Há exatos 57 anos, quase três anos antes do meu nascimento, uma rajada de tiros de metralhadora ceifou a vida de um dos homens que mais respeito na história recente da humanidade.

Ele nasceu Malcolm Little, porque Little foi o sobrenome que o homem branco escravizador deu a seus ancestrais. Extremamente inteligente, destacava-se na escola e desejava ser um advogado, até que um professor branco disse a ele que isso estava além de sua capacidade, por ser negro, mas que ele poderia ser um bom marceneiro.

Depois de uma juventude turbulenta, que o levou para o caminho das drogas e do crime, Malcolm Little acabou preso, sentenciado a dez anos por roubos. Na cadeia, enfrentando a abstinência das drogas, gritava tanto e de forma tão violenta que os outros presos o chamavam de “demônio”.

Então ele conheceu a Nação do Islã, um grupo religioso fundado por Elijah Mohammed, suposto profeta do Islã.

Convertido, Malcolm Little transformou sua vida. De assaltante drogado ele passou a ministro religioso e homem de família. Nascia ali Malcolm X, nome que passou a usar para representar o desconhecimento do seu nome tribal real, que havia sido roubado de seus ancestrais junto com a liberdade.

Anos depois Malcolm descobriu que Elijah Mohammed era uma fraude hipócrita. Pregava uma moralidade que não praticava. Sendo um homem casado, mantivera várias amantes ao longo dos anos. Malcolm procurou-o para esclarecer as coisas, ainda respeitoso com o homem que o havia tirado do caminho do crime. Elijah Mohammed expulsou Malcolm da Nação do Islã e condenou-o à morte. Mas essa só viria tempos depois.

Foi então que surgiu uma oportunidade de ir a Meca, como todos os muçulmanos devem fazer ao menos uma vez na vida. E ele foi.

No Oriente Médio encontrou com eruditos do Islã e descobriu que tudo que havia sido ensinado por Elijah Mohammed era mentira. Outra decepção. Mas descobriu também outro lado do Islã: uma religião internacional, para negros e para brancos.

Ele retornou de sua peregrinação para Meca transformado. Pode-se dizer que muito do ódio que havia antes dentro dele havia desaparecido. Allah não era exclusivo dos negros, como ele pensara até então. Então, se Allah também era o pai dos brancos, quem era ele para odiá-los? A transformação espiritual que ele viveu em sua viagem para Meca foi tão grande que ele, ao voltar, mudou novamente de nome. De Malcolm Little para Malcolm X. De Malcolm X para el-hadj Malik Shabbaz, um homem novamente renascido.

De volta os Estados Unidos, Malcolm tornou-se um homem caçado. Sua casa, a casa em que morava com sua família, foi incendiada. Ele passou a dormir longe de sua esposa e de suas filhas, uma noite em cada hotel.

Quando era um dos líderes da Nação do Islã, Malcolm fundou um grupo paramilitar chamado “Fruto do Islã”, no qual homens muçulmanos negros treinavam artes marciais e disciplinas militares, para protegerem suas comunidades contra os abusos dos brancos.

Foram justamente alguns rapazes do “Fruto do Islã” que mataram Malcolm, quando ele palestrava como fazia sempre. Sua esposa grávida ajoelhou-se ao seu lado para tentar salvá-lo. Suas filhas assistiram o pai morrendo.

Quem morreu em uma poça de sangue naquele dia não foi Malcolm Little nem foi Malcolm X. Não foi nem mesmo el-hadj Malik Shabbaz. Quem morreu ali foi um ideal de respeito para as pessoas negras.

Mas ideias nunca morrem. E como Malcolm X tinha tanto talento em reinventar-se e renascer das crises, as ideias dele ainda estão por aí, brotando novamente aqui e acolá. De tempos em tempos um policial branco coloca o pé no pescoço de uma dessas ideias e a sufoca, como fizeram com George Floyd, mas a ideia renasce lá na frente, com mais força.

Vidas negras importam!

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