Depois que começaram a falar em “cristofobia” por aí, fui acusado muitas vezes de ter preconceito contra cristãos. Nada poderia ser mais falso do que isso.

Porque preconceito é um conceito prévio, ou seja, antes que você conheça alguém, já julga que conhece essa pessoa por causa de uma certa característica, que pode ser a cor, a orientação sexual ou até mesmo a religião.

É por isso que posso dizer, sem medo de errar, que não tenho preconceito contra os cristãos. O que eu tenho é um conceito bem definido deles, que não é nada bom, justamente por conhecê-los muito bem.

Claro que não é possível generalizar completamente. Certamente existem cristãos que são boas pessoas. O problema é que eles são raríssimos! Em meus 54 anos de vida, devo ter conhecido, com sorte, uma meia dúzia de cristãos que eu considero como pessoas decentes. E acreditem, eu conheci muitos cristãos em minha vida!

Infelizmente a maioria dos cristãos que conheci eram mentirosos, falsos, hipócritas, fofoqueiros, caluniadores, invejosos e muito mais. Isso, é claro, sem falar naqueles abertamente criminosos, como Edir Macedo, Flordelis e Guilherme de Pádua.

Para ilustrar, vou contar alguns casos sobre cristãos que me levaram a ter essa visão negativa, tanto deles quanto de sua religião.

Caso 1: O pastor hipócrita

Tinha alguns amigos de infância que, como costumo dizer, enveredaram pelo caminho do crime e acabaram virando pastores evangélicos. A despeito da nossa antiga amizade, hoje não nos falamos. E um dos motivos é o que passo a relatar.

Quando nos reencontramos, depois de mais de vinte anos sem contato, convidou-me para almoçar em sua casa. Claro que me convidou também para o culto matinal de domingo, o que aceitei. Terminado o culto, fui com ele e a esposa para a casa em que eles viviam, que ficava atrás da igreja. Lá chegando, apontou-me um rack cheio de CDs e sugeriu que eu colocasse uma música enquanto ele tomava um banho e a esposa terminava de preparar a comida.

Quando passei os olhos pelos CDs, tomou-me um forte desespero: Só música gospel. E música gospel combina tanto comigo quanto uma bicicleta combina com um peixe. Mas lá na prateleira mais baixa, ao nível do solo, onde ninguém olha costumeiramente, meus olhos captaram um vislumbre de esperança: um CD de rock! Metallica, para ser mais preciso. Uma das minhas bandas prediletas. O álbum era “Master of Puppets”, que considero o melhor deles. Imediatamente coloquei o CD para tocar. O volume havia sido deixado um pouco alto quando utilizaram o aparelho anteriormente. Mas quem é que quer ouvir Metallica baixinho, não é mesmo?

Não se passaram mais do que dez ou quinze segundos para que o meu (ex-)amigo chegasse à sala, ainda enrolado em uma toalha. A esposa, esbaforida, chegou quase ao mesmo tempo da cozinha. Ele chegou primeiro ao som e cortou o volume por completo. Depois pegou um par de fones de ouvido e entregou-me, dizendo: “Se quer ouvir música ‘do mundo’, tudo bem. Mas só ouvimos isso com fones para não escandalizar a igreja.”

Curioso, perguntei se ele achava que aquilo era “pecado”. Ele disse que não, mas que a igreja considerava e ele, por isso mesmo, só ouvia aquilo com fones. Insisti um pouco, perguntando por que ele não explicava para a igreja que aquilo não era nada demais e acabava com essa tolice, sendo ele o pastor. Ele me explicou que “não pegava bem”, no meio evangélico, dizer uma coisa assim. Que era preciso manter as tradições.

Quando eu expliquei que a única tradição que eu estava vendo era a tradição da hipocrisia, o clima azedou. Imediatamente senti que não era mais bem-vindo para o almoço. Dei uma desculpa qualquer e saí. Nunca mais voltei à casa dele. Ainda nos vimos algumas vezes, mas a amizade foi para o espaço. Afinal de contas, amizade depende de respeito. E eu não tenho nenhum respeito por hipócritas.

Caso 2: A namorada hipócrita

Já que estamos falando em hipocrisia, uma especialidade dos cristãos, permitam-me contar um caso ainda mais antigo que o que acabei de relatar. Este outro episódio data da minha juventude ainda, quando tive uma namorada evangélica.

Na verdade, várias. Devo dizer que sempre preferi namorar com moças evangélicas. Embora só tenha passado a estudar Psicanálise muito mais tarde, sempre soube intuitivamente que as repressões sexuais que essas moças sofrem desde a infância tornam-nas verdadeira bombas-relógio sexuais, de deliciosa explosão.

Esta jovem havia acabado de passar a tarde em meu quarto, em uma tórrida sessão de sexo. Como as camisinhas haviam acabado e temíamos uma gravidez, o último round havia sido de sexo oral recíproco.

Ainda tínhamos em nossas bocas o gosto dos fluidos um do outro, quando ela perguntou se poderia usar o telefone. Naturalmente, disse eu, pensando que era uma cortesia mínima para quem havia acabado de me proporcionar tanto prazer. Então ela pegou um número na bolsa e ligou para uma menina da sua igreja.

Devo esclarecer neste ponto que a minha namorada em questão era de uma igreja batista do bairro da Penha, onde exercia o cargo de “líder do grupo de louvor”. O que, para mim, significava apenas que ela falava muito bem no microfone, se é que me entende o leitor…

Tendo a outra moça atendido, minha namorada passou a dar uma bronca terrível nela. Pelo que eu pude entender, a outra moça, que era também do louvor, havia sido vista “dando uns amassos” em um muro perto da igreja. Minha namorada a estava advertindo e explicando, em termos enérgicos, que ela estava suspensa do louvor por “imoralidade”.

Eu confesso que fiquei chocado com o nível de hipocrisia dela. Ali estava aquela moça, que havia passado a tarde fazendo sexo comigo de todas as formas que o leitor puder imaginar, e algumas que não imagina, dando uma bronca na outra por ter sido vista dando uns beijos no pé de um muro.

Quando ela desligou, perguntei se ela não sentia vergonha por dizer todas aquelas coisas à colega por tão pouco, sendo que ela havia acabado de “pecar” muito mais. A resposta dela foi devastadora: “Tá. Mas ninguém viu o que eu fiz aqui.”

O namoro acabou ali. Eu, que achava a grande devassidão dela deliciosa, não conseguia conviver com a hipocrisia dela, que era ainda maior.

Caso 3: O pastor trambiqueiro

Sim, eu tenho muitos amigos pastores. Andar em más companhias sempre foi um dos meus “pecados” favoritos. Que posso fazer?

Um desses amigos havia acabado de fundar sua própria igreja batista “reformada” (um sinônimo para “pentecostal”), depois de ter sido expulso da Convenção Batista Brasileira por começar a “falar em línguas”.

Eu sabia que ele estava enfrentando dificuldades. Poucos membros, pouco dízimos. Não foram poucas as vezes em que fiz compras e levei para a casa dele, de modo que sua esposa e seu filho não passassem necessidades. É parte do meu “jeito ateu de ser” fazer coisas assim.

Acontece que, nessa época, troquei meu computador. Trabalho com isso e não posso ficar muito ultrapassado tecnologicamente, então troco meus computadores a cada ano e meio no máximo. E como eu sabia que o meu amigo desejava muito ter um computador na igreja dele, resolvi doar o antigo para ele.

Para minha surpresa ele já havia recebido um computador como “oferta”. Agradeceu-me e disse que se eu realmente quisesse ajudar, um outro pastor conhecido dele, que estava vivendo uma fase semelhante, havia comentado o quanto desejava um computador.

Ora, para mim não fazia diferença alguma quem receberia o equipamento. Fomos então no meu carro até a igreja do amigo dele, a quem ofereci o computador.

Ao contrário do meu amigo, que era uma pessoa de grande educação e gentileza, o outro pastor mostrou-se frio e arrogante. Tratou-me como se eu quisesse vender o computador, embora tenhamos deixado claro que era uma doação. Perguntou-me quanto valia aquele computador. Como a história é antiga, não lembro bem o valor que mencionei, mas lembro de ter insistido novamente que eu não queria pagamento, que era uma doação.

Ele insistiu que eu recebesse. E insistiu de novo, de novo… Acabei achando que ele estava envergonhado de receber uma doação valiosa de um completo estranho. Então dividi mentalmente o valor do computador por dois. E dividi de novo. Digamos, para efeito de exemplo, que o equipamento valesse quatrocentos reais. Eu disse que aceitaria cem reais como pagamento. Não era mais uma doação e ele não precisava mais ficar envergonhado, se fosse esse o caso. E eu estaria ajudando do mesmo modo, fazendo para ele um preço praticamente simbólico.

Foi aí que ele perguntou se eu aceitaria um cheque pré-datado.

Entediado com a atitude dele, expliquei que se ele não tinha o dinheiro, era mais fácil simplesmente aceitar a doação. Ele insistiu novamente e fez um cheque, datando-o para trinta dias adiante. Nos despedimos e fomos embora.

No mês seguinte, o cheque dele voltou.

Eu retirei o cheque do banco e fui até a casa dele. Não era minha intenção cobrar nada. Eu não queria aquele dinheiro e só havia recebido o cheque mediante a insistência dele. Só queria entregar o cheque para que ele o apresentasse a seu banco e pudesse eliminar a anotação de emissão de cheque sem fundo, que poderia prejudicá-lo.

À porta, a esposa dele disse que ele não estava. Eu estava de moto nesse dia. Parei em um bar na esquina da casa dele e pedi um refrigerante gelado. O dia estava quente e eu estava de blusão de couro e capacete, cozinhando ao sol do interior da Bahia. Estávamos em Juazeiro.

Mal havia começado a tomar meu refrigerante quando vi o portão da garagem da casa dele abrir-se e o referido pastor sair com seu carro. Ele estava em casa quando eu bati e não quis atender-me, provavelmente acreditando que era uma cobrança.

Agora eu estava furioso. Joguei o dinheiro do refrigerante no balcão e nem mesmo peguei meu troco. Coloquei o capacete, arranquei com a moto e segui o carro dele.

Lá na frente, quando ele parou em um sinal, abordei-o. Mesmo furioso, ofereci a ele o cheque, dizendo que não queria receber o dinheiro dele e que ele não precisava fugir de mim nem mentir. O homem ficou furioso: “Um servo do senhor não mente. O senhor está atacando um homem de deus e isso não vai ficar barato. Passe na minha igreja esta noite e eu pago o senhor.”

Agora eu queria receber. Só pela arrogância dele, eu queria receber. Telefonei para o nosso amigo em comum, que nos havia apresentado, pegando o endereço da igreja dele. Fui ao culto e lá estava ele, no púlpito, pregando moralidade e honestidade. Ao ver-me na primeira fila, convocou outra pessoa para conduzir a oração e chamou-me ao seu escritório. Seguiu-nos até lá um senhor de mais idade, que se apresentou como dono de uma loja de tintas na cidade. O homem foi quem tirou o dinheiro do bolso e resgatou o cheque.

Vejam o caráter débil dessa criatura. Preferiu dar um calote, mentir e explorar outra pessoa para que pagasse sua conta, quando poderia simplesmente ter sido humilde e aceito o computador como doação.

Esses são apenas alguns dos casos que me fizeram desacreditar do Cristianismo e dos cristãos. Não se trata de preconceito, como eu já disse. É mais um sólido conceito baseado nessas e em muitas outras experiências similares que vivenciei.

Querem saber como eu tive tantas experiências com cristãos? Pois esperem até fevereiro do ano que vem, quando lançarei meu livro “Por dentro da igreja cristã”, no qual relato a experiência de ter vivido por um ano como pastor, frequentando centenas de igrejas em vários estados brasileiros.

Sim, para conhecer de perto a hipocrisia e as fraudes das igrejas cristãs, eu fui um falso pastor por um ano inteiro. E tudo que descobri foi que a maioria dos pastores são falsos pastores por toda a vida…

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4 comentários

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  1. Assino embaixo. Eu nasci e fui criada (pelos meus pais) na Assembleia de Deus . Só consegui sair depois da morte dos meus pais.
    Fui galgando todos os postos acessíveis para mulheres (Professora da Escola Dominical, Solista/Auxiliar de Regente do Coral, Dirigente de Oração, até chegar a Pastora – cargo que eu recusei e fui procurar meu caminho).
    Tenho amigos “pastores” desses tipos que você descreve, até hoje. Há cerca de 8 anos atrás, fui “pedida em namoro” por um traste desses, quando eu e meu esposo frequentávamos a casa dele, também casado.

    1. Eu tenho certeza de que o pastor que te pediu em namoro considera a si mesmo como um “homem de deus”. E com certeza ele consegue achar uma justificativa “bíblica” para você aceitar.

  2. Muito bom o texto, meu caro Ed! Conheci, na minha vida, mais religiosos pilantras que mulheres fogosas, o que é uma lástima… Mas, o que se há de fazer? Tomarei uma pinga curtida em uva passa, brindando ao seu blog!

    1. Obrigado pelo brinde! Espero que uma hora dessas apareças aqui em Bombinhas/SC e possamos erguer uns copos pessoalmente. Quanto às mulheres fogosas, certamente foram em número muito menor que os religiosos pilantras. Dei sorte em alguns momentos, só isso! Forte abraço!