Ah, o amor romântico! Que coisa linda o amor romântico!

É tão bonito nos filmes quando toda a dramática história de um casal termina com um lindo beijo, culminando com as letras subindo na tela e mostrando o encerramento: “The End”.

Acontece que não há letrinhas subindo na tela da vida. O beijo não é o fim das histórias de amor. Na verdade, muitas vezes é apenas o começo delas. E o fim, em mais casos do que gostamos de pensar, não tem nada de romântico. Para muitos é até catastrófico!

Não vou atribuir ao romantismo todos os males dos relacionamentos humanos. Mas direi, sem medo de errar, que eliminar esse falso romantismo dos livros e dos filmes pode ajudar a tornar as vidas de muitas pessoas muito melhores.

O mito do amor romântico, eterno, exclusivo, indissolúvel, sempre ardente… Não passa de mais um mito em uma era de tantos mitos, todos muito frágeis, falsos e danosos.

O problema do mito do amor romântico é que muitos acreditam nele. E por acreditarem, constroem expectativas difíceis, praticamente impossíveis, de serem satisfeitas.

Não há casal eternamente ardente no sexo, por exemplo. Muitos casam-se lá pelo final dos vinte, esperando que o ardor dos primeiros meses se perpetue, dure até que estejam ambos na meia-idade, quiçá até na velhice.

Esse mito começa a desfazer-se quando vem o primeiro filho. Não há casal ardente nos primeiros meses depois de um parto. Ela exausta fisicamente pelos nove meses de gestação. Vem também a prolactina, hormônio que incentiva a produção de leite e reduz drasticamente a libido feminina durante a lactação. Ambos esgotados por acordarem várias vezes por noite para amamentar e trocar fraldas. E tudo isso diante da estatisticamente improvável hipótese do pai ajudar nessas coisas! Em muitos casos é apenas a mulher quem vai lidar com tudo isso. E ainda com as exigências sexuais dele…

Sim, eu sei que você dirá que os filhos não ficam bebês para sempre. E eu concordarei, desde que você concorde que isso não muda nada. E se muda, é para pior. Quem tem filhos sabe do que estou falando. Uma hora é a exaustão de passar o dia no trabalho e depois ter de dar atenção àquela criança cheia de energia que você ama. Outra hora é a criança que chama na hora H e quer dormir na cama com vocês, porque acredita que tem um monstro debaixo da cama dela. E aquele tesão monstro, que vocês estavam começando a cultivar naquele momento, vai por água abaixo.

Quando tudo isso acaba e os filhos estão morando em suas respectivas casas, vocês estão na meia idade. Os corpos fortes e flexíveis de outrora agora acumulam duas coisas que vocês nem sabiam o que eram quando casaram: dores e tecido adiposo!

Há também o mito romântico da exclusividade. Porque você casou com ela e ela casou com você, ambos precisam tornar-se cegos para os atrativos de outras pessoas. Mas vocês não ficam cegos. Fingem, olham dissimuladamente, fecham os olhos na hora do sexo e pensam em outras pessoas. Você pensa na vizinha gostosa do andar de cima. Ela no personal trainer da academia. Ou ela pensa na vizinha gostosa do andar de cima e você no seu personal trainer da academia. Não importa muito. O que importa é que atrações surgirão e vocês terão de viver uma vida de contenção, de recalque, de frustração, sem aproveitar as oportunidades de prazer que aparecem. Tudo por causa do mito romântico da exclusividade, que não decorre de nenhuma forma de amor, mas surge como uma forma de preservar o patrimônio das famílias, assegurando que os filhos do casal tivessem sempre pais dentro do casal e nenhum filho de um estranho herdasse daquele patrimônio. Mas que raios! Hoje há camisinhas, pílulas, pílulas do dia seguinte e muito mais! Por que vocês continuam frustrados e recalcados?

O bolo de divórcio pode ser tão saboroso quanto o de casamento…

Ah, o mito da indissolubilidade! Esse é talvez o mais perigoso e fatal de todos. Basta ler os jornais e todos os dias você lerá sobre um cadáver, algumas vezes mais de um, gerado pelo mito da indissolubilidade.

Praticamente todos os dias uma mulher é morta por um ex-companheiro, pelo simples fato de não querer mais seguir com a relação. Em alguns casos o ex-companheiro até aceita que ela se separe, mas não que tenha outra pessoa. Quando ela arranja um namorado ou namorada, é assassinada. Mais um sacrifício ritual nos altares do amor romântico.

Mais raramente acontece o oposto. É ela quem não aceita o fim do relacionamento e mata. Ainda esta semana li sobre uma policial civil do Distrito Federal que já foi presa quatro vezes por agredir, assediar ex-companheiros ou violar ordens de restrição solicitadas por eles. Na última vez, furou os pneus do carro dele com uma faca. E quando ele apareceu para reclamar, esfaqueou-o nas costas. O caso me parece a crônica de uma tragédia anunciada. Cedo ou tarde ela conseguirá uma arma e matará. Ou ele a matará, na tentativa de não ser morto por ela. Duas vidas destruídas pelo mito do amor romântico.

Não seria tão bom se nada disso existisse?

Não seria tão bom se as pessoas caminhassem juntas por um tempo e quando reconhecessem que seus caminhos não mais coincidiam, seguissem suas vidas sem culpas e recriminações, cada um para o seu lado?

Não seria tão mais simples se as pessoas compreendessem que o sexo casual com outras pessoas, por puro tesão, não é uma ameaça ao amor? E que se no meio desses envolvimentos casuais surgisse um interesse mais duradouro, isso era um sinal claro de que o tal amor não existia mais?

Não seria tão mais bonito se as pessoas pudessem dizer “adeus” para quem haviam amado sem tantas mágoas, guardando no peito apenas momentos bons, nunca ressentimentos?

Tudo isso é impedido pelo mito do amor romântico.

Essa concepção falsa de que o amor é único, exclusivo, eterno, ardente… só tem servido para arruinar vidas, frustrar pessoas, destruir felicidades.

A minha proposta é que solicitemos aos escritores e cineastas que troquem a frase final. No lugar do “e foram felizes para sempre” e do “fim”, coloquem mais ou menos o seguinte.

“E eles seguiram juntos por algum tempo. E foram felizes, até que não deu mais…”

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