disse que não apenas padres e freiras abusavam de crianças, mas também outras categorias, como professores ou policiais.

E está certo! É verdade! Abusos sexuais contra crianças são cometidos por pessoas de todas profissões, raças e credos. No entanto, há dois pontos a considerar sobre essa questão.

O primeiro é que isso não justifica nada, exceto na mente de pessoas moralmente doentes. Só assim para achar que o estupro de uma criança por um professor justifica o estupro de outra por um padre.

O outro ponto muito importante é que as associações de professores ou de policiais não andam por aí pregando santidade. A Igreja Católica sim. Você não verá associações profissionais condenando o comportamento sexual dos outros, como a Igreja Católica condena o tempo todo. Mas você verá a Igreja Católica excomungando crianças de dez anos que abortaram depois de engravidarem de um estupro. O estuprador não será excomungado, como bem diz o Drauzio Varella na entrevista acima, mas sim a vítima. Talvez porque tantos padres não se sintam bem com a excomunhão de um colega estuprador…

Finalmente, uma senhora católica apareceu para dizer que essa contagem era desde 1950, como se isso reduzisse o problema. Para mim isso só agrava a questão. Afinal, não se pode nem mesmo dizer esse é um problema recente! O que essa senhora tentou usar como desculpa, apenas mostra que há 71 anos os padres já abusavam de criancinhas inocentes. E que os católicos ficavam calados e aceitavam isso como normal.

Acredito, porém, que a senhora católica de vestes elegantes e que escrevia muito bem, quis mesmo foi usar o intervalo de tempo para “diluir” a gravidade do problema. Afinal, são 216 mil crianças, mas em 71 anos! Se a intenção é fazer um pouco de matemática, então vamos lá.

216.000 divididos por 71 ainda são 3.042 crianças por ano. Dividindo isso por 365 dias em um ano, ainda temos mais de oito crianças abusadas por dia. Como um dia tem 24 horas, isso significa dizer que nos últimos 71 continuamente, não se passaram três horas sem que um padre ou freira abusasse sexualmente de uma criança! E este número é apenas sobre a França!!!

Se fossem apenas os padres e freiras da França, poderíamos dizer que a Igreja Católica da França estava doente. Algum fanático religioso poderia até sugerir um “exorcismo institucional”, alegando que “o diabo havia tomado conta da igreja da França”. O problema, porém, não é apenas da França, mas do mundo todo.

Para entender isso precisamos apenas ver os efeitos da parceria entre a Igreja Católica e o governo canadense, onde instituições religiosas (em sua maioria católicas) foram encarregadas de “aculturar” as crianças indígenas.

Esse foi só o começo das macabras descobertas…

Sim, os mansos e doces canadenses, hoje conhecidos por pedirem desculpas até quando não precisam, criaram instituições para esmagar a cultura indígena. E deixaram essas instituições, em sua maioria, nas mãos da Igreja Católica, embora outras igrejas também tenham suas culpas pelo ocorrido.

Onde quer que encontremos a presença da Igreja Católica, encontraremos um histórico de abusos sexuais, sevícias, torturas e mortes de crianças. Até mesmo no Vaticano.

O esqueleto feminino encontrado no Vaticano, que tinha marcas de violência, foi associado com investigações passadas sobre eventuais orgias sexuais com menores bem no centro do mundo católico.

Não há como ignorar que o problema dos abusos contra crianças é global. Quer dizer, não há como ignorar se você não for católico.

Sim, porque os católicos dão sempre um jeito de ignorar tudo isso. Eu, que tenho muitos amigos católicos, já ouvi milhares de desculpas diferentes.

  • “A Igreja é santa e pecadora ao mesmo tempo” – E eu fico a perguntar onde está a parte da santidade quando um padre está violentando uma criança. Dormindo, talvez?
  • “Não se pode culpar a igreja pelo que fazem os padres” – Não? E por que quando um ateu comete um crime os religiosos acham que podem generalizar e dizer que aquele criminoso representa todos os ateus e cometeu o crime por “não ter deus no coração”? E que tal, então, culpar a Igreja Católica apenas pelas operações de acobertamento dos crimes dos padres?

Sei que serei atacado duramente por este artigo. Mas não vou me calar diante de coisas importantes só porque algumas pessoas preferem fingir que elas não existem.

Aliás, foi prevendo situações assim que hospedei meu blog em um servidor próprio, de modo que os atacantes não tenham como denunciá-lo ou tirá-lo do ar. Este é um blog independente e continuará a sê-lo, doa a quem doer.

Se os católicos não se importam com suas próprias crianças, eu me importo com elas. Do mesmo modo que me importo com meu filho. Porque permitir que uma criança seja abusada impunemente, coloca todas as crianças em perigo.

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4 comentários

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  2. Parabéns pela coragem de levantar esse questionamento, vivemos hoje num mundo de hipócritas e falsos moralistas, uma coisa é religião outra são as igrejas dirigidas por homens, que são venais, feliz 2022.

  3. Tudo o que vc falou está correto, sou católica e entendo que qualquer tipo de abuso deve ser punido exemplarmente.