Oito de março de 2021. Um menino de quatro anos de idade acaba de ser espancado mais uma vez pelo namorado de sua mãe, um vereador do Rio de Janeiro, cristão e conservador, que atende pelo nome de “Dr. Jairinho”. Em seus “santinhos” de campanha, “Dr. Jairinho” apresenta-se assim:

Defensor da família. Certamente não da família de Henry Borel, porque naquela noite de oito de março de 2021 ele destruiu essa família.

Sim, porque naquela noite “Dr. Jairinho” foi longe demais em seu espancamento. O laudo de 36 páginas assinado por oito peritos forenses fala em 23 lesões encontradas no corpo do menino durante a autópsia: escoriações, hematomas, hemorragias em três partes da cabeça, infiltrações, contusões nos rins e nos pulmões, laceração no fígado.

Henry Borel morreu. E quando ele morreu, morreu a única pessoa realmente inocente nessa história toda. Sim, porque o assassino espancador “Dr. Jairinho” não é o único culpado dessa tragédia.

Com a perícia dos celulares do assassino e da mãe da vítima, ficou evidente que a babá Thayna, que supostamente cuidava da criança, já havia informado Monique Medeiros das surras que o assassino dava no menino.

Como aceitar o fato de que uma mãe permita que seu filho seja espancado até a morte sem tomar nenhuma iniciativa contra o agressor? Por que ela não agiu? Por que não denunciou? Porque não procurou o pai de Henry para tomarem juntos uma iniciativa contra o agressor? Por que ela não protegeu seu filho com a própria vida, como é dever de qualquer mãe e de qualquer pai?

Não, não dá para isentar de culpa uma mãe que age assim. E, principalmente, depois de assassinado seu filho, participa de um grande esquema de encobrimento para salvar o namorado assassino! No meu critério, Monique Medeiros é até mais culpada do que “Dr. Jairinho”, o cristão conservador espancador. Ele, além de monstro, não tinha nenhum laço afetivo com a criança. Ela tinha, assim como tinha o dever de protegê-lo.

Na verdade, também não dá para isentar de culpa o pai da criança. O menino havia dito a ele que o namorado da mãe batia nele.

Uma pausa para uma colocação pessoal aqui…

Casei tarde, aos 44 anos. E fui pai às vésperas de completar 47 anos. Tenho hoje 54 e meu filho, Dionysio, 7 anos.

Quando casei, não pensava em ser pai. Considerava-me velho para isso e tinha medo de morrer antes de deixar um filho adulto e capaz de cuidar de si mesmo. Mas minha esposa, quase uma década e meia mais jovem, queria muito ser mãe e convenceu-me. Mas fizemos acordos em relação a isso.

Um dos acordos era justamente sobre a possibilidade de um futuro divórcio e sobre como lidaríamos com nosso filho se isso ocorresse entre nós. Sim, porque cada um pode ter vários ex-maridos e ex-mulheres, mas filhos nunca são “ex”.

Combinamos que se um dia nos separássemos e voltássemos a nos relacionar com outras pessoas, nosso filho teria de ser prioridade. Qualquer um, fosse companheiro dela ou companheira minha, que maltratasse nosso filho, teria de ser afastado ou afastada, sem hesitação. Se um não fizesse isso, o outro poderia fazer sem medo.

Se o meu filho chegasse para mim e dissesse que um namorado da mãe espancou ele, eu iria atrás desse sujeito com tudo que tivesse. Se eu percebesse que não tinha condições de dar uma surra no espancador, não hesitaria em agir covardemente. Atiraria nele pelas costas, bateria nele um pedaço de pau quando estivesse distraído… Enfim, o sujeito sofreria como meu filho havia sofrido na mão dele. Da mesma forma, se uma namorada minha agisse contra meu filho dessa forma, eu quebraria uma regra e daria uma surra nela, também sem hesitar. Nunca fui de bater em mulheres, mas sempre há exceções para tudo na vida. E a mulher que espancasse meu filho seria essa exceção.

Em ambos os casos eu provocaria um dano tão grande que a pessoa, fosse homem ou mulher, temeria até aproximar-me do meu filho novamente. E se eu percebesse que a agressão era um ato de psicopatia, executaria a pessoa espancadora, pois sei que psicopatas não têm medos e poderiam voltar a atacar.

Simples assim. Duro de dizer, talvez duro de ler, mas é assim que eu procederia. Meu filho primeiro! Sempre!

Aliás, outro acordo era sobre isso. Nem mesmo eu ou minha mulher poderíamos espancar nosso filho. Eu a fiz prometer que, se eu um dia fizesse isso, ela me mataria. Porque eu faria isso com ela tranquilamente para proteger o Dionysio.

O pai de Henry Borel não fez nada. Na véspera, mesmo tendo notado que o filho estava vomitando devido a um espancamento prévio, relatado pela criança, devolveu o filho para a mãe e para o assassino. No meu entender, essa omissão covarde o faz tão ou mais culpado do que o assassino.

Quando está alegre e feliz, meu filho divide suas atenções entre a minha esposa e eu. Mas quando está com medo de algo, é para mim que ele corre, como se soubesse, desde a mais tenra infância, que o papai é a parte mais forte fisicamente para protegê-lo. Um pai que sabe que seu filho foi espancado e o devolve para o espancador é, para mim, um ser tão desprezível quanto o assassino.

Além disso, não era um pai ignorante, que não sabia como agir. Se não tivesse a coragem física de confrontar o agressor de seu filho, sabia ao menos que poderia procurar uma Delegacia de Menores e registrar um boletim de ocorrência contra o “Dr. Jairinho”. Ou procurar o Conselho Tutelar. Ou ainda contratar um advogado e conseguir uma medica cautelar ou, até mesmo, uma mudança na guarda da criança.

Nem a babá é totalmente inocente nesse caso. Porque proteger os mais fracos é uma obrigação moral e legal. Omitir-se diante de uma agressão é crime. Especialmente de uma agressão contra uma criança de apenas quatro anos, completamente indefesa diante de seu agressor. Se ela não tinha coragem para intervir, que chamasse a polícia anonimamente. Ou pegasse a criança e fugisse do local, levando-a para local seguro. Mas não, ela não fez nada. Calou-se enquanto uma criança era morta por pancadas de um adulto covarde e sujo.

O caso Henry Borel é peculiar, porque todos os culpados estão vivos, enquanto o único inocente foi condenado à morte pela brutalidade, pela cumplicidade, pela conivência, pelo descaso ou pela covardia dos envolvidos.

O caso vem tendo alguns desdobramentos curiosos.

Dias atrás minha esposa mostrou-me uma reportagem que falava sobre a mudança de posição de um dos advogados que militava pela família de Henry Borel e que, sem mais nem porquê, havia passado para a defesa do “Dr. Jairinho”, em um claro conflito de interesses que, como sempre, acaba ignorado pelo corporativismo da OAB.

Agora me aparece esta outra reportagem:

Monique Medeiros, “mãe” de Henry Borel (as aspas são propositais…), foi acusada por outras presas de ter exibido seus seios para que um dos advogados que a defende pudesse masturbar-se do outro lado da sala de atendimento, onde advogado e cliente ficam separados por um vidro.

A coisa toda está recheada de um moralismo absurdo como o que denunciei neste outro artigo aqui do blog. Começa com as presas e acaba com o público em geral.

Sim, aquelas mulheres que denunciaram não estão ali por nada. São elas próprias assassinas, ladras, extorsionistas… Enfim, todas criminosas condenadas, mas que assumem uma postura do moralismo sexual, apontando essa exibição da Monique como algo criminoso.

Aqui vemos novamente a diferença entre “moralismo” e “moralidade”. As mesmas mulheres que são capazes de cometer crimes bárbaros, condenam outra mulher por algo que só diz respeito a ela e ao advogado punheteiro.

A sociedade, em geral, também parece mais preocupada com o fato dessa mulher exibir os seios do que com o fato dela ter permitido o assassinato do filho e sido cúmplice do assassino.

É um reflexo do moralismo sexual da nossa época. O mesmo moralismo do “menino veste azul, menina veste rosa” que a “doida da goiabeira” vive expressando. O mesmo moralismo que faz uma multidão parar na porta de um hospital para xingar uma menina de dez anos que havia sido estuprada pelo tio e engravidado, recorrendo a um aborto legal, mas não faz nenhum “cristão conservador moralista” ir para a porta da cadeia xingar o tio estuprador.

Tristes tempos os nossos!

A nossa maior batalha hoje deve ser para subverter esse moralismo dos cristãos conservadores. Para expor suas contradições e sua hipocrisia para que todos vejam. Se não conseguirmos fazer isso, acabaremos sempre reféns dessa falsa moral.

Quanto aos envolvidos na morte de Henry Borel, eu realmente gostaria de acreditar, em uma hora dessas, que existem um céu e um inferno. Um inferno para todos os envolvidos, “Dr. Jairinho”, Monique Medeiros, Leniel Borel, Thayna e quem mais tenha contribuído para a morte dessa criança. E um céu para que esse menino inocente pudesse ter alegria e conforto que compensassem o sofrimento pelo qual passou.

Infelizmente, porém, eu sei que tudo isso é uma grande besteira. E que se a justiça falhar aqui, os culpados sairão impunes e a vítima terá recebido a pena de morte.

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