Você fazia alguma ideia de quem era Gkay até algumas semanas? Se sabia quem era ela, meus parabéns, pois você está melhor informado ou informada sobre o mundo das subcelebridades do que a maioria. Quando o nome dessa pessoa começou a ser bombardeado diante dos nossos olhos pela mídia, a reação da maioria das pessoas nas redes sociais foi mais ou menos assim:

Eu mesmo, que sou assíduo frequentador de redes sociais, e considero que sou uma pessoa razoavelmente bem informada, nunca havia ouvido sequer uma menção a essa Gkay até que começou o bombardeio.

E foi assim que a mídia construiu uma subcelebridade! De repente não se podia navegar pelos sites de notícias sem ler algo sobre a tal Gkay. E as pessoas, curiosas como são, é claro, logo começaram a pesquisar sobre ela. E aí entraram em ação os verdadeiros deuses da era tecnológica, os algoritmos.

Sim, porque quanto mais as pessoas pesquisam sobre algo, mais esse algo é considerado relevante pelos algoritmos, que passam a empurrar esses conteúdos pesquisados nas fuças de quem não tem o menor interesse em “influenciadores digitais”, como eu, e que só gosta de farofa das antigas, aquelas com farinha mesmo.

E foi assim que Gkay, de uma completa desconhecida, passou a ser “a influenciadora que parou o Brasil”. De minha parte, estou tão cansado neste fim de ano que até gostaria que ela tivesse parado mesmo o país. Mas não parou.

Assim como também não parou o país um tal de Zé Trovão, outra subcelebridade que foi construída pela mídia para assumir o controle do movimento dos caminhoneiros em setembro passado. Quando esse senhor começou a dar entrevistas como “líder do movimento dos caminhoneiros”, vários sindicatos e federações de caminhoneiros ergueram suas vozes para dizer que ele não era líder de nada, que nunca haviam ouvido falar nele. Depois foi revelado que o tal “líder caminhoneiro”, que agora é hóspede do sistema prisional, nem mesmo possuía um caminhão e nem tinha habilitação para dirigir caminhão! Mas o bombardeio do nome dele nas redes deu a ele um poder que ele não tinha. E audiência. De repente, caminhoneiros que nem sabiam quem ele era, passaram a ouvir o que ele dizia.

É assim que funcionam as coisas. A indústria cultural atingiu seu ápice com as redes sociais, produzindo nomes que se tornam famosos ao sabor das marés do comércio.

Sim, porque nada disso é de graça!

Os “influenciadores” surgem para vender algo. Pode ser uma marca, que os patrocina. Pode ser uma tendência de moda que desejam ver brotar para vender melhor. E pode até ser a captura de um movimento político, como no caso do Zé Trovão. Sempre há um interesse por trás de cada um deles.

A banda “Os Seminovos”, do amigo Maurício Ricardo, fala muito bem sobre isso na canção “Atitude”.

Ouça toda, mas principalmente logo depois de 1:50

“Nem a música que você canta / Sai de graça da garganta / Pagaram pra você escutar / Até aprender a gostar / Jabá! Jabá!”

Para quem não sabe, “jabá” é o nome dado à gorjeta que as gravadoras dão aos DJs das rádios para que toquem uma banda desconhecida até que se torne conhecida.

A indústria cultural, tão bem discutida pelos pensadores da Escola de Frankfurt, é assim. Ela não explora os seus gostos para lucrar. Ela constrói os seus gostos para lucrar.

Você não é visto pela indústria cultural como um ser humano, com gostos e sensibilidades próprias. Para essa indústria você é parte de uma massa amorfa e manipulável conhecida como “mercado consumidor”. Seus gostos e interesses são construídos através da propaganda e da repetição hipnotizante. Algo como nessa propaganda do chocolate Batom.

Compre Gkay, compre Gkay… Ou tudo que a Gkay mandar você comprar!

Se há uma coisa boa em relação às subcelebridades é que elas são efêmeras. Desaparecem do mesmo modo que surgiram, assim que o interesse que está por trás delas mudar de investimento.

Porque o Capitalismo encontrou nessas pessoas uma forma de contornar razoavelmente bem suas crises de excesso de produção, como previstas por Marx. Assim, quando passar o interesse dos capitalistas em divulgar um certo produto, uma certa marca ou uma certa tendência, eles promoverão um outro influenciador ou influenciadora, para o próximo produto, marca ou tendência.

É por isso que a banda “Os Titãs” compôs a música “A melhor banda de todos os tempos da última semana”. Uma gostosa brincadeira com a indústria cultural, que sempre anuncia cada novo escolhido como “o melhor de todos os tempos”… Só para lançar outro “melhor de todos os tempos” na semana seguinte.

Felizmente ainda temos pessoas que enxergam o mundo com outros olhos. Pessoas que ainda sabem distinguir qualidade real de qualidade artificial, fabricada. Pessoas que ainda conseguem distinguir a fama de um Ney Matogrosso, fundamentada em um talento sólido e demonstrado nos últimos 50 anos, da fama da Gkay, construída pelos algoritmos em poucas semanas, para desaparecer dentro de poucas semanas, ao sabor do comércio.

Gente como minha esposa e eu, que ainda ouvimos “Os Titãs”, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Elis Regina… Todos considerados pela garotada como velhos e ultrapassados. Vintage, que é a palavra elegante de hoje para dizer “velho e ultrapassado”.

O que será, porém, da geração seguinte?

Nosso filho de sete anos aprendeu a pesquisar no Youtube antes mesmo de saber ler direito. É, portanto, um candidato a vítima dos algoritmos, os deuses que decidem o que você deve ou não deve ver.

Liberdade de escolha?

Ah, isso é assunto para um outro dia… Como dizem os estadunidenses, “don’t get me started on this”.

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2 comentários

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  1. Tem um episódio, Ed de Almeida Jr da série Black Mirror chamado Nosedive, que faz uma ótima critica a essa “sociedade do espetáculo”, apresentada pelo filósofo Guy Debord e que você aponta. O que talvez passe desapercebido é que essa ‘sociedade dos influenciadores digitais”, onde a grande maioria é completamente rasa e fugaz, não serve somente à venda de produtos e a obtenção de lucro, mas funciona como eficiente forma de controle ideológico.