Se você que está lendo tiver a chance de assistir ao filme “Antes do Anoitecer”, não perca a oportunidade.

Antes de Anoitecer (Before Night Falls) – 2001

Trata-se de uma adaptação do diretor Julian Schnabel da autobiografia com o mesmo nome escrita por Reinaldo Arenas (1943-1990).

Reinaldo Arenas nasceu na cidade de Holguín, em Cuba. Tinha apenas 16 anos quando o Comandante Fidel Castro desceu com suas tropas de Sierra Maestra e expulsou do poder o tirano Fulgêncio Batista, um títere dos Estados Unidos que manteve Cuba, por décadas, como o puteiro oficial dos mafiosos estadunidenses e dos estadunidenses ricos em geral.

Arenas, um intelectual nato, foi um entusiasta da Revolução Cubana. Mas a recíproca não foi verdadeira. A Revolução Cubana mandou Reinaldo Arenas para a cadeia, onde amargou anos de dor, tortura e privações.

O crime de Reinaldo Arenas foi, simplesmente, ser homossexual.

Esse tratamento dado aos homossexuais em Cuba foi uma herança soviética, lamento dizer. Os russos do início do século XX eram profundamente homofóbicos, mesmo que o termo nem existisse na época. Os russos de hoje, pelo que sei, continuam assim. E mesmo que os líderes da Revolução Russa fossem progressistas em muitas coisas, não eram progressistas nesse sentido.

Desde a fundação até a extinção da União Soviética, homens que assumiam publicamente um comportamento homossexual eram condenados a penas de cinco anos de trabalhos forçados em localidades distantes na Sibéria. Os poucos que sobreviviam às duríssimas condições, raramente conseguiam autorização para retornar para as principais cidades, como Moscou, Leningrado ou Stalingrado.

Havia até mesmo um termo para designar esses homens. Eles eram chamados de “zolotyye mal’chiki” (золотые мальчики), que é a expressão russa para “garotos dourados”.

Eu não vou tentar “dourar a pílula” (para usar uma expressão dos anos 60…) aqui, justificando com algum artifício retórico os crimes que foram cometidos pelos regimes socialistas contra os homossexuais. Quem me conhece sabe que não costumo buscar desculpas para as coisas. Prefiro analisar os fatos friamente, aceitar as coisas passadas como imutáveis e tomar providências para que coisas erradas não se repitam no futuro.

Este artigo é uma autocrítica necessária. Porque quando partidos socialistas como o PSOL se preocupam com as chamadas “pautas identitárias”, entre as quais a causa LGBTQIA+, é comum ouvirmos dos “direitistas” a acusação de que regimes socialistas não trataram bem os homossexuais no passado.

É isso mesmo. Os adoradores do “mito”, aquele ser desprezível que disse que era melhor ter um filho morto do que ter um filho gay, ousam levantar suas vozes para acusar-nos pelos crimes cometidos outrora por pessoas que compartilhavam nossas posições políticas, mas não nossas posições humanas.

Esse tema é sempre explorado pelos críticos do Comunismo. Até mesmo pelos críticos que são, eles mesmos, homofóbicos. Nada de estranho até aqui, pois sabemos que essas pessoas se alimentam de hipocrisia e defecam fake news, em uma constante diarreia verbal.

Não cabe a nenhum destes o papel de criticar-nos, mas a nós mesmos.

Não podemos permitir que essas posturas retrógradas e preconceituosas retornem ao nosso meio, de modo algum. Se queremos uma sociedade sem classes e sem um Estado repressor, não podemos reproduzir os comportamentos preconceituosos e, por que não dizer, criminosos do passado.

Nenhum ser humano deve ser julgado ou punido por sua sexualidade, exceto nos casos em que exerce essa sexualidade contra outras pessoas, como no estupro ou no abuso sexual de crianças.

Sexualidade e caráter não estão nem de longe conectados. O que adultos fazem consensualmente com seus corpos, na busca de prazer, não pode ser usado como parâmetro moral e muito menos criminalizado.

Se alguém espera que eu emita aqui algum posicionamento execrando homens como Lênin, Trotsky, Stalin, Fidel ou Guevara por causa dessas coisas, ficará esperando. Eles eram homens de seus tempos e não vivo em uma distopia anacrônica na qual posso julgar pessoas de outras épocas pelos parâmetros morais de hoje.

Todos esses homens foram homens de seus respectivos tempos. Todos eles tiveram as virtudes e os vícios de suas eras. Não os justifico, tampouco os condeno, visto serem os meus parâmetros humanistas muito mais recentes e avançados.

O que importa é que fique bem claro que esses homens não são “deuses” ou “ídolos” que nós pretendamos imitar, seja hoje ou no futuro. Eles viveram seus tempos, nós vivemos os nossos. E nos nossos, é inadmissível qualquer tipo de discriminação em decorrência da orientação sexual.

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